Sexta-feira, 13 de Maio de 2011

O Homem Sem Memória

 

63 – Se é verdade que o José, com muita pena, foi o primeiro a abandonar Montalegre, o resto da família não perdeu pela demora. O seu pai, por punição disciplinar, foi obrigado a emigrar para o Porto. A restante família, por questões logísticas, sentimentais e económicas, foi de abalada para Névoa. A história da diáspora, se a isso me autorizarem, pode ser contada em poucas palavras.

Montalegre era essencialmente uma terra de lavradores, guardas e contrabandistas. Sendo que os contrabandistas também eram, muitos deles, lavradores e agentes da autoridade; os guardas eram todos lavradores e, muitos deles, contrabandistas; e os lavradores eram quase todos contrabandistas e muitos deles guardas, ou amigos de guardas, ou familiares de guardas, que por seu lado eram amigos de contrabandistas e estes cúmplices dos agricultores, que eram guardas, etc., numa espiral de cumplicidades vertiginosas, engenhosas e lucrativas.

E todos eram igualmente caçadores. Caçavam perdizes, codornizes, coelhos e lebres. Por vezes caçavam-se uns aos outros. Numa terra de fronteira, mesmo não havendo guerra, também não existe paz. Todos vivem em ambiente de armistício. Apesar de conviverem, vigiavam-se mútua e permanentemente. Eram raposas finas. Conheciam-se todos uns aos outros, sabiam os caminhos, os carinhos, as amantes, os amantes, os deslizes, as virtudes e os defeitos. Apesar do cuidado com que conviviam, nem sempre conseguiam controlar todos os movimentos que as massas humanas protagonizam.

Tudo se acelerou num dia de chega de bois no campo de futebol do Montalegre. Lutavam os bois de Padornelos e Sendim. A guarda foi incumbida de não deixar levar para dentro do recinto os varapaus que cada homem transportava consigo. Eles, muito a custo, lá foram deixando, numa cerca à guarda da GNR, os bordões que tanto serviam para tocar o gado, como para amparar o corpo, como para marcar terreno, ou para dar porrada em caso de necessidade. E uma chega de bois é sempre a circunstância adequada para cada um fazer valer as suas forças. Ou o boi do povo faz o que tem a fazer, que é vencer o adversário, ou o povo o faz por ele. Por vezes vence o boi, mas sai derrotado o povo da respectiva aldeia. Ganhar em toda a linha é um calha. Quase sempre chegam-se os bois para logo de seguida se chegarem os povos das aldeias.

Os bordões que se juntaram à entrada do recinto compuseram uma pirâmide com mais de dois metros de altura. Mas a cara dos assistentes revelava algum desconforto. Um barrosão sem um cajado na mão sente-se meio despido. Mal os bois entraram no campo as pessoas começaram a ulular incentivando os animais à luta. Os animais primeiro olharam em volta, depois começaram a esgaravatar o chão com as patas e finalmente encaixaram os cornos um no outro com toda a força que tinham. A terra começou a tremer com o pisar dos bichos e com os pulos dos assistentes. Cada marrada dada era sentida com arrepios, gritos e assobios. O boi de Sendim, espumando da boca, numa investida lateral, fez vários lanhos no quadril do seu adversário, que o pôs a sangrar como um porco. O garboso animal, sentindo-se gravemente ferido, abandonou a luta e correu para longe do recinto. Principiaram os vivas ao boi vencedor, que normalmente são acompanhados de cajados em riste, mas que desta vez se limitaram a ser de punho e mãos levantadas e lenços a esvoaçar. Ouviram-se também vários desafios verbais que tiveram o condão de provocar uma guerra campal entre os contendentes. Mas lutar à unha é coisa para fracos. No barroso quando se bate em alguém é logo para estrumar o adversário. Um barrosão sente que ganhou a luta quando o seu inimigo cai ao chão tal e qual um carvalho abatido a golpe de machado. E, para esse feito, nada há de mais eficiente e nobre do que um varapau. Por isso cada contendor se dirigiu ao merouço dos cajados e pegou no primeiro a que conseguiu deitar a mão, sem grandes preocupações de atinar com o legítimo. Podemos dizer que os guardas foram impotentes para deter a mole humana que se deslocou na sua direcção. Apenas um guarda se armou em valente e gritou “alto senão disparo”. Mas o ulular da multidão em alvoroço e a força da turba a correr traduziram a ordem inútil. Nervoso, ou assarapantado, o GNR disparou vários tiros. Um deles abateu cobardemente um dos melhores homens de Padornelos. A luta entre civis acabou logo ali. Muitos dos presentes ainda acariciaram as pistolas que traziam camufladas nos bolsos, mas o bom senso e a honra barrosã foram mais fortes. Se alguém matasse ali na frente de todos um GNR era certo e sabido que ia passar as passas do Algarve, o povo da sua aldeia certamente seria severamente castigado e a sua família de certeza que sofreria consequências dolorosas. Há falta de guarda para abater, alguns dos homens mais irados de Padornelos, vendo o seu chefe morto no chão, enxugaram os olhos e correram atrás do seu boi. Encontraram-no a beber água numa ribeira. Com os rostos sombrios de raiva e desgosto, fuzilaram o pobre animal. 


publicado por João Madureira às 07:00
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