761 - Pérolas e Diamantes: Cuidado com o que desejas (Confissões e Delírios – Excerto)
Curioso, os cemitérios são agora parecidos com espaços agradáveis, erva brilhante, tudo muito bem tratado entre as sepulturas. E até é frequente vermos flores frescas dispostas em jarros por cima das lajes de granito polido, rente à cruz. Muitas das visitas revelam o aspeto de alguém que está diante de uma sepultura num filme. O respeito é pose. E silêncio. É lindo acelerar pelo crepúsculo e depois passar pelo alto das colinas. Por vezes, alguém nos convida para irmos jantar a um restaurante de cozinha moderna, desses tipo estrela Michelin. E nós lá vamos, todos lampeiros, tentar entrar a pés juntos na modernidade. Mas, quando começamos a comer, apercebemo-nos que a denominada nova cozinha portuguesa não passa de má cozinha francesa. E até dá vontade de rir ver estes novos camponeses de reações lentas a comerem aquilo que não gostam com cara de quem está de dieta rigorosa. Fui com o pai à aldeia. A estrada pavimentada há apenas alguns meses já estava a esboroar-se. Saiu junto a uma vinha herdada dos seus pais e pôs-se a falar sozinho. Uma rajada de vento levou a sua voz para longe. E a sua voz começou a correr de modo imparável pelos caminhos antigos. Teve um ataque de despersonalização, um ataque de pânico motivado pelo facto de pensar que não tinha a mínima possibilidade de ser ajudado. Por vezes tem tonturas. O médico deu-lhe um tranquilizante e uma injeção intramuscular. O meu pai (adotivo) olha para mim e eu sei o que está a pensar. A vida é tédio e depois ainda mais tédio. “A província”, disse-me à bocado, “é governada por gente idiota, transformando bonitas regiões numa charada, num espetáculo de variedades, pejadas de nichos de Nossas Senhoras de Fátima, capelas, rotundas, piscinas desertas, praças graníticas cheias de repuxos de água, capelas, coretos e feiras de fumeiro e de outras idiossincrasias de origem duvidosa. Os antigos santuários dos Velhos Deuses foram profanados por gente sem préstimo, nem cultura. E chamam a isto modernidade e progresso.” Parou então de falar. E depois de algum silêncio disse ainda: “Cuidado com o que desejas.” Ele vive como um asceta. Muitas partes dos dias são como buracos negros. O pai diz que agora tudo lhe dói. A luz. O dia. A noite. O buraco fantasma do tempo a passar. Está sempre à espera. Sem estar à espera. Não sabe o que tem de esperar. Virou-se na direção do pelourinho e disse bem alto: “Os merdosos nunca mais são derrotados. Esse é o nosso mal. A nossa catástrofe.” Como o sol já vai baixo no horizonte, as sombras são mais compridas. O povoado brilha gentilmente com a luz do sol. Por vezes, a província não parece assim um sítio tão desesperadamente mau para viver. A charada parece autêntica. Paira no ar qualquer coisa de histérico. O pai tenta que vá para longe. Prevê-se chuva para amanhã. As perturbações por aqui também acontecem. Mas são pequenas. São como ligeiros sismos, apenas detetáveis com sismógrafos. O pai quis ir à missa. E aqui estamos num estado de espírito muito semelhante ao do tédio. A assembleia canta, não há coro porque o maestro está doente e uma das vozes principais está de férias, os homens cantam, as mulheres cantam, mas em vez de o fazerem em conjunto, parece que cantam ao desafio. O sacerdote enverga paramentos bordados num tecido branco que não parece algodão. No meio da cantilena, uma figura sobressai, à primeira vista pareceu-me um rapaz um pouco efeminado, pois também os há na província, mas, na verdade, era uma mulher, uma mulher jovem, com um aspeto nada mau, por sinal. A sensação de cansaço aumentou. O pai nem se levanta, nem se ajoelha, permanece sentado. No órgão, o substituto do maestro, toca acordes de Mendelssohn. Muitos dos fiéis declaram que se querem entregar nas mãos de Deus. Não sei é se o Criador lhas estenderá. Muitas pessoas esperam lá fora para cumprimentar o pai. Ele então vai até junto de um canteiro e arranca uma flor de um modo como se estivesse a pedir desculpa e depois coloca-a na lapela. O pai a filosofar: “Quão pequena é a parte que as pessoas têm na vida das outras. E quão pouco sabemos delas!” Ou seja, o pai estava comovido e impressionado, fazendo que todos sentissem que estava a encontrar-se com todos, ou com a maioria deles. Olho para o lado e reparo num pequeno retângulo de relva que ainda não aqueceu, perlada de orvalho, e na luz do Sol onde uma borboleta acastanhada, com um ar descabelado, se agarra à sebe e bate as asas já com pouca energia. Ao longe estão os bosques onde as manchas verdes se estendem a perder de vista.

