Segunda-feira, 29 de Agosto de 2011

Quarta crónica estival: o fim da quinzena esplendorosa

 

As férias na praia acabaram, mas o seu esplendor ainda me anda aos baldões pela cabeça. Quinze dias à beira-mar é tudo o que um ser humano mais deseja na vida. E é tão bom relembrá-lo: o calor, o mar, a areia, as besuntadelas, os passeios para molhar os pés, o transportar do saco das toalhas, a água fria para retemperar os ossos e tonificar os músculos, os emigrantes, os imigrantes, os migrantes, os turistas e os autóctones a jogarem as raquetas, o futebol, os putos a lançarem-se para a água como loucos, as conversas, os cães, os carros, os africanos, os políticos em calções, os hipermercados à pinha, os cafés repletos, os restaurantes a rebentar pelas costuras, o subir e o descer ladeiras, as prendas que se compram para a família, os telefonemas que se fazem para a família ou que a família faz para nós, os conhecidos que nos evitam, ou que evitamos, na terrinha, e que aqui nos falam como se fossemos os melhores dos amigos, as feiras regionais, as feiras locais, as festas, a animação estival a cargo das autarquias no seu máximo esplendor de qualidade e diversidade, os ciganos a venderem pólos de marca, os polícias de bicicleta, os ladrões de motorizada, os traficantes de droga de Mercedes último modelo, mulheres chilreantes escurecendo-se na praia para serem fotografadas e logo à noite colocarem no facebook as suas fotos eróticas a ilustrarem os seus poemas de amor cheios de mar, azul, areia, sol e… estrelas, os vendedores de bolas de berlim e de gelados, os leitores da bola a tirarem burriés do nariz, os nórdicos rosados como camarões a tomarem compulsivos e obstinados banhos de sol, mulheres bonitas, feias e assim-assim, homens assim e assado, crianças incómodas, jovens impertinentes e ainda mais areia a escaldar e mais água fria para gelar os meus ossos e mais protector solar e toalhas e jornais e chinelas e camisolas e óculos de sol riscados e amigos de ocasião chatos como o caraças e bóias e baldes e pás e buracos na areia e castelos na areia e… a auto-estrada de caminho de casa que tão cara é de percorrer. Depois sonhar com o almoço no Rui dos Leitões e… o Rui dos Leitões à pinha, as mesas todas ocupadas, a fila maior do que a que se forma para marcar consulta externa nos hospitais do SNS, a longa espera, a família cheia de fome e por isso já indisposta… finalmente o leitão, o vinho espumante, o apetite, a voracidade e o barulho ensurdecedor dos clientes do Rui dos Leitões, e os empregados nervosos sem mãos a medir, as crianças que berram o seu nervosismo primário, o seu pânico por permanecerem ali fechadas e com um barulho atroador que junta vozes humanas, sorrisos alarves, tilintar de garfos, garrafas de espumante a abrir… e ainda mais um pouco de leitão porque a fome é muita e ainda um pouco mais de espumante porque a sede é muita e o barulho ensurdecedor a dilatar-se um pouco mais, como se fosse possível, enquanto o dono do restaurante sorrindo se entretém na teima de ir assentando nas mesas que vão vagando os clientes que continuam a aguardar pacientemente por uma mesa e um ou dois pedaços de leitão à Bairrada pagos a peso de ouro… e chegam as sobremesas doces e finalmente os cafés. Depois de pagar uma fortuna por três travessas de leitão, saímos do restaurante um pouco mais pesados de corpo mas muito mais leves na carteira. É a crise, como muito bem diz o meu sogro. Cá fora o sol queima e quando entramos no carro o ar arde e os assentos são brasas que nos fazem suar em bica. Conduz quem não bebeu ou bebeu pouco. A ânsia de chegar a casa é enorme. Tenho saudades da minha cidade. Só quando estamos fora é que lhe damos o devido valor. Não penso em política pois de certeza que ficava com azia e lá tinha de desfazer o bolo alimentar à base de digestivos medicinais e o leitão foi tão caro e estava tão saboroso que é um desperdício chatear-me com tão fracas reses. Então o Pedro Passos Coelho é que me saiu cá um artista de revista, se sofresse da síndrome do Pinóquio nesta altura tinha um nariz que já não lhe cabia em São Bento. E então que dizer o António José Seguro? Para já basta pensar nele como o fantasma que para se ver nas vinhetas de BD tinha de se enrolar em gaze. Penso isto, e só isto, porque comi salada de alface e tomate no início da refeição. Se levasse mais longe o raciocínio lá se me azedava o leitão no estômago. Credo! Mas, como vos ia dizendo, não há nada como chegar à nossa terrinha. E a cidade de Trajano é tão carinhosa e está tão bem regulada que dá gosto pensar nela pelo simples prazer de pensar… nela. Então até para a semana. E fica desde já prometida uma crónica estival sobre os esplendorosos dias de férias que passei na nossa terrinha a ir de um lado para o outro com muito amor e carinho. E da qualidade e diversidade da animação estival a que tive o prazer de assistir. 


publicado por João Madureira às 07:00
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