Quarta-feira, 10 de Agosto de 2011

O Poema Infinito (60): ímpetos procriadores

 

Eu sei que falo por ímpetos procriadores. Depois do amor escutamos a música da chuva que nos alimenta a embriaguez do rigor após o coito. Para sempre ficará na minha respiração a tua respiração. Essa é a natureza da matéria: a pormenorizada indiferença do indivíduo. Depois um olhar perfeito principia a ondular como se fosse um fio de seda. O odor das folhas verdes beija a sombra dos pássaros. Ramos dóceis balouçam de prazer. Cavalos altivos correm invisíveis pelo meio dos mistérios. Essa é a inadequada perfeição. Creio em ti mulher e na intencional lembrança dos nossos filhos e na sua hieroglífica intencionalidade. De novo as pedras impassíveis dos caminhos devoram os ecos do tempo e do espaço e das formas. Os teus olhos inclinam-se agora perante a nítida respiração dos desígnios. A tua límpida simplicidade envergonha a hipocrisia. É a velha lei das fêmeas. Os homens, esses, adormecem nos buracos por si escavados. Agora a filosofia é diferente: é fundamental aprender com os mais simples para ensinar os mais sábios. O mundo da linguagem é um infinito desdobrar de palavras antigas. Sei que em nós vivem as vozes emudecidas dos ofendidos. Essa expansão pálida dos gritos proféticos dos cépticos. Sussurros de aves de arribação redimem a fragilidade dos doentes. As projectadas paisagens masculinas sufocam. Quanto amor útil se perde nas noites pálidas de Outono. São agora os nossos olhares pomares de estrelas. Por isso dorme descansada, eu velarei toda a noite os nossos sonhos suspensos. A nossa viagem interior é eterna. Sei que mais ninguém poderá percorrer este caminho. 


publicado por João Madureira às 07:00
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