O Homem Sem Memória
59 – José só vislumbrava uma possibilidade de fuga à condição do frio e da solidão. Arranjar namorada. Por isso começou a rondar, sempre que o dispensavam, o Liceu e a Escola Técnica. Namorar uma rapariga não podia ser pecado maior do que um aprendiz de padre ter frio e ir-se deitar na cama de outro homem. Um homem dormir com outro homem em pecado é um sofrimento pavoroso. Passou a andar ainda mais sozinho.
Lia nos jardins, enternecia-se com o frágil bailar dos pássaros, com os seus cânticos chilreantes e buscava inebriado uma rapariga que o atingisse com o seu encanto e se deixasse tocar pelo desespero amoroso e solitário. Um dia encontrou-a. O que lhe chamou logo a atenção foram os seus enormes olhos. Que eram verdes, com pálpebras como asas de cotovias e pestanas grandes e genuinamente arqueadas. Usava calças à boca-de-sino, muito coloridas e estampadas com losangos, muito cingidas nas ancas, torneando-lhe às nádegas e as coxas com um toque clássico. Era fácil adivinhar-lhe a nitidez do corpo. E para isso a blusa, também apertada, sugeria linhas esbeltas e uns seios bem proporcionados. Também tinha uns lábios carnudos e um sorriso cheio de alegria reservada, mas genuína, revelando uma certa instabilidade emocional. Ela estudava no Liceu. Como era de Tourém, vivia interna numa residência de freiras. Foi por ser do barroso que estabeleceram de imediato uma amena conversa. Para não haver equívocos futuros, disse-lhe logo que era estudante no seminário. Ela sorriu e disse que, pelo que sabia, a amizade com raparigas não estava proibida aos seminaristas. Ele, sorrindo também, confirmou a evidência. “E se a amizade fosse dar a outra coisa?”, perguntou-lhe o José atrapalhado. “Aí logo se vê. O futuro a Deus pertence”, respondeu ela sorrindo muito, fazendo brilhar o marfim dos seus lindos dentes. Ele, rindo-se mais, exprimiu que essa era uma ideia pela qual tudo faria para não olvidar. E continuaram a falar esquecendo-se do tempo e da condição. Galhofando como tontos, felizes por recordarem a beleza agreste da sua terra, o frio e o calor da lareira, a ceia fumegante comida no escano, a saudade da família, as brincadeiras com os colegas, a liberdade. Ambos confessaram que se sentiam sozinhos e que tanto as freiras como os padres eram pessoas de coração duro, de palavras agrestes, de sentimentos pouco cristãos, falsamente puritanos, sexualmente ambíguos e sentimentalmente promíscuos. Eram pessoas secas, com pouco para dar. Como se a dedicação a Deus lhes roubasse a grandeza humana que tanto apregoavam. Descobriram que gostavam muito de ler, por isso combinaram trocar livros e ideias. Feliz, o José convidou-a para irem beber uma laranjada ao café. Ela recusou porque por lá lanchavam muitas das beatas que frequentavam a igreja e praticavam a caridade como quem compra um bilhete da lotaria para a eternidade. Ele sorriu muito com a expressão e disse-lhe que tinha jeito para utilizar as palavras com verdade e com graça, por isso devia escrever. Ela desculpou-se, lembrando que era uma leitora atenta. José lembrou-lhe que um escritor é sempre o melhor dos leitores. Ela, deixando-se levar pela emoção provocada pelo elogio, beijou-o ternamente na face como se fosse sua grande amiga. Ele corou. Ela sorriu ainda mais e afirmou que a sua timidez era amorosa. Ele tentou abraçá-la, mas ela esquivou-se ternamente e disse-lhe: “Cada coisa a seu tempo. Não nos precipitemos.” Ele pediu-lhe perdão. Ela respondeu-lhe que não era para tanto. “Só que não gosto de precipitar as coisas. O que tem de ser será. Temos tempo de sobra para pecar. Por agora limitemo-nos a desfrutar deste momento que, por ser irrepetível, é sagrado.”
Combinaram um encontro para o dia seguinte. Cada um prometeu levar um livro para troca.
Para grande espanto dos lúgubres colegas, o solitário José dormiu toda a noite com um enorme sorriso nos lábios.

