Segunda-feira, 23 de Maio de 2011

Pedro Passos Coelho e mais qualquer coisa

 

Isto da modernidade tem muito que se lhe diga. Cada vez mais nos inundamos numa torrente de informação e ansiedade. É isso o que me dói.

 

Mas, para ser sincero convosco, tenho de confessar que não consigo tirar da cabeça as palavras de Pedro Passos Coelho proferidas em Beja, numa tentativa de responder a uma pergunta sobre a possível extinção do Ministério da Agricultura por parte do PSD no caso de constituir governo: “Esse não faz parte dos ministérios a extinguir. Ficará Ministério da Agricultura mais qualquer coisa.”

 

Eu imagino-o florescente no seio da natureza observando as suas particularidades, apontando e designando as flores pelos seus nomes: violetas, papoilas, ranúnculos, cravos, rosas, miosótis, gipsófilas. Ele a enunciá-las e o povo a dizer de maneira simples e breve: Olha, flores. E de novo a eloquência do discurso: “será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa”.

 

Está claro que o PPC não pertenceu a uma juventude de ouro, ou de prata, pertenceu à juventude de cobre, a uma juventude suficientemente cinzenta a quem o Estado pagou a educação com os impostos do trabalho. Mas agora a revolução social foi-se. Ficou a evolução do privado. E de novo a maldita frase a bombar na minha cabeça: “será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa”.

 

PPC confunde muito as frases. Quer dizer uma palavra, mas diz outra diferente. Quase sempre se esquece do nome do Estado, que lhe parece um substantivo absolutamente vulgar e que provoca erisipela nos dirigentes do PSD. Por vezes, para não se esquecerem ou pronunciá-la com vício de forma, repetem: Estado, Estado. Até parece que o PSD nunca viveu à custa do Estado que agora quer transformar num negócio de feira. É difícil viver no vazio ideológico. E o PSD não tem ideologia. E de novo a maldita frase a bombar na minha cabeça: “será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa”.

 

Dizem-me que o PSD já não é o PSD. A solidão está a matá-lo. E por vezes os seus dirigentes ficam zangados com o povo. Ou seja, Pedro Passos Coelho, por puro oportunismo eleitoral, vai a uma feira de agricultura falar do seu tema preferido, que não sabemos ainda bem qual é, e, ao abordá-lo, esquece-se completamente do objectivo da sua visita. Mas, como a maioria dos políticos da geração de cobre, obrigados ao método sofista do equívoco, tagarelam por natureza, experimentando por vezes a necessidade de comunicar alguma coisa, seja a quem seja: amigo, inimigo, polícia, ladrão, patrão, empregado, ilustre ou desconhecido, rico ou pobre. Até aos animais presentes nas feiras de agricultura. De noite fala sozinho ao espelho na companhia da sua esposa silenciosa. No outro dia sai-lhe: “será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa”.

 

Vê-se que o PPC aprecia na política a sua voluptuosidade. O seu frenesim. Por isso se apaixonou por ela. Mas, como hei-de dizer, apaixonou-se não por inteiro, mas por algumas partes do seu corpo, pelas toilettes, deixando de fora o Estado. Por isso é o fenómeno que é. E de novo a maldita frase a bombar na minha cabeça: “será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa”.

 

Deixem-me contar-vos algo de um meu amigo que se parece imenso com o candidato do PSD a primeiro-ministro. Também o H. bailou toda a sua vida. E ainda agora baila o que dela resta: inofensivamente, com vulgaridade. Tudo lhe vem à baila. Começou a bailaricar em criança. Folgava melhor do que todos. Pelo fim do liceu, o bailarico proporcionou-lhe conhecimentos. No fim do curso na faculdade, no seu círculo de amigos e conhecidos partidários, o bailarico arranjou-lhe, espontaneamente, uma série de protectores influentes. Meteu-se a sério na política. O facto é que ainda continua a dançar. Ainda dança o que resta dele próprio. E outra vez a maldita frase a bombar na minha cabeça: “será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa”.

 

O programa político do PSD tem uma peculiaridade interessante. Tem a beleza incaracterística dos indistintos. Possui os traços do rosto liberal, um nariz marxista, a boca social-democrata, e as orelhas levemente parecidas com a democracia cristã.  O PPC anda a juntar-se aos factos. Podemos dizer que o seu espanto perante o descalabro económico e político do país raia o fingimento. A não ser assim, um de nós os dois está louco. Por isso estou espantado. E a maldita frase não me sai da cabeça: será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa.

 

Tenho de confessar: ser homem de Estado, sendo contra o Estado, é uma situação difícil. E a maldita frase não me sai da cabeça: “será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa”. Pobre país, pobre Estado, pobre PPC. O actual líder do PSD será sempre um político atrapalhado mais qualquer coisa. Mesmo que essa coisa seja o cargo de primeiro-ministro. Mas lá diz o ditado: quem nasceu para lagarto nunca chegará a crocodilo. 


publicado por João Madureira às 07:00
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1 comentário:
De Tupamaro a 23 de Maio de 2011 às 12:31
A si, essa frase «bomba-lhe na cabeça» e não lhe sai dela.
Na nossa junta-se a outra que nos fez «desabafar» duas linhas.
Se nos der licença….
--------T-------

“Tratantes!”
Ficámos espantado quando o Passos Coelheto se refere à intervenção «dos Troikos» como um «severo castigo para os Portugueses».
Afinal, a tão proclamada e aplaudida «Ajuda Externa» não passa de um arraial de porrada a que temos de nos sujeitar!
Vá-se lá entender como é que uma receita de sofrimentos nos vai aliviar de tantas dores!
Que mal fizeram as crianças, os jovens, os velhos, os doentes, os incapacitados para rebentarem com os cofres do Estado?
Que porra de bravura política vir com aquela afirmação!
Que Partido político já veio a público assumir uma pouca de Responsabilidade pela queda em semelhante abismo?
“Somos Todos Responsáveis”, gritam, berram, exclamam, sentenciam os grandes comissários políticos.
Os Partidos do «arco da governação» não querem governar Portugal.
Desde 74 que Portugal é um País desgovernado.
Tivesse havido Governação séria desde 74 a 2009, e os efeitos da crise internacional cá em casa já estariam (quase) aviados.
Os três Partidos que andam à bicada para marcar terreno no dia 5 de Junho de 2011 não mais pretendem do que manter posições (“tachos” ou “as mãos no pote”), um, ou ocupar posições , outros, do que têm feito do Povo Português um tiro ao alvo das suas manigâncias.
“Apelo à Responsabilidade dos Portugueses”, esganiça Cavaco.
E por que não apelou à responsabilidade de Dias Loureiro, do Constâncio, do Costa, nem do Sócrates, por exemplo?!
Tratantes!
É o que são os que se têm andado a governar escandalosamente à pala dos Portugueses!


Tupamaro


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