Quarta-feira, 14 de Setembro de 2011

O Poema Infinito (65): o ruído estrutural

 

Toda a inocência do mundo cabe dentro de um grão de areia, por isso os homens se esquecem da harmonia lenta da poesia. Daí o poemacto de herberto helder e a poesia toda. As cidades cantam incendiadas pela cegueira de Deus que se orgulha do epinício lácteo entoado pelos lábios virgens dos anjos. As tuas mãos procuram, por isso mesmo, o instrumento profundo da angústia. O amor estremece no coração duro dos homens, por isso o seu olhar é um dardo que atravessa a palidez dura do corpo dos amantes prontos a atingir o orgasmo. Todos os orgasmos deixam um rastro que sangra na solidão das noites obsessivas. Mulheres incendiadas pegam nos seus corpos e mergulham nas estrelas. Homens cantam hinos verídicos de onomatopeias habitadas por vozes rudes que homenageiam a honra dos adjectivos absurdos. Agora podemos imaginar a delicadeza e a subtileza de um coito interrompido. Somos tocados por vozes feridas onde o silêncio apreende o seu sexto sentido felino. A morte é um cântico cego. A minha memória cobre-se de nomes infinitos que passam de boca em boca imaginando fórmulas mágicas. Por vezes tudo se ilumina por dentro, por isso as pessoas perdoam o tempo e esquecem as lembranças dolorosas da infância. Quero desprezar todas as coisas para não esquecer coisa nenhuma. O tempo futuro é um profundo movimento devastador. Ardem os lugares na minha memória. Sorrio com um sentimento elevado de demência. Palavras cantam dentro das minhas varandas interiores. Entre elas procuro a linguagem exacta do amor e do desespero. Penso agora no ruído estrutural da criação vegetal, no movimento fabuloso das papoilas, na madrugada triste dos miosótis, na delicadeza impulsiva de uma seara de trigo, no enlouquecido corredor das giestas brancas, no espírito verde dos fetos, na demência sorridente dos nenúfares, na penumbra fulgurante dos míscaros, no pasmo inocente das gipsófilas, na menstruação iridescente dos amores-perfeitos, na lembrança desvairada dos cravos, no estremecimento adormecido das tulipas, na solidão obsidente das silvas e das urtigas e dos tojos, na loucura interior das videiras, no silêncio purificado dos medronheiros, na espantosa exuberância das macieiras em flor e na irremediável banalidade das rosas de todas as cores e feitios e tamanhos. Lembro-me ainda do admirável mutismo das fontes, do irreprimível entusiasmo das montanhas, da inexorável extinção do mundo, da torrente infindável de sofrimento e angústia humanos, da absorvente melancolia dos dias, da misteriosa suspensão da claridade, da arrefecida originalidade de Deus, do sorriso enigmático de uma mulher grávida, da inspiração comovida de um poeta, da impossível verdade de um político, da insustentável leveza de um sorriso de criança, da aprendizagem paciente da beleza, da esperança lenta do amor, do silencioso ruído dos espoliados, do imprevisto grito de igualdade, do erotismo fecundo de uma mulher estendida, do milagre melancólico da escrita, da solidão inventada dos génios, da magnificência dos lençóis de água, da pura substância criadora de um beijo, da substância pura de uma carícia, do despenhamento incendiado de um coito, da auréola intima do pudor, da promessa consagrada do amor e do ódio e do ciúme e da punição, da indecisa esperança no sobrenatural, da voz incendiada das avós, da alucinação longa do crepúsculo dos deuses, da superstição maravilhosa de uma noite de luar, do imponderável testemunho dos salvadores mortais, do testemunho desfalecido dos redentores imortais, e da entontecida fantasia em que me afogo quando escrevo. Entretanto deito-me em cima do meu poema e adormeço. 


publicado por João Madureira às 07:00
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