Quarta-feira, 17 de Agosto de 2011

O Poema Infinito (61): reacção em cadeia

 

Desencadeia-se rapidamente uma fulguração de espaços nos teus lábios e as paisagens estilhaçam-se no deslumbramento do sangue incendiado como se Deus fosse proibir qualquer coisa que tem necessariamente a ver com a protuberância dos abismos iluminados pela memória por isso outro Deus investe rios de dúvidas metódicas no esquecimento do amor até doer como se essa fosse uma coisa mesquinha e daí nascesse uma nuvem fluorescente de fogo que queima por dentro a ponte interrompida da compreensão humana como se essa fosse a solução para o vagar das pedras que constroem os castelos intactos de inutilidade sugerindo depois uma fosforescência definidora quando as tuas mãos hesitantes se crispam no meu falo como quem agarra um punhal vingador daí todos os gestos serem de amor e raiva e desilusão e ventura e regresso e o desejo torna a ser vingativo e doloroso como se não fosse possível nenhum contacto com a melodia da vida que corre como por instinto capitulando nos trechos desanimados dos pássaros vulcânicos e por aí acima vem o vento triste da inocência e da dor e do princípio de cada corpo e de cada alma morta e de cada olhar desajustado pelo desejo intenso dos doidos e agora caem-me nas mãos os livros inúteis e as palavras inúteis e os suspiros inúteis e toda a vertiginosa inutilidade da vida e da morte e do amor e toda a fulgurante incoerência da geometria das ideias feitas e do amor ultrajado e do fulgor esquecido e do hábito inglório de passear pelos rostos lívidos das crianças estupefactas como se isso fosse o rigoroso segredo da luz e da verdade e da lógica e do sentido da vida por isso dizes que a verdade só pode existir no impossível caminho da loucura e isso ainda é mais louco do que a translúcida loucura da revelação e do esquecimento e da coragem cega da respiração e da inverosímil aventura de caminhar pelas veredas da infância como se isso fosse a cabeça deslumbrada do desejo por isso sempre acreditei na intolerável beleza do teu sorriso e nas imagens de inverno que me ardem na memória e nas lágrimas felizes por ver como o amor é possível dentro da impossibilidade de um espaço definido e como as vozes ganham a sua razão no silêncio e como a memória é um poço onde caem as palavras irrepreensíveis do desespero onde naufraga sempre o barco da esperança e onde a brancura da neve cai ininterruptamente dentro da minha memória de pássaro ferido por isso a minha ânsia deambula pelo vagabundo início dos vestígios perdidos da felicidade como se a catástrofe da vida fosse o possível caos da existência daí continuar a construir ninhos de ideias onde as palavras regressam para serem alimentadas e acarinhadas pelos vestígios doces de uma ave carinhosa e daí não saber se o que digo e escrevo delimita o gesto simples de uma abelha a procurar uma flor pelo seu cheiro intenso daí a fé sobrar porque não temos mais nada a que nos agarrar e a dor vem e os sonhos morrem e a infância desaparece no meio de uma canção de embalar e nos doces caminhos da luz e da esperança os anjos envelhecem sentados no banco do paraíso e os teus olhos tornam a lançar uma pequena chama de alento por isso ainda conseguimos tentar não perder o mundo ou o que dele resta.


publicado por João Madureira às 07:00
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