Segunda-feira, 15 de Agosto de 2011

Segunda crónica estival: um, dois, três, já nos aldrabaram outra vez

 

Acordaram-me cedo para ir para a praia, mas eu teimei que em tempo de férias um cidadão tem o direito a levantar-se tarde e continuei a dormir, ou a fazer que dormia, até serem nove horas. Depois levantei-me, tomei um duche, lavei os dentes, papei o pequeno-almoço, fardei-me a rigor, agarrei no saco que me estava destinado e fui para a praia. Na praia, apesar de ainda não ser tarde, mas também não ser cedo, o areal estava tomado. Tivemos de caminhar um bom pedaço para darmos com uma nesga de areal onde pudemos, finalmente, estender, à rasquinha, duas toalhas. A areia estava quente, o mar lá ao fundo estava azul e o Sol brilhava como quase sempre o faz de Verão.

 

Depois cumprimos com a tradição: besuntámo-nos bem besuntados com um bom protector solar. De seguida fui comprar os jornais ao quiosque. Boa caminhada para lá, boa caminhada para cá, e lá me pus a ler as grandes, que as pequenas, com este sol, não são muito convidativas. Li primeiro os títulos das notícias do jornal desportivo, de futebol, entenda-se. Confirmei o que já sabia: que o Benfica comprou um merouço de novos jogadores, que o Sporting comprou outro merouço de novos jogadores e que o Porto comprou apenas uma mão cheia deles.

 

Na outra toalha a Luzia lia o seu diário de referência com olhos de ler, apesar de os ter escondidos atrás das lentes escuras dos óculos. A meio da leitura exclamou: “O Governo de Pedro Passos Coelho subiu os transportes cerca de vinte por cento, aumentou os impostos sobre o trabalho mas não sobre o capital –  ele, o figurão, que jurou não criar mais impostos e a primeira coisa que fez ao chegar ao poleiro foi criar um imposto extraordinário e vários aumentos de taxas e impostos indirectos –, facilitou os despedimentos, e, como se fosse pouco, faz agora olhos cegos sobre as trafulhices fiscais das empresas, entrega ao desbarato o BPN à filha do presidente de Angola e ao Américo Amorim, ou seja, aliena a nossa soberania e entrega de bandeja o país aos capitalistas. E o povo, onde está? Agora não buzina, não berra, não protesta? Não vem para a rua indignar-se? Não corta estradas, não faz marchas lentas? Não chama aldrabão ao Pedro Passos Coelho? Não espera em cada esquina o virgem PM para o insultar? ”

 

Eu, tentando pôr um pouco de água na fervura, ou melhor, tentado colocar um pouco de fresco na sua indignação, convidei-a a ir até à beira-mar refrescar o corpo nas claras águas do Atlântico. E ainda tive coragem para lembrar: “O povo está de férias. Quando regressar a casa, vai ser o bom e o bonito. Tu vais ver Luzia, o bom povo português vai mostrar o que vale, vai exibir a sua raça e entupir as estradas e marchar sobre São Bento para libertar Portugal desta cambada de mentirosos, ó desculpa, desta corja de aldrabões.”

 

Ela, olhando-me bem nos olhos, apesar de ter os seus disfarçados por detrás das tais lentes escuras, avisou-me: “Não brinques comigo, João.” “Credo”, disse eu. E até me atrevi a mais: “Este Governo está por um fio. Deixa o povo tomar consciência da crise e do embuste em que caiu e vais poder assistir à sua mais que justa indignação. Pois todos temos direito a indignarmo-nos.” E ela: “Crise?”, perguntou, olhando desconfiada para a multidão que enxameava a praia, e provavelmente lembrando-se das estradas congestionadas, dos restaurantes a abarrotar, dos supermercados e dos centros comerciais à pinha, dos bares repletos, das piscinas preenchidas como latas de sardinhas.

 

Momentos antes de colocar o pé na água lembrou: “Se fosse o José Sócrates…” (“Já cá faltava esse”, disse eu pondo o pé na água, arrependendo-me e arrepiando-me de imediato.) “… e o Teixeira dos Santos a fazer metade das crueldades que o governo do Pedro Passos Coelho já fez em apenas dois meses, e promete continuar a fazer nos meses que se seguem, teríamos o Terreiro do Paço apinhado de tendas de campismo e de portugueses indignados a gritar para o Primeiro-Ministro ir embora porque é aldrabão, mentiroso, falaz, impostor, incompetente, inapto e… chiça (a Luzia não consegue dizer porra) a água está fria…”, “como a porra”, completei eu. Depois olhou para o azul do mar, observou as pessoas ao redor e, finalmente, dirigiu o olhar na minha direcção, como só ela sabe fazer. Sorrindo um pouco, naquele seu jeito irónico disse: “E a imprensa já teria escrito barbaridades incongruentes e obscenidades apalermadas.”

 

Logo após, virou-me as costas e meteu-se na água fria do mar como se ela estivesse quente. Eu ainda tentei correr atrás dela, mas a água fria inibe-me a frontalidade e a coragem. Ela é como o Sócrates, decidida e corajosa, eu sou mais como o povo português, indeciso e frouxo. Mas cada um é para o que nasce, lá diz o povo na sua ancestral sabedoria. 

 

Eu, com o corpo enfiado na água até à cintura em pose de guarda-republicano, pus-me a olhar para a minha mulher enquanto ela nadava para lá e para cá numa atitude de desafio. Nadou o que quis e, por fim, pôs-se de pé perto de onde eu estava na tal pose descrita atrás, e saiu do mar como uma sereia envolta numa fina textura de água salgada. Eu fui no seu encalço.

 

Conciliador, pronunciei, sem muita convicção, tentando dar-me ares de homem culto e bem informado e, por isso mesmo, de cidadão português empenhado na oposição ao executivo do PSD/CDS: “Sabes que os motoristas do secretário de Estado da Cultura são, de longe, os mais bem pagos do governo, apesar de um deles ter apenas vinte e um anos e ser, por isso mesmo, um condutor recente?” A Luzia continuou a marchar pelo meio das toalhas com toda a decisão do mundo, apesar de a areia escaldar. Eu limitei-me a ir aos pulinhos.

 

Por isso intentei de novo: “No entanto, o nosso (quase) conterrâneo Francisco José Viegas paga uns magros 475 euros a um «colaborador-especialista».” Entrementes chegámos às nossas toalhas. Ela secou-se numa e deitou-se noutra. Eu sentei-me a seu lado e fiquei a olhar para ela como se fosse a primeira vez. Sorri feliz. Ela continua linda. Finalmente olhou para mim e disse: “O que te vale é que gosto de ti.”

 

Rimo-nos os dois. Ela para mim. Eu para ela. Depois disse-lhe um segredo ao ouvido. Ela sorriu de novo e fechou os olhos. Deixei-a a secar o fato de banho e fui passear à beira mar. 


publicado por João Madureira às 07:00
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2 comentários:
De Tupamaro a 15 de Agosto de 2011 às 11:42
Quem faz de um Blogue um búzio não deixa o leitor macambúzio!

Plig!Plong!Passang! Porteng! Cavacong! Socrating! Soarung! Sombrang! ,,,,,,,,,,,,,
Que os Paringue!!!................


Tupamaro


De João Madureira a 16 de Agosto de 2011 às 15:03
Só o meu amigo poderia ter a terna lucidez das onomatopeias. Que nunca lhe falte o ânimo. Um forte abraço.


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