O Poema Infinito (44): a iluminação das palavras
A vida surge por entre o espectáculo silencioso das coisas. Recomeça a germinar o tempo cansado das árvores. Gritos claros condensam os sonhos rápidos das crianças. Raparigas eternas navegam na consciência dos rios. Chega o cheiro grávido da madrugada. Lisos corcéis de bruma reacendem a coragem dos deuses sem futuro. Das paredes redondas do dia jorram memórias brancas temperadas por olhares silenciosos. Uma vertigem lenta apaixona-se pelos horizontes trémulos do teu corpo. Um sopro constrói o desejo. Revejo de novo a certeza oculta do teu sexo. Nesse intervalo o espaço vive dentro dos teus olhos ilimitados. Respiramos na margem da paixão. Todas as palavras se iluminam por dentro. Todas as formas se prolongam no esboço dos teus seios. O desejo é uma distância calma onde navega o branco espesso da luxúria. Palavras nuas inflamam-se na sombra nos novos nomes. O equilíbrio da música é agora uma tentativa de movimento livre. Os nossos corpos são de novo pasto de movimentos transparentes. Os nossos corpos são barcos que respiram danças de água e luz. A posse respira lentamente nas nossas ancas. Um fogo erótico navega no entusiasmo dos sonhos. O mito do amor consome a esperança do desejo. As palavras nuas envergonham-se agora do nosso pecado. Viajamos por entre as nebulosas. Estamos nus e giramos na evidência das palavras. Anjos exactos escrevem frases suicidas. Somos de novo a voz inicial dos jardins profundos. O sabor a pão das rosas não é o nosso álibi. O som longínquo do mar dorme na espuma do silêncio. Nós trazemos preso, na garganta, o travo aflito da verdade.

