Sexta-feira, 20 de Maio de 2011

O Homem Sem Memória

 

64 - O tempo passou, mas a raiva não. E se há coisa que um barrosão tenha é memória. Pode passar o tempo, mas a indignação permanece como uma verruga. É como uma doença crónica. Pode ser tratada, mas jamais desaparece.

Continuou-se a contrabandear, a trabalhar os campos, a patrulhar as aldeias. Os contrabandistas trocavam e vendiam café, gado, polvo, chocolates, bananas, sapatos, armas, azeite e farinha. Os agricultores cultivaram batatas e centeio. Os guardas autuavam os carros de bois por causa do chiar das rodas, pelo facto das aguilhadas terem a ponta de metal maior do que os cinco milímetros permitidos por lei, pelo facto de os cães não terem licença, as galinhas andarem livremente nas ruas, ou as donas de casa despejarem as águas para a via pública.

Num dia solarengo e frio, o guarda Artur à paisana, quando numa encruzilhada virava caras a Montalegre acompanhado dos seus cães de caça e exibindo várias perdizes e coelhos à cintura, deu de chofre com um jovem que não conhecia. Deu-lhe os bons dias como era seu hábito e até sorriu de contente. O rapaz não lhe respondeu, apontou-lhe calmamente a caçadeira e disparou. De seguida chegou-se junto do corpo do guarda ofegante e pronunciou: “Para não morreres na ignorância de quem te mandou para o outro mundo, faço questão em te informar que sou o filho mais velho do Justo de Padornelos.” O guarda Artur, com o espanto estampado no rosto lívido, ainda conseguiu dizer: “Não foi por querer. Disparou-se-me a espingarda.” O rapaz contrapôs: “Tiraste a vida a um homem honrado. E esse homem honrado era meu pai. Por isso vais morrer.” “Perdoa-me. Não me mates. Foi sem querer. Disparou-se-me a espingarda”, desculpou-se de novo o GNR. “Por mim até era capaz de o fazer, mas a minha mãe não o consente. Ela não te perdoa. Não consegue. Desde o dia da morte de meu pai nunca mais aquela mulher dormiu uma noite que fosse. Grita e geme enquanto dorme. Vive num pesadelo. Vai todos os dias ao cemitério. Não tem paz. Só a morte a pode acalmar. A dela ou a tua. Para mim a opção é clara. Eu jurei-lhe que te matava antes mesmo de ir para a tropa. E os Justos de Padornelos são gente de uma só palavra”, explicou o rapaz com muita calma. “Pensa nos meus filhos. Ainda são tão pequeninos!”, balbuciou o guarda Artur enquanto expelia um fio de sangue pelo canto da boca. “Que Deus me perdoe”, disse o filho do Justo de Padornelos enquanto se benzia. Depois virou o cano na direcção do coração do GNR e disparou um tiro certeiro. Ainda pensou descarregar o segundo cartucho na direcção da cabeça para desfigurar o assassino de seu pai. Mas teve dó. O seu acto de misericórdia e redenção consistiu em deixá-lo ir para o outro mundo com o rosto completo, não fosse Deus, ou alguém em seu nome, pôr-se a fazer perguntas indiscretas sobre o que tinha acontecido e quem tinha feito aquela maldade. Pois uma coisa é matar porque assim obriga o código de honra de um barrosão, outra bem diferente é despachar um GNR nervoso e fanfarrão com o rosto desfeito para a eternidade.

Este acto de vingança iniciou um período de guerra entre os vários sectores da sociedade. Os guardas, feridos na sua honra e amedrontados no seu viver, começaram a espiolhar todos os caminhos da região como se andassem atrás do bando do Juan. Os contrabandistas começaram a espiar os agentes da autoridade como quem quer afastar a peste negra. Os agricultores começaram a amanhar as suas terras com o claro receio de que uma guerra poderia rebentar entre os dois bandos e que eles seriam as principais vítimas. Os lobos quando estão feridos, ou se sentem acossados, investem ainda com mais ferocidade. O sangue clama por mais sangue. A honra por mais honra. A vingança por ainda mais vingança.

