O Poema Infinito (43): a eternidade
A eternidade é um relâmpago. As vias do desassossego voltam a invadir o horizonte, descobrindo na sua unidade aberta ímpetos concretos de paixão. São altas as palavras estremecidas pela tua ausência. A luz tropeça nos ponteiros da gravidade e a alma estuda as promessas que se separam de Deus. Religiões longínquas distanciam-se do ímpeto concreto da vigília. O silêncio maior toma agora conta do rigor profundo do adeus. O teu corpo emudecido irradia nomes transfigurados. Um dilúvio de brilhos torna feliz o silêncio acústico da água. Noé e os seus animais descem da arca espantados com o paraíso. O mundo é agora um domingo sacramentado pelo eco da salvação. O pensamento abre a claridade das causas imponderáveis. O tempo urge. É ainda antigo o pecado original. É ainda ancestral a posse vaginal. É ainda vingativo o enigma da vida. A lei da sobrevivência dispensa a sabedoria dos livros. A terra recupera os seus frutos maduros. A noite sossega o dia. Os homens sábios estudam a velhice e erguem-lhe monumentos exaustos. Os corpos e os espíritos misturam-se compenetrando-se da sua abstracção. Deus dá indícios de impaciência. Os anjos tremem. A Sua subtil firmeza de absurdo queimou o exercício da vida. A solitária teimosia da criação do mundo discriminou, para sempre, a razão humana. Por isso somos a energia do nada. A energia da epifania do sagrado. Os homens implodem na gravitação do infinito. Somente a glória do presente concede as tréguas da vida. A memória é um fósforo cicatrizado na lucidez. A luz divina repousa agora na harmonia do silêncio. E esse silêncio rompe o eterno vagar do sentido da vida. Deus escreve na escuridão antiga do Verbo. Por isso o mundo está suspenso na irracionalidade. A matéria põe a mesa do espírito. A transparência luminosa da glória consubstancia a unidade da vida. Deus pede o resultado da sua ordenação. A sua tepidez divina estende-se pelo sofrimento iluminado da lei, da ordem e do caos. Os anjos ganham sexos robustos por desregramento celestial. A eternidade já ultrapassou o seu excesso de felicidade.

