Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011

O Homem Sem Memória

 

80 – Dava gosto observar o António pedalar a sua bicicleta enquanto assobiava lindas canções de amor. Ou o António a pedalar e a imitar um gracioso par de pintassilgos, ou de rouxinóis. Ou o António a pedalar e a imitar na perfeição uma ária tocada pela banda dos Pardais. Uma coisa é certa: o António pedalava com toda a virtude do mundo e assobiava com todo o esmero do show bussiness nacional e internacional, fosse lá isso o que fosse.

Um dia, enquanto penteava a sua farta e escura cabeleira frente ao espelho do guarda-fatos, tentou cantar. Tinha escutado na rádio várias canções de amor e, a jeitos de envergonhado, experimentou reproduzi-las a modinho. E saiu-se bem. Por assim dizer, o António possuía um bom ouvido e uma voz que, não sendo muito expressiva, era afinada. Além de cantar, acompanhava as modinhas com baixos nasais, ritmos de bateria produzidos à base de artísticas manobras de língua e solos de guitarra executados da mesma forma, mas de outro feitio.

Com o seu aparelho fonador reproduzia, com muito carinho e denodo, todas as modinhas que escutava e se lhe fixavam na cabeça. E sem fazer esforço nenhum. Pelo menos era o que aparentava. O rapazio apreciava-lhe o jeito e as cachopas dispunham-se a dançar com ele só para ouvir, bem juntinho ao ouvido, as principais canções da moda em estereofonia.

Especializou-se em Roberto Carlos (“O calhambeque”, “Quero que vá tudo para o inferno”, “Eu te darei o céu”, “Namoradinha de um amigo meu”, “Debaixo dos caracóis dos teus cabelos” e, sobretudo, “Eu te amo”); Nelson Ned (“Tudo passará” e “Domingo à tarde”); Teixeirinha (“Coração de luto”, que fazia chorar todas as mães, as suas filhas, as avós, alguns netos e ainda alguns dos cães mais sensíveis à arte e ao drama humanos); Los Diablos (“Un rayo de sol”); Gianni Morandi (“Non son degno di te”). Mas o seu tremendo êxito e a sua grande fama ficaram a dever-se à brilhante imitação do repertório dos Antónios: António Calvário (“Avé Maria” e “Oração”), [Conjunto] António Mafra (“Sete e Pico” e “Arrebita, Arrebita, Arrebita”); [António] Tony de Matos (“O destino marca a hora” e “Digo adeus à saudade”); e António Mourão (“Ó tempo volta para trás”).

Todavia, uma coisa é andar de bicicleta e assobiar e outra, bem distinta, é cantarolar lindas canções românticas, andar de bicicleta e trabalhar de ajudante de trolha. Para contrariar o destino, começou a pensar em arranjar um emprego consentâneo com a sua recente categoria de cantor. Deixou crescer o bigode e cortou o cabelo à imagem e semelhança dos seus ídolos mais próximos.

De fatinho às três pancadas, sapato de salto alto à Nelson Ned, camisa de enormes colarinhos à francesa, desmesuradamente aberta no peito, dirigiu-se corajosamente a uma casa comercial – sita na rua de Santo António e especializada em roupa exterior e interior de homem, senhora e criança (tais como fatos, vestidos, meias, cuequinhas de renda e soquetes e demais sortido), além de uma gama extensa de retrosaria e tecidos –, e solicitou emprego. O patrão do estabelecimento comercial, surpreendido pelo charme discreto, e untuoso, do António, mas, sobretudo, pela ousadia irreverente do sósia de Nelson Ned, sorriu e disse que o artista podia vir trabalhar à experiência por um mês. Depois logo se via. E, de facto, a experiência resultou em cheio.

O António, qual disco-jóquei ambulante, deslumbrou as clientes que, viciadas na rádio e nos seus ícones populares, se deleitavam a ouvi-lo assobiar, ou entoar, todas as canções que andavam de boca em boca como se fossem ladainhas, promessas, sonhos, ou tudo junto.

Se as clientes pediam, e pagavam na hora, um fio de linhas ou um fecho éclair, o António dava-lhes de bónus “Quero que vá tudo pro inferno”. Se lhe pediam chita a metro ou umas cuequinhas de renda, o António debitava a “Namoradinha de um amigo meu”, ao centímetro e o “Sete e Pico” quase ao milímetro. Então se a clientela se atrevia a comprar uma vestimenta de baptizado ou um fato de casamento por atacado, o António era imediatamente solicitado a desbobinar todo o cardápio de canções, menos o “Coração de luto”, do Teixeirinha, e, por precaução, “Ó tempo volta para trás” do António Mourão, pois se as mães dos nubentes ficavam de olhos lacrimejantes e com pele de galinha ao ouvi-la, os jovens noivos, depois de escutá-la, consideravam a sua mensagem inquietante ou extemporânea. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | favorito
De Luís Fernandes a 16 de Setembro de 2011 às 12:15
É-nos bem feito!
Passámos em falso a «notícia» de mudança de ares e agora recebemos a dobrar!
Mas é sempre com muito gosto que nos deixamos atrapalhar com idas e vindas do «Chaves» para o «TerçOlho», num treino olímpico para não ficarmos «Sem Memória», isto é, a ver se ganhamos algum juízo!..........
“O Homem Sem Memória" só a recuperará no momento em que o autor vincar o risco de fronteira entre a pintura e o retrato de uma ou, talvez, de todas as personagens, muito embora a obra, estando a ser construída com uma estrutura arquitectónica paradoxal e complexa, lhes confira uma dimensão escultural.
De um retrato, de uma pintura ou de uma escultura jamais poderemos apanhar o sabor ou o perfume de um fruto ….ou de uma mulher.
A linguagem literária do João Madureira, porém, oferece-nos representações simbólicas tão convincentes que até faz de nós os felizes (às vezes, infelizes) substitutos dos seus modelos.
Absolva-se o (nosso) atrevimento.

Luís Fernandes


Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.


.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Novembro 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9


18
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Na aldeia

. 469 - Pérolas e Diamantes...

. Na aldeia

. Noturno

. ST

. Poema Infinito (482): Res...

. No Barroso

. No Louvre

. 468 - Pérolas e Diamantes...