O caos tomou conta da vida dos barrosões. Os guardas da GNR começaram a perseguir e a prender os contrabandistas, e o respectivo contrabando, no território e nas clientelas controladas pela GF. Os guardas da GF, ofendidos e amargurados, responderam na mesma moeda. Tais desvarios só trouxeram à região mais pobreza. Os produtos essenciais à vida das populações carenciadas começaram a escassear. E os que ainda eram comercializados atingiram valores proibitivos. Até os cães se começaram a engalfinhar por tudo e por nada. As vacas começaram a escornar os donos mais desprevenidos e as galinhas começaram a pôr fora os seus ovos. Os porcos cuincavam tanto nas lojas que parecia que tinha chegado a época das matanças. Isto em Setembro. Mesmo o padre Zé se começou a enganar nas prédicas, a confundir os sermões, a trocar as epístolas, a carregar nas penitências. As próprias beatas começaram a ver o seu estatuto em causa. Se em épocas normais se confessavam e apenas tinham que cumprir a penitência mínima, um padre-nosso e uma ave-maria, nos tempos conturbados começaram a ser obrigadas a rezar tanto ou mais do que os pecadores crónicos. E isso trouxe-lhes desconforto e provocou uma que outra desistência no coro da igreja. Mas o pior ainda estava para vir. Que os GNR vigiassem os GF e os contrabandistas e que os GF vigiassem os GNR e os contrabandistas e estes vigiassem os GNR e os GF ainda vá que não vá. Agora os GNR vigiarem-se a si próprios é que lhes foi ousadia fatal.

No posto de Montalegre havia duas facções, uma liderada pelo sargento, Alves, que era o chefe de posto, e uma outra dirigida pelo subchefe, o primeiro-cabo Sarmento. Sabendo disto, o chefe do posto da GF combinou com o chefe do bando de contrabandistas seu amigo que montasse uma armadilha com a intenção confessa de trocar as voltas às patrulhas da GNR. Ou seja, que os contrabandistas controlados pela facção do sargento Alves fossem denunciados e presos pela facção do primeiro-cabo Sarmento e vice-versa. Com as rotinas trocadas e com os caminhos enredados, num mesmo dia as forças da GF e da GNR apreenderam mais contrabando do que em todo o último ano. Tal prodígio de eficácia foi mesmo notícia nos jornais nacionais. Alguns dos contrabandistas presos, depois de apertados por agentes especiais vindos da capital de distrito ou mesmo do comando da região norte, resolveram falar. Toda a marosca foi descoberta. E o que primeiro tinha motivado as propostas de louvores e condecorações foi transformado em castigos e transferências. Muitos dos contrabandistas foram condenados a penas de prisão, com pena suspensa, e ao pagamento de multas avultadas. Mas esse foi o preço a pagar pelo facto de se verem livres dos guardas prevaricadores. Quem não quis uma boa madrasta ficou com uma ruim mãe. A sorte é assim. Todos os guardas foram substituídos por colegas mais jovem e ainda sem vícios. E o tempo que se gastou na aprendizagem dos caminhos do contrabando, na identificação dos cabecilhas, nos contactos iniciais e no recebimento das primeiras lembranças por patrulharem os caminhos vazios, deu tempo para que a paz e a concórdia voltassem de novo a Montalegre e às aldeias vizinhas.

Escusado será dizer que os cães tornaram a passear pacatamente pela Vila e pela Portela como se fossem ovelhas, as vacas passaram a ir e a vir dos lameiros ao som de modinhas assobiadas ou a toque de gaita-de-beiços, os recos voltaram ao silêncio da engorda e as galinhas poedeiras começaram a pôr dois ovos por dia e dentro dos limites da casa dos donos. Até o Padre Zé conseguiu de novo o milagre de atinar com as epístolas, de acertar com os sermões e de administrar penitências de acordo com os pecados de cada um.

O guarda Ferreira, metido na embrulhada do contrabando por fazer patrulha com um guarda corrompido, apesar de alegar inocência, foi admoestado pelo instrutor do processo com estas palavras, muito ao gosto popular: “Tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta.” Pela parvoíce ganhou uma guia de marcha para o Porto. A Dona Rosa, enjoada com uma nova gravidez, decidiu transferir-se para Névoa, onde a vida era mais em conta e onde os filhos tinham facilidade em estudar no Liceu ou na Escola Técnica, além de poder dar um pulo à sua aldeia sempre que lhe apetecesse. A vida a dois cada vez mais era um quebranto triste em cima de uma rotina amargurada. A solução encontrada foi um bom remedeio. 


publicado por João Madureira às 07:00
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2 comentários:
De ricardo a 20 de Maio de 2011 às 13:18
Neste conto, apenas um reparo: o guarda abatido pelo filho do Justo de Padornelos, chamava-se Artur ou Alberto?


De João Madureira a 20 de Maio de 2011 às 15:02
O guarda chama-se Artur. Obrigado pela sua atenção. Um abraço.

JM


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