Sexta-feira, 2 de Setembro de 2011

O Homem Sem Memória

 

79 – O bairro onde vivia a família do José por vezes proporcionava interessantes cenas familiares. Habitavam lá famílias grandes de prole, mas remediadas de rendimentos, o que equivale dizer que se não passavam fome andavam lá muito perto. A vida naquele tempo era a ilustração perfeita da moderníssima teoria da reciclagem, tudo se aproveitava: roupa usada que se remendava, cerzia ou compunha; calçado que se reparava e engraxava; comida que se preparava uma vez e cujas sobram eram aproveitadas para a ceia ou para o mata-bicho; latas, caricas, tecidos, milho, batatas, madeira, plásticos e carrinhos de linhas que eram transformados em brinquedos para gáudio da criançada. Aquele era o laboratório vivo onde se provava, como se fosse preciso, a teoria de que a necessidade aguça o engenho. E ali mesmo, naquele pedaço de terra onde foram erguidas algumas dezenas de casas simples, a teoria de Lavoisier passou do livro de Física do José à evidência da vida: na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. E seja o que Deus quiser, se é que existe e é amigo dos pobres.

Na primeira casa do bairro habitava a família mais numerosa. Como o pai não conseguia ganhar o suficiente para alimentar e vestir a sua descendência, o filho mais velho, mal concluiu a quarta classe, foi obrigado a ver-se na condição de guardador das vacas de um vizinho que possuía uma pequena herdade de lavoura. António, o infeliz moço, não recebia dinheiro em troca do seu trabalho. Naquela altura a lavoura não dava para tanto. Mas levava para casa, em doses muito moderadas, convenhamos, leite, batatas, centeio, fruta e ainda alguma produção da horta e do jericó.  

Nas lentas horas de labuta, o António tinha de fazer alguma coisa senão dava em doido. Tentou a leitura, mas os livros enfadavam-no de morte, quando não o faziam recordar as muitas reguadas que levou por ler de forma hesitante e pelos muitos erros que dava, nunca menos de trinta, mas também nunca mais de cinquenta. Para ele a língua portuguesa, além de difícil, era madrasta. Por causa dela, tanto o professor como o pai o castigaram severamente. Na tentativa de matar o tédio, tentou o truque da flauta, pois conhecia vagamente a história do flautista de Hamelin.

O desconsolado pastor queria atrair qualquer coisa, mas tocava tão mal que as vacas, em vez de pastarem em paz, tinham tendência a dispersar-se para bem longe de onde ele actuava. Algumas começaram mesmo a evidenciar sinais de uma irritabilidade inusitada e a sua produção de leite diminuiu a olhos vistos. O patrão não gostou do que viu e ameaçou despedi-lo. O António resolveu deixar a flauta em casa. Comprou em segunda mão um realejo já muito gasto mas que depois de soprado continuava a emitir notas musicais minimamente perceptíveis. Isso na boca do tocador que lha vendeu, pois, nos lábios do António, o instrumento musical nunca mais foi o mesmo. Todos lhe diziam que a gaita-de-beiços tinha de estar desarranjada, porque nunca ninguém tinha ouvido um realejo, mesmo gasto, emitir sons tamanhos de dissonância e incorrecção.

Como na feira dos Santos tinha observado um homem a tocar sanfona, realejo, flauta e caixa, enquanto um macaco dava cambalhotas, batia pratos e pedia dinheiro estendendo um púcaro de alumínio, decidiu mercar um tambor. A sua ideia era, com o rufar do tambor, camuflar a desafinação da flauta e da gaita-de-beiços. E conseguiu-o. Mas o som produzido, além de espantar a passarada, afugentar os coelhos e colocar os texugos em pânico, fez com que a Mimosa, a vaca mais produtiva e amada do seu patrão, se pusesse em fuga e, no seu desnorte, enfiasse a pata numa cova funda, fracturando-a. Foi assim o animal para abate e o António para o desemprego.

Nos seus doze anos, o ex-guardador de vacas e da quimera de vir a ser artista de variedades, conseguiu arranjar emprego de moço, que era a modos que o ajudante de trolha, o escalão mais baixo da carreira de operário da construção civil. E por ali se manteve vários anos. Com algum do dinheiro arrecadado, à custa de muito porfiar, convenceu o pai a comprar-lhe uma bicicleta. Todas as bicicletas médias lhe pareceram grandes. E as dos adultos pareceram-lhe enormes. No entanto, adquirir uma bicicleta para crianças estava fora de questão. Ele podia parecer um fedelho, devido à sua baixa estatura, mas já não o era. Além disso, comprar uma bicicleta pequena equivalia a mercar uns sapatos do tamanho certo, loucura que nenhum rapaz do bairro se atrevia a cometer, pois era certo e sabido que o pé aumentava mais rápido que o tempo necessário a ganhar dinheiro para comprar novo calçado. Naquela altura todo o calçado e toda a roupa se compravam sempre dois números acima do tamanho adequado. Essa era a lei fundamental da sustentabilidade das famílias pobres e remediadas.

Viu-se, dessa forma, o António, forçado a pedalar a sua máquina nova com as pernas metidas no triângulo entre rodas e sempre de rabo no ar, o que lhe dava um certo ar de garoto do circo. Pedalou dessa forma a sua bicicleta ainda durante três anos. Aos quinze, finalmente assentou o traseiro no selim e começou a pedalar a bicicleta como um homem.

Foi por essa altura que o pai, vendo que o filho se estava a fazer varão, o levou às, com vossa licença, putas. Mas não se sabe se pela inexperiência se por medo, o António não conseguiu uma única erecção. A mulher da vida, como se fosse uma mãe virtuosa, disse-lhe que assobiasse para ver se o que tinha de crescer crescia, pois essa era uma das tradicionais formas de pôr os pirralhos a fazer chichi. Ele assim fez. Dos efeitos da terapia nada sabemos, o que sim sabemos é que o António descobriu que era proprietário de um assobio de timbre agradável, conseguindo silvar cantigas com muito talento e respeitável harmonia. Chegaram mesmo a organizar-se bailes onde o artista convidado era o António mais o seu assobio. Foi por essa altura que também começou a imitar o trinado de toda a passarada conhecida. E assim foi feliz à sua maneira, que é a maneira mais feliz de se ser feliz, mesmo que não pareça. Dizem que a felicidade é um mito, mas ali estava o António, mais a sua bicicleta e o seu assobio, para provar o contrário. 


publicado por João Madureira às 07:00
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