Segunda-feira, 8 de Agosto de 2011

Crónica estival: um, dois, três, vamo-nos lixar outra vez

 

Gosto de ler, gosto de ir de férias e gosto do Dr. Mário Soares. Gosto de ler e leio com critério, pois esse é o segredo dos que apreciam a leitura. Gosto de ir de férias, pois vou com gosto até sítios onde sonho ir e aprecio, sobretudo, o momento de regressar ao sítio onde vivo. E gosto do Dr. Mário Soares porque é quem é. E olhem que é bonito uma pessoa ser quem é.

 

Ando a ler um livro muito interessante, criteriosamente escolhido e degustado com muito amor, carinho e preceito.  Mas desta vez quero falar-vos das férias. Das minhas. Quase sempre começam pela saudade. Pela saudade de ir de férias e ver o mar. E eu gosto do azul até doer. E o mar é azul, essencialmente. Daí partir de casa sempre ansioso por ver o mar.

 

Por isso meto os pneus a caminho e lá vou conduzindo e rindo, quando não berro com o trânsito, com os condutores de fim-de-semana ou com as estradas. Ou com as portagens. Mas o mar, a imagem do mar, o seu azul, a sua memória, o seu chamamento, são lenitivos apaziguadores.

 

Entretanto revejo mentalmente a entrevista do Dr. Mário Soares ao Expresso. E, concluo com prazer, que de novo me deixei embalar pelo enlevo das suas palavras. Pois o senhor provou, mais uma vez, como se fosse preciso, que sabe daquilo que fala.

 

Entrementes os carros apitam, o calor aperta, e o locutor da rádio fala daquilo que tem de falar. Que o novo governo vai, na sua senha reformista, encerrar várias urgências hospitalares para reduzir drasticamente as despesas. Lembro-me que o ex-ministro Correia de Campos, esse facínora socialista, pretendeu fazer o mesmo e não o deixaram, especialmente os partidos da oposição, que nessa altura eram o PCP, o BE, o CDS e, sobretudo, o PSD.

 

Mas enquanto o condutor que segue atrás de mim buzina por qualquer razão que eu não consigo descortinar, lembro-me, de novo, do mar, do inebriante odor a maresia, do sol e das ondas. E das promessas eleitorais de PPC. Por isso desligo-me sorrateiramente da minha pronta capacidade de reacção e sigo sem frente.

 

Lembro-me de novo das frases perfeitas do livro que ando a ler e sorrio para a minha mulher, que se ri a meu lado, e com todo o sentido de Estado, da promessa do novo sistema de avaliação de professores que veio plasmada nos jornais de referência. Ele é tão igual ao que já existe, mas ao mesmo tempo é tão diferente, que tem tudo para dar certo.

 

Nuno Crato provou que é um ministro com ideias, que é um homem prevenido e que, além disso, sabe ser original. Não só ele como todo o governo de Pedro Passos Coelho, que já provou que entre o líder do PSD e José Sócrates, não só os separam os partidos a que pertencem, como, essencialmente, as suas propostas políticas, pois são totalmente divergentes. Opostas, mesmo. Apesar de parecerem terrivelmente idênticas. Mas as aparências iludem. Sobretudo quando se chega ao Governo.

 

Além disso é mentira que o governo PSD/CDS vá cortar para metade o décimo terceiro mês dos portugueses, pois o senhor PM é um homem de palavra, e ele prometeu, duas vezes, para que não restassem dúvidas, a uma menina, e à sua desconfiada e mal intencionada mãe, por certo socialista, que essa aleivosia argumentativa, em plena campanha eleitoral, era pura propaganda política muito ao jeito dos socialistas. Mentiroso era, e é, claramente, José Sócrates. PPC não mente, apesar de não dizer a verdade.

