O Poema Infinito (45): o pecado original
Ó mar salgado, quanto do teu sal é impotência de Portugal? As paredes do mar assaltam os sonhos. Mães de cristal reflectem a luz antiga. É esta uma memória amarga e translúcida. O bálsamo do silêncio persegue a boca frígida da vida, por isso as coisas vivas perfumam o céu de azul. É este o modo antigo do poema. As frases quase obscenas levantam os corpos. O sono afasta-se escrevendo palavras maduras de sexo. As tuas mãos são agora berços. Anoitece. Os meus braços são árvores que falam desdobrando planícies angustiadas. As notícias continuam a mastigar a fantasia. Careço de sossego. Túneis de néon atravessam a ansiedade. Pedem-nos certezas mas apenas vivemos ansiosamente. Colho o teu rosto no meio do sol. Voam olhares pelos jardins da ternura. Alguém semeia camponeses na memória dos citadinos. Deus resplandece nos nossos corpos engelhados de tempo. Crianças colhem corações tímidos. Borboletas cotejam a luz da lua. Van Gogh desce dos astros procurando o cheiro da erva. Mulheres cantam intervalos de chuva. Homens teocráticos passeiam a desgraça alheia. Alguém rega a dor com olhos de água. Bocas deslocam sonhos. Padres baptizam hermetismos. Anjos dividem a morte. Deus joga aos dados com Einstein. O entendimento morre de morte natural. Já não há metafísica suficiente para entender os néscios. Fogos-fátuos rimam com os corpos tristes. A Diabo empresta de novo o pecado a Deus. As frases divinas confundem-se na Babel globalizada. Cristo volta a ser crucificado em nome da paixão humana. Ninguém o salva desta eterna repetição. Os filhos dos homens choram lágrimas salgadas de impotência. O sangue do sacrificado desenha geometrias bárbaras. Barrabás volta a ser libertado em vez do ungido. O bom povo, aos gritos, assim o exige. Os corpos dos profetas são de novo navios de sangue, suor e lágrimas.

