Iluminações
Parece que o ainda líder da recém demitida oposição não revela um talento especial para a política. Não acerta bem nos tempos. Deixa-se levar pelo ressentimento e pela excitação. Como a sua principal preocupação é chegar ao poder a todo o custo, é a isso que se dedica com obstinação. Apesar de legítimo é pouco ético. Vê-se ao longe que o seu talento não é para vir a desempenhar as nobres funções de primeiro-ministro mas sim a de ser gestor de uma empresa privada, com alguns capitais públicos, onde o inglês seja a linguagem de trabalho, pois apenas nesse idioma é que alcança exprimir as suas verdadeiras intenções.
Nota-se que a grande maioria da actual classe política está tão à rasca como a dita geração. Se têm jeito para consertar carros, consideram que devem cantar ópera; se sabem cantar, acham que devem ser engenheiros informáticos; se têm queda para a engenharia querem ser directores escolares; e se revelam apetência pelas relações internacionais querem ser logo membros do Governo. É um despeito. É a necessidade de provar que por terem pertencido às juventudes partidárias são auto-suficientes para exercerem todos os cargos e mais alguns. E quase sempre com os resultados que estão aí à vista.
Não pensem que estou a tentar dar a entender aquilo que estou a dar a entender. Essa não é a minha maneira de ser. Mas sempre vos digo que nos faz falta um Catão (considerado o primeiro escritor em prosa latina de importância; foi o primeiro autor de uma história completa da Itália em latim. Alguns historiadores argumentam que, de não ser pelo impacto que causaram os seus escritos, o grego teria substituído o latim como língua literária em Roma) ou um Lincoln, que andou mais de seis quilómetros no meio de uma ventania gelada para devolver três cêntimos a um freguês. Está visto que já não existem homens desta têmpera. E mesmo o aio de Afonso Henriques apenas empenhou a palavra, não devolveu o que não era dele. Uma coisa é a palavra, outra bem distinta é o dinheiro.
É bem provável que estejamos a viver a época mínima da política. Sinto que nos estão a tratar como meras crianças cuja única parcela de grandeza é igual à que um catraio retira dos reis de contos de fadas. Daí a necessidade de estarem constantemente a invocar os homens que já se foram, pois apenas eles conseguiriam salvar o que dizem já estar irremediavelmente perdido.
Mas rejubilemos, pois, como muito bem explica o meu amigo R., não devemos ficar zangados porque alguém nos diz a verdade. Isto se tivermos a sorte de encontrar quem nos a diga.
Isto está tão mal que qualquer dia a Europa faz-nos o que os esquimós fazem com os familiares velhos: deixam-nos numa casota de gelo com comida para dois dias. E o pior não é o abandono, mas a esmola. Porque uma coisa é comer a própria comida, outra bem diferente é comer um prato esmolado, mesmo que o valor em calorias seja o mesmo.
Sente-se no ar a tragédia. Acho que os portugueses nunca antes se observaram uns aos outros com tanta hostilidade. Permitam-me a sinceridade, considero que se está a fazer tanto ruído à volta da nossa situação política, económica e social que não vai ser possível tomar uma decisão correcta. E a mentira hesita no ar. Não é por se dizer uma mentira dezenas de vezes que ela se transforma em verdade. Mas, convenhamos, é isso o que a maioria dos políticos faz. Acredita nas suas próprias mentiras repetidas até à exaustão. Depois passam a acreditar nessas suas palavras, a acreditar no poder da fala. Mas uma coisa é falar bem, outra, bem distinta, é dizer a verdade.
Eu continuo a desconfiar dos iluminados que nos apontam o caminho. Torço o nariz àqueles que se colocam à frente do resto da turbamulta para interceptarem o grande raio social. Suspeito dos que fazem queimadas no meio da sociedade portuguesa. É que os jorros de fogo podem provocar um incêndio que desbaste o país.
Sei que ainda não estou suficientemente velho para estar cansado da política. Mas cada vez mais me sinto confinado a escutar a minha própria consciência. É a isso que dou valor.
Em verdade vos digo que não sei se esta situação podia ter sido evitada. Todos sabemos que ela é irremediavelmente má. Sinto, no entanto, que quem se achar com forças para encontrar uma saída é um homem esperançoso ou, simplesmente, tolo.

