Segunda-feira, 2 de Maio de 2011

Divagações

 

Saímos do café e dirigimo-nos ao jardim. O R. deteve-se algum tempo a contemplar o parque, aspirando o cheiro da folhagem. Faz isto sempre que se sente um pouco agitado. Disse-me, visivelmente emocionado, que cada vez pensa mais nos homens que ficam sozinhos, grupo no qual se inclui com todo o direito. “É terrível perder a mulher que se amou, mas ainda é perda maior não ter mulher para amarrar nos braços antes de a desgraça nos bater à porta…”, filosofou olhando na direcção de um pássaro morto espezinhado entre as ervas do jardim.

 

O meu amigo é um homem que normalmente acorda com a sensação de perda. E como nestes tempos todos perdemos diariamente sempre qualquer coisa, é o amigo certo para tempos incertos. Há uns anos atrás, como não havia nada de palpável que pudesse censurar a si próprio de ter perdido, encontrava a necessária puerilidade na actualidade e no desporto. Agora é a política o que lhe mete medo. Mas nem sempre foi assim.

 

Quando jovem pensou enveredar por uma carreira no mundo das artes. Acabou em caixeiro-viajante, não sem antes passar por uma infinidade de pequenos empregos inadequados e de ter namorado mulheres igualmente inadequadas. Um emprego significava sempre uma namorada nova.

 

A sua grande paixão abandonou-o por o considerar frouxo e frívolo. Ele prometeu-lhe ser um rochedo quando antes era nuvem passageira. Ela avisou-o: “Não vais nada. É conduta que não faz parte da tua natureza.” Ele replicou ofendido: “Não cuidei eu de ti quando estiveste doente?”Ao que ela atirou certeira: “Sim. És maravilhoso para mim quando estou doente. O problema é que quando estou boa não me serves para nada.”Foi mais ou menos por essa altura que nos tornámos íntimos. Os amigos são para as ocasiões.

 

Andámos na mesma escola. Aí fomos sempre mais rivais do que amigos. Mas, tenho de vos confessar, a rivalidade também pode durar toda uma vida. Apesar de poder parecer o contrário.

 

A sua inocência desviou-o sempre da verdade (crueldade?) da vida. Foi sempre um efabulador. Pagava a amizade em copos de bebidas caras nos bares onde a maioria dos seus amigos não tinha dinheiro para frequentar. Descrevia-nos com um assinalável nível de pormenores as suas aventuras eróticas. Falava-nos das suas boémias com cara de caso. Mimava-se a si próprio com fatos caros e, sobretudo, aos sábados de manhã, frequentava as barbearias onde lhe punham sobre a pele toalhas quentes molhadas com perfume de alfazema, ao mesmo tempo que se falava de futebol e política a sério.

 

Namorou com uma rapariga tão parecida com a Madalena Iglesias que todos nós equacionámos a possibilidade de ela ser a própria Madalena Iglesias revista e aumentada. Mas nunca conseguiu manter uma relação amorosa por muito tempo. As mulheres deixavam-no sempre. É verdade que o R. dançava com elas de rosto junto e era bom de ver como todas elas lhe entregavam as suas almas em confidência. Mas uma coisa é ser o confessor de uma mulher. Outra bem distinta é ser o seu amado. Era por ser engraçado que elas confiavam nele. Apenas por isso.

 

Uma coisa é certa, o R. foi sempre um amante falhado mas um esquerdista emproado. Nunca conseguiu ser mais nada, a não ser um marxista bastante deprimido. Nas últimas eleições legislativas perguntei-lhe se ia votar no Bloco de Esquerda. Ele fez-se distraído e nada respondeu. Eu voltei a insistir. Então, visivelmente irritado, atirou-me com esta: “Acabaste de me enfiar num estereótipo. E nada existe de mais constrangedor do que estereotipar os amigos.” Eu pedi-lhe de imediato desculpa. Ele voltou à liça: “Foram os estereótipos o que nos lixou a vida enquanto nação. Todos os nossos inimigos se tornaram mais fortes depois de os combatermos. Nestas como noutras coisas, ficou claro que os rufiões são aqueles que acabam por se derrotar a si próprios.” Eu argumentei que a vergonha é um assunto privado. Um assunto de família. E que quando alguém da nossa família age erradamente é nosso dever dizer-lhe. Não boicotá-lo.

 

Ele argumentou: “Sou filósofo, não tenho a certeza de nada. Mas tu não és definitivamente o meu oráculo.”Eu respondi-lhe: “Eu sou adepto do Sócrates. É tudo quanto me basta de filosofia.” Ele insistiu: “És um demagogo.” Eu resolvi terminar com a conversa: “Eu não alinho em linchamentos públicos. Combatam-se as ideias, mas não se persigam homens para eliminá-los na praça pública. E não te esqueças, lá diz o povo na sua ancestral sabedoria: atrás de mim virá quem bom de mim fará.”


publicado por João Madureira às 07:00
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