Segunda-feira, 16 de Maio de 2011

Dialécticas e copos de vinho

 

Depois de almoçarmos umas excelentes costeletas com batatas fritas no Manco e de as acompanharmos com um tinto da casa com origem na região de Valpaços, fomo-nos estender na relva do jardim, como quatro jovens irreverentes, cada qual acompanhado pela respectiva garrafa de água das pedras para ajudar a digestão. É que os anos vão passando e as digestões cada vez se tornam mais lentas e difíceis.

 

Pusemo-nos a olhar o céu, na ocasião decorado com nuvens altas de um branco sagrado. Distraidamente, e talvez um pouco sugestionados pela pinga, identificámos várias aparências: um cavalo de corrida, uma égua barrosã, o castelo da Walt Disney, um barco veleiro, um dos submarinos do Paulo Portas, Cavaco Silva, Nossa Senhora de Fátima e os três pastorinhos, o beato João Paulo II, uma sereia, o rosto da minha avó, Pinóquio, o Rato Mickey, José Sócrates e Pedro Passos Coelho.

 

Com a visão do candidato do PSD a primeiro-ministro, logo o F. se entusiasmou e teve mais uma das suas tiradas filosóficas: “O PPC sofre da síndrome das areias movediças. Sabe que se vai enterrar, mas hesita entre a morte lenta, se ficar quieto, ou a morte rápida, se se mexer. E quanto mais se mexe mais se enterra.”

 

O L., homem mais prudente, atirou-lhe sorrateiro: “Não confundas a nuvem com Juno”. O que, convenhamos, é uma tirada de se lhe tirar o chapéu. Todos nos rimos, até o F. E dali nos fomos entreter ao estilo do PSD, a jogar às cartas.

 

Enquanto o R. tirava o plástico ao baralho novo, o L. disse que a ser verdade o que vem no Expresso, que a Troika vai reestruturar Portugal de alto a abaixo, o melhor será dispensar os políticos e entregar isto aos directores-gerais dos respectivos ministérios. Depois de aprovadas as medidas impostas pelo FMI, o novo governo vai ser um verbo-de-encher. Eu baralhei as cartas, o L. partiu o baralho e o F. deu-as.

 

E assim nos entretemos durante um bom pedaço da tarde, jogando à sueca por entre várias insinuações, e mesmo algumas acusações, de incapacidade para baralhar com sabedoria, de falta competência para prever as jogadas, de gerir mal os trunfos, de destrunfar a desoras, etc. Tal e qual as acusações da oposição ao governo e do governo às oposições.

 

Finda a contenda, resolvemos ir petiscar como pretexto para beber mais uma ou duas garrafas de tinto do Gorgoço. E discutimos política. A política, entre nós que somos bons amigos, só é analisada enquanto comemos e bebemos. Noutros contextos é um jogo perigoso, que já provocou zangas, insultos e amuos. A comida e a bebida são um excelente apaziguador. Mas convém controlar sempre os índices da bebida. Pois, quando se desequilibram os pratos da balança, pode rebentar a guerra. E, como todos sabemos, um homem atestado de razões etílicas a discutir política é um verdadeiro kamikaze. 

 

Comecei eu. Pois sou o mais atrevido. E desta vez com algo mais chegado à cultura. O escritor Mário Vargas Llosa, o Nobel da literatura de 2010, disse numa entrevista que a Net liquidou a gramática, gerando “uma espécie de barbárie sintáctica”. Os jovens de agora (“se fossem só os jovens”, comentou o R. enquanto metia um pedaço de queijo à boca) abreviam palavras nas redes sociais e nos SMS. Os meus amigos olharam para mim como se estivessem à espera de mais alguma coisa. Eu, de maroto, enrolei uma fatia de presunto, adicionei-lhe um pedaço de queijo e enfiei-os na boca. De seguida trinquei um pedaço de pão centeio, mastiguei tudo bem mastigado, salivei a rigor e engoli. E eles ainda à espera. Fazendo-me distraído, peguei no copo de vinho e sorvi um trago satisfatório. Dei o estalido com a língua para manifestar o bem que tudo aquilo me soube e, calmamente, peguei no meu bloco de notas e li as palavras do escritor peruano: “Se escreves assim, se falas assim, é porque pensas assim, e se pensas assim é porque pensas como um macaco. Isso parece-me preocupante. Talvez as pessoas sejam mais felizes assim. Talvez os macacos sejam mais felizes do que os seres humanos. Não sei”.

 

“Eu não sei se os macacos são mais felizes do que humanos, mas de certeza que os portugueses são uns infelizes. O que poderá significar que sendo os portugueses infelizes são mais humanos e sendo mais humanos são diferentes dos macacos”, complicou o L. O vinho do Gorgoço tem destas contra-indicações.

 

O F., molhando apenas os lábios com o vinho, lamentou: “Quem passou uma Páscoa infeliz em Portugal foi o presidente da Comissão Europeia que viu o seu partido destruir aquilo em que tanto se empenhou. Veio nos jornais que, para Durão Barroso, a forma como o PSD supervisionou o chumbo do PEC e a leviandade de que deu mostras ao provocar uma crise política em Portugal, foi um erro que contrariou os planos da própria União Europeia. A estratégia de Bruxelas passava por almofadar a situação económica e financeira portuguesa com a nítida intenção de ganhar tempo até que um novo mecanismo de ajuda pudesse entrar em vigor. Com a leviandade do PSD tudo ficou comprometido”. “Por isso é que os barrosistas ficaram de fora das listas do PSD para as legislativas”, lembrou o R. E, enquanto carregava no tinto, sobrecarregou ainda mais nas cores, como é seu timbre: “Pedro Passos Coelho não tem programa eleitoral, não tem ideias, não tem prática política suficiente, e, muito mais grave do que isso, não tem qualquer tipo de experiência governamental, nem equipa para governar Portugal. Entregar-lhe os destinos do país é como entregar os comandos de um Boeing com um motor a arder e com o outro aos soluços ao piloto estagiário.

 

O L., mais conservador, resolveu citar Miguel Sousa Tavares: “O voto útil, desta vez, é entre duas inutilidades: uma, porque já sabemos onde nos leva; a outra, porque temos todas as razões para suspeitar que nos levará para pior ainda”. “Não vem mais vinho para esta mesa”, exclamou o R. enquanto sorria e bebia mais um copo.

 

Eu, na tentativa de ironizar, resolvi trazer Eduardo Catroga à liça. “Parece que já abriu a caça ao funcionalismo público lá para os lados do PSD”. O L., como bom conservador, sorriu e fez o desabafo: “Explica-te melhor”. E eu expliquei-lhe, como é meu timbre, socorrendo-me das próprias palavras do dito: “Há tanta coisa para caçar no Estado e tanta gordura para cortar.” (…) Como medida adicional, é possível “cancelar entradas de novos funcionários por uns anos”.

 

“Com esta receita do PSD então é que a geração à rasca fica mesmo sem futuro”, disse o R. O F. tentou contemporizar: “O PSD também tem dito algumas verdades, por muito que nos custe a admitir a alguns de nós”. O R., bebendo outro copo, declamou António Aleixo: “Para a mentira ser segura / e atingir profundidade / deve trazer à mistura / qualquer coisa de verdade. O F. suspirou. E o L. levou-se dos diabos e disse para falarmos de futebol. Mas como dois são do Benfica, um é do Sporting e outro é adepto dos Dragões, propus que falássemos do tempo. E foi o que fizemos até nos irmos embora. 


publicado por João Madureira às 07:00
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