Sexta-feira, 19 de Agosto de 2011

O Homem Sem Memória

 

77 – Mas uma coisa é falar e outra bem diferente é fazer. Passado uma semana lá andava o José no arraial da festa de Boticas tão fresco e prazenteiro como se não tivesse memória.

Foi para lá no carro do Asdrúbal, ou melhor, do pai do Asdrúbal, que lho emprestou para ir de Santo Amaro ao Sport, que são para aí uns mil metros bem medidos, e voltar. No regresso a casa, com o carro apinhado de onze gandulos, o Asdrúbal resolveu fazer um desvio por Boticas, que eram à vontade uns sessenta quilómetros entre o ir e o voltar.

Demoraram cerca de uma hora bem contada, pois as curvas eram muitas e boas, a noite estava escura e os faróis do carro pouco mais alumiavam que uma lanterna a pilhas. A juntar a todas estas contrariedades, o Asdrúbal viu-se e desejou-se para meter a segunda e a quarta velocidades, pois o José seguia escarrapachado entre os dois bancos da frente a um palmo da manete das mudanças.

Chegaram à festa já o arraial tinha começado há um bom pedaço. Primeiro rondaram as tascas ambulantes, pois, como todos sabemos, uma das características da juventude é ter um apetite insaciável e uma sede persistente. Sentados num banco corrido em frente de uma tábua suspensa em dois suportes de madeira mal talhada e pobremente assentada, mandaram vir um ovo cozido para cada um, que descascaram e polvilharam com sal e pimenta. Depois do ovo mastigado, botaram um copo de tinto, deram um murro no peito e, em duo, foram buscar parelha para dançar.

Antes de dispersarem, o Asdrúbal avisou que às quatro em ponto todos deviam estar junto à porta principal da Igreja Matriz para rumarem caras a Névoa. Quem não fosse pontual ficava em terra.

Escusado será dizer que o José fez parelha com o Carlos Trolaró. Deram uma volta pelo recinto, visitaram a igreja que estava toda iluminada por dentro e por fora, apreciaram o andor da Nossa Senhora da Livração, que era uma santa em tudo semelhante a todas as santas espalhadas por esse Portugal fora, visitaram a enorme imagem de São Cristóvão no meio do ribeiro do Fontão, com o Menino Jesus ao ombro, admiraram o foguetório estrelejante de início de noite e foram, mais uma vez, comer e beber. Mas só o fizeram porque o Carlos Trolaró convidou e pagou, pois o José estava teso como um carapau seco ao sol. O seu pecúlio deu à justa para pagar a quota-parte da gasolina ao Asdrúbal, para o ovo cozido e para um copo meado de vinho tinto.

Desta vez comeram sardinhas e fêveras assadas, desbastaram um rico melão de Almeirim e beberam três canecas de vinho do real. Por cima botaram uma cigarrada bem absorvida e percorreram todo o recinto à cata de um duo de raparigas que aparentassem uma certa liberdade de movimentos e uma positiva independência em relação à família e aos vizinhos. A última experiência do José tinha servido para os colocar numa orientação onde predominava a precaução e, sobretudo, a imprescindível destreza da fuga.

O José com um copo a mais ficava eufórico e, sobretudo, atrevido. O Carlos, por seu lado, aguentava melhor a pressão e o vinho. Depois de várias experiências, nem sempre bem sucedidas, encostaram-se a um par de moçoilas emigrantes em França que revelavam uma acidental independência de espírito e uma positiva liberdade de expressão e movimentos. Estavam na festa sós e com a firme intenção de se divertirem o mais que pudessem. “Esta vida são dois dias. N'est-ce pas?”, disseram elas. Ao que eles responderam: “Mais oui, bien sur.” E durante muito tempo dançaram toda a espécie de ritmos: passodobles, tangos, valsas, chachachas, rock e música popular portuguesa. Além de se cansarem, como era óbvio, estabeleceram uma certa intimidade da qual resultaram ternos beijos florais, alguma cumplicidade erótica e uma subida de adrenalina que apenas podia resultar num acto sexual redentor. Por alturas da apoteose do fogo-de-artifício, combinaram ir vê-lo para um lugar recatado. O que melhor encontraram foi uma pequena leira de ervas depois de um giestal. O Carlos, numa momice de generosa loucura, regressou à Vila para comprar uma garrafa de champanhe fresco e mercar um bolo, por muito pindérico que fosse. Quando se iniciou a girândola do fogo preso, o Carlos Trolaró abriu a garrafa de vinho espumante e dela beberam entre sorrisos, beijos e borbulhas refrescantes. No chapéu do José confeccionaram umas sopas de amante cansado.

Por fim aconteceu o inevitável, cada par procurou o seu terreno de cópula e copularam aquilo que quiseram e da forma que melhor se lhes adequou. Nestas coisas do amor físico, o corpo é que manda.

O fogo-de-artifício durou cerca de meia hora, que foi o tempo necessário a cada par ter o seu desempenho sexual de forma mais ou menos satisfatória. Por vezes o céu enchia-se de luz, o que permitia a cada um visualizar as partes pudentes do seu parceiro como se fossem espaços sagrados. Orgasmos, se é que os houve, e nós estamos em crer que sim, foram conseguidos de forma tão natural quanto possível. Dizem que o amor meteórico também é uma forma de amor. Pelo menos essa foi a sensação com que os quatro ficaram depois de se despedirem.

Às quatro em ponto chegaram à porta da Igreja Matriz onde o Asdrúbal já os esperava impaciente. A noite, nas suas palavras, tinha-lhe corrido mal. Só lhe calharam em sorte donzelas virgueiras que apenas permitiam a dança com os respectivos corpos a meio metro de distância. O condutor do carro ainda perguntou aos demais rapazes como tinha sido a noite. Todos foram unânimes no relatório: o arraial tinha sido uma autêntica desilusão. Mas, como bem sabemos, nem todos estavam a dizer a verdade. E a verdade, naquele amena situação, aproveitava a quem? Comer e calar é atributo dos sábios. 

Dos onze jovens, apenas dez compareceram a tempo. Como estava com os azeites, o Asdrúbal proferiu: “Eu avisei, quem não está a horas fica em terra.”

Todos os presentes, visivelmente cansados, desiludidos, bêbados e frustrados, enfiaram-se no carro como puderam. Mesmo com menos um parecia que iam lá dentro mais três ou quatro. Fins de festa provocam ressaca e irritação. Curva aqui, curva ali, curva acolá, lá se sujeitaram à corajosa subida até Névoa.

Numa curva mais apertada, uma porta mal fechada abriu-se e fechou-se logo num de repente. Alguém mais sóbrio pensou ouvir um grito estranho. Mas foi apenas uma conjuntura fugaz. Pelo menos foi aquilo que pareceu,

Tarde e a más horas a carga foi deixada onde o permitiu a fúria juvenil do Asdrúbal. Por isso, o seu generoso pai o pôs a desfolhar videiras na encosta da quinta familiar de Arcossó durante um dia completo.

Souberam mais tarde que o Manuel Chupeta foi internado no hospital de Névoa com uma perna partida e um traumatismo craniano devido ao insólito facto de ter sido projectado, na curva do Leite, sem que alguém se tivesse apercebido do arremesso. 


publicado por João Madureira às 07:00
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