 

Chego ao destino, pouso as malas e vou de imediato até ao restaurante comer e beber. Isto faz parte das férias; comer mal e pagar muito. É como ser português. Depois vou ver o mar, inspiro o cheiro a maresia e vou para casa a correr com o intuito urgente de tornar para a praia. Depois de uma escala estratégica, fardo-me a rigor e regresso à praia. Meto o pé na areia e ela queima, por isso corro aos saltinhos, como quando era criança.

 

Depois de incomodar, sem querer, quem apanha sol com muita determinação, chego ao pé do mar e banho os pés. A água está fria, o que é bom, para os pés, claro. Mas quando tento entrar no mar, até a cintura, arrepio-me muito e recuo. Tento de novo. E de novo. Mas torno a recuar. Reconheço que não sou corajoso em tempo de férias. O frio da água do mar incomoda-me e o calor da praia abafa-me.

 

A minha mulher, com a sua paciência de mulher, chama-me com gestos expressivos indicando que, antes de tudo, na praia, é necessário pôr protector solar. Bem educado como sou, vou até ao nosso lugar, devidamente delimitado pelas toalhas e pelos sacos, e besunto-me a rigor. Depois da pele correctamente oleada vou dar um passeio mesmo juntinho ao mar. Molho os pés, caminho, observo e torno a caminhar deixando que o mar me faça cócegas nos meus sensíveis pés.

 

Entretanto penso na entrevista do Dr. Mário Soares ao Expresso. O homem continua lúcido e afirmativo. É um regalo ler as suas sábias palavras cheias de intencionalidade. E personalidade. O ex-Presidente sabe daquilo que fala. E também gosta da praia e dos bons prazeres da vida. Mário Soares não tem papas na língua, nem colesterol. E diz coisas muito interessantes.

 

 Entretanto o mar continua a refrescar-me os pés. Lá mais ao fundo, a Luzia sorri na minha direcção. Vou até à sua beira e tento sentar-me, mas apenas o consigo à força de muito porfiar. A minha coluna está cada vez mais débil. Depois de olhar para o livro que ando a ler, e que recomendo vivamente, tento levantar-me, mas só o consigo porque a minha mulher me dá uma ajuda. De novo tento enfiar o corpo na água, mas ele pula e recua, o maroto. No entanto, uma onda amiga, mas fria como o caraças, submerge-me e dou por terminada a minha angústia antes da emersão. Dou umas braçadas para aqui e outras para acolá e finalmente faço como os patos mergulhões. Depois retiro-me com a pele arrepiada, mas com o dever cumprido.

 

Agora já posso ir para casa tomar um duche e besuntar o corpo com um creme hidratante. Já devidamente vestidos e calçados, vamos jantar, eu e a minha Luzia, a um restaurante repleto de pessoas. Entre o sentar e o comer decorrem alguns bons e refrescantes minutos. Entretanto bebemos um vinho branco fresco, ingurgitamos as entradas e, já com pouco apetite, tentamos comer o prato principal. Saio do restaurante um pouco alegrete. Mas nada por aí além.

 

Pela avenida as pessoas passeiam como peixes num aquário, andam às voltas como se fosse promessa. Parecem-me todas cada vez mais iguais. Talvez seja do escuro. De facto, a noite torna tudo mais pardo. Igualiza. Por vezes dou com um ou outro político que por aqui também passeia na sua bonita vulgaridade estival. Se houve classe que ganhou igualdade foi a dos políticos. Cada vez estão mais iguais uns aos outros. Daí o povo dizer, na sua infinita sabedoria, que os políticos são todos iguais, mesmo não parecendo. Mas eu atrevo-me, talvez auxiliado pelo vinho branco, a dizer que todos eles são iguais, mas que existem alguns que são mais iguais que outros. A democracia nalguma coisa tinha de dar certo.

 

Mas como ainda não vos falei daquilo que vos queria falar, e porque esta croniqueta já vai longa, fica para a semana. Até lá. Um forte abraço.


publicado por João Madureira às 07:00
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