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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

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05
Ago11

O Homem Sem Memória

João Madureira

 

75 – José voltou de novo a Outeiro Raso para a festa. Nessa altura já os pais do Carlos Trolaró tinham vindo de França passar as férias de Verão à terrinha. Mal chegou, deparou-se com duas donzelas mais ou menos da sua idade. Uma era a irmã do Carlos: a Rosa. A outra era uma francesa genuína, amiga da família, de seu nome Stéphanie.

Ambas eram jeitosas, bonitas e muito prendadas. Podemos dizer, sem faltar à verdade, que a irmã do Carlos era mesmo mais bonita e bem-feita do que a francesa. Ambas falavam francês correctamente, mas tão correctamente, que ninguém conseguia distingui-las pelo falar. Além disso eram ambas loiras e de olhos azuis.

Mal as viu, o José enrabichou-se logo pela francesa. Apesar de a Rosa o apaparicar e o olhar com os seus olhos luzidios e penetrantes, o José apenas tinha olhos para a francesa. E o José era muito dicotómico: se lhe dava para optar por uma das partes, esquecia a outra com uma facilidade muito próxima do desprezo.

As festas nas nossas aldeias são sempre constituídas por missa, procissão, foguetório, comezaina, música e bailarico. E foi o que houve na festa de Outeiro Raso, em doses duplas. Ou triplas. O foguetório foi de loucos. Começou logo de manhãzinha por acordar os paroquianos, manteve-se durante a procissão, continuou durante toda a tarde, a intervalos regulares, e teve a sua apoteose, para orgulho de todos os outeirenses, por volta das duas da manhã, numa orgia de som e luz muito próxima do apocalipse.

O José, na sua obsessão, rezou toda a santa missa ao lado da francesa, calcorreou em procissão as ruas da aldeia na companhia da francesa, almoçou ao lado da francesa, merendou ao lado da francesa, bailaricou toda a tarde com a francesa, jantou ao lado da francesa e passou todo o arraial junto da francesa, na tentativa de com ela dançar quando ela lho permitia, pois a francesa começou a evidenciar nítidos sinais de principiar a estar farta do José, ora pretextando cansaço, ora fingindo fixação na banda de música ou dizendo que necessitava de tempo para observar a festa e, sobretudo, o foguetório, a grande atracção da noite.

Por vezes, o José conseguia fazer muito bem de cão perdigueiro. Não abandonava a sua peça de caça por nada deste mundo. Ora isso começou a irritar a família do Carlos, a Rosa, o próprio Carlos e, o que era mais grave, a convidada da família do Carlos. Mas o José nada de se dar por vencido. Por vezes dançava com a Rosa, isto quando a francesa era desafiada para dançar ou com o Carlos ou com o pai do Carlos. Mas depressa tudo voltava ao princípio, a Rosa embeiçada a um lado, o Carlos enfastiado a outro, os pais do Carlos embezerrados ainda a outro, a francesa automatizada nos braços do José e o José de olhos fechados agarrado à francesa como uma lapa.

Quando a banda parava de tocar por causa do fogo-de-artifício, o José, muito lampeiro, lá puxava do seu francês macarrónico e dizia ao ouvido da francesa: “C’est jolie, le feu.” Ao que o seu enfastiado par respondia maquinalmente: “Oui, c’est jolie.” E o José: “Tu est jolie, Stéphanie.” E a francesa: “Oh! Oh! Oh!” E de novo o José: “Je t’aime, Stéphanie”. E a francesa: “Oh! Oh! Oh!” E o José: “C’est vrai”. E a francesa: “Le feu c’est jolie.” E o José: “Je táime, Stépfanie. Comme tu est jolie.”

De seguida sentavam-se nas pedras do muro onde previamente o José colocava um lenço aberto para a sua amada não sujar o traseiro do seu vestido de festa.

O José tentava abraçá-la e ela deixava-se estar para aí uns vinte segundos nos seus braços para depois se afastar argumentando que estava calor: “Il fait chaud.” Ao que o José autisticamente respondia: “O meu coração é que está a arder de amor por ti.” “Quoi?” “Mon couer est qui brûle d’amour pour toi.” “Oh! Oh! Oh!”

E esta pequena história de amor persistiu ainda durante mais uma hora ou duas, para terminar quando os foguetes se acabaram e a banda arrumou os instrumentos e todos rumaram a suas casas.

O José, de apaixonado que estava, passou o que restou da noite, com a ajuda de vinho fino e biscoitos, a escrever longos e penosos poemas de amor, acabando por adormecer já o sol ia alto no céu. Acordou perto da hora do lanche. Mas deu com a casa vazia. Apenas, na varanda, o Carlos ensaiava, acompanhado pelo latido dos vários cães da vizinhança, inconstantes canções de amor para protagonizar mais uma serenata dedicada à sua amada.

Depois de terminado o ensaio, o José atreveu-se a perguntar ao Carlos onde estava a família e a sua amada Stépfanie. O amigo limitou-se a informá-lo que tinham ido embora para a Póvoa de Varzim, onde os aguardava a família da francesa e o respectivo namorado. “Então ela tem namorado? Podias ter-me informado. Eu não gosto de ser impertinente e muito menos de roubar as namoradas aos outros.”

Ao que o Carlos respondeu: “Todos te dissemos que ela estava comprometida, mas tu não ouvias ninguém. Podias ao menos ser mais elegante e teres ligado à minha irmã que tinha um fraquinho por ti. Mas agora acabou-se. Depois da triste cena de ontem só te resta ires embora com as mãos a abanar. És um Dom Juan de pacotilha.”

“E o que faço aos poemas?”, perguntou o José ao Carlos Trolaró. Ao que o amigo respondeu: “Se são de amor, como penso, dá-mos cá que eu mesmo os musico.” E o José, para não ferir a sensibilidade do amigo, disse: “Deixa lá, não valem nada. Eu mesmo os rasgo.” E rasgou-os com uma afectividade muito próxima da perfeição.

 

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