Sexta-feira, 12 de Agosto de 2011

O Homem Sem Memória

 

76 – Depois da fuga de Stéphanie para a Póvoa, o José decidiu não se apaixonar mais durante aquele Verão. As mulheres não lhe mereciam tão grandiosa disponibilidade sentimental. Uma paixão é como uma doença, por vezes até tira o apetite e a boa disposição.

Como vingança resolveu fazer o percurso das festividades da região. Para as festas perto de Névoa, normalmente utilizava a boleia na mota do Carlos Trolaró que fazia tal barulho que presumivelmente amedrontava os lobos e punha em respeito as almas penadas. Para as festas mais distantes, juntava-se a alguns parceiros tão determinados como ele a saltar de arraial em arraial, como se andasse a despedir-se para ir para a guerra, e alugavam um táxi ou iam de boleia nalgum carro de rapazes sabidos que os transportavam em troca de dinheiro para meter gasolina à justa para a deslocação. E foram ao S. Caetano a pé. Não para realizar promessa, mas para cumprir com a tradição.

Logo após a verbena no Jardim Público, meteram pés ao caminho enfiados num rancho de rapaziada nova. Palmilharam mais de uma dezena de quilómetros num ritmo de caminhada certo, apenas mais acelerado quando foram surpreendidos por uma trovoada das boas. Quando as pingas começaram a cair grossas como bagos de uva, ainda pensaram enfiar-se debaixo das árvores, mas como os relâmpagos chispavam do céu como faúlhas de Natal, optaram por apanhar chuva, pois mais valia ficarem molhados que feitos em churrasco. O trajecto deu para galhofar, contar brejeirices e cantar.

Amanhecia quando chegaram ao recinto. Extenuados, aninharam-se nos tufos de erva maninha e dormiram o sono dos justos. Acordaram por volta do meio-dia, foram procurar familiares e amigos e com eles manjaram do farnel, que, nestas ocasiões, era sempre diversificado e farto. Comeram e beberam em franca camaradagem. Depois de visitarem a capela, de apreciarem os andores e de cobiçarem as notas que lá estavam penduradas como sinal de devoção e ajuda espiritual prestada, compraram, nas barracas da especialidade, dois chapéus mexicanos, óculos de sol de plástico genuíno e resolveram enfiar-se na carreira e regressar a Chaves, pois na festa de São Caetano não havia arraial e dançar com as raparigas só por dançar não lhes estava no feitio. Se não fosse possível o remanso do encosto, bailar era apenas exercício físico, e disso estavam eles bem abonados. Durante a viagem fartaram-se de rir e de imitar o linguajar obtuso de Mario Moreno, o Cantinflas.

O José e o Carlos tornaram-se especialistas em dança de encosto e em palavras dengosas. Como eram razoavelmente bem-parecidos, era difícil levarem tampa. As raparigas, salvo raras excepções, também gostavam de se sentir apertadas e, por vezes, no escurinho dos bailaricos, deixavam-se entusiasmar e, em ocasiões afortunadas, consentiam deslocar-se até um canto mais recatado e masturbavam os companheiros como quem esforça salpicões em tempo de confeccionar o fumeiro. Pô-las de rabo ao léu era tarefa bem mais complicada. Mas o José e o Carlos também não simpatizavam com o abuso. Usar sim, abusar só em circunstâncias muito específicas. E nas aldeias trasmontanas, os bisnaus pinantes eram tratados a estadulho ou com vara de marmeleiro, pois tanto pais, como irmãos, como namorados, cegos pela honra, pela afronta, ou pelo ciúme, enchiam-se de razões, levavam-se dos diabos e malhavam nos insolentes como em centeio maduro.

Houve ocasiões em que o par de bailarinos foi descoberto pelas mães mais avisadas em poses e serviços fora das mais elementares regras do decoro e da arte da dança. Quando assim calhava, tanto o José como o Carlos Trolaró, davam às de vila diogo, deixando para trás a atrapalhada cachopa que se limitava a levar uns tabefes sem se queixar ou, sequer, esquivar-se. Apenas uma vez a aventura da dança, seguida de masturbação e fuga, esteve para correr muito mal ao José.

No momento da evasão estratégica, daquela vez, a mãe não apareceu sozinha, mas antes escoltada pelo marido, pelo namorado e pelos filhos, que eram muitos e brutos. Como lobos, rodearam-no bem rodeado, e o namorado, de navalha de ponta e mola bem aberta reflectindo a ameaçadora luz da lua, ordenou: “Tirai as calças ao punheteiro que eu vou capá-lo com se fosse um porco.” E daquela vez o aviso soou tão sério que o José pensou que ia ficar como o Virtudes.

Começou a rezar como nunca o tinha feito na vida, mas quem veio em seu auxílio não foi Deus, ou qualquer um dos seus súbditos, mas sim o Carlos Trolaró montado na sua diabólica moto barulhenta.

Quando se viu entre os fortes braços dos homens e o frio fio da navalha do capador, o José berrou tão alto por socorro que o Carlos, entretido com uma das suas danças de encosto, o ouviu com a suficiente nitidez para se aperceber da situação desesperada porque passava o seu amigo. Um pouco contra o sentido da dança, o Carlos abandonou de imediato os braços da rapariga, que ficou imóvel de surpresa, e partiu a correr na direcção da sua mota, que se portou com todo o sentido do dever, pegando de imediato. Como um cavaleiro louco, o Carlos lançou-se na direcção do escuro caminho por onde tinha visto o amigo escapulir-se, e manobrou tão bem o seu veículo motorizado, que pôs a alcateia em alvoroço, derrubou o capador e, num golpe de génio, parou quando tinha de parar para o José montar na motoreta a jeito e dali se irem com o coração apertado como um punho fechado, mas com as partes pudentes salvas e em bom estado.

O Carlos, que mesmo em situações extremas nunca perdia o bom humor, quando parou para meter gasolina num posto ainda aberto, virou-se para o amigo e disse: “Um padre capado é o padre perfeito. Pensando melhor, talvez fosse preferível ter deixado os campónios finalizar a tarefa. Deus escreve direito por linhas tortas. A luxúria há-de ser a tua perdição. Viciaste-te em masturbação e agora não consegues fechar um arraial a dançar.” O José, ainda aflito e perplexo, virando-se para o seu salvador, apenas murmurou: “Tenho de rever a minha conduta. Isto está a tornar-se aflitivo. A carne é fraca, mas eu tenho a obrigação de me controlar. Afinal, o apelo da fé tem de fazer algum sentido.”


publicado por João Madureira às 07:00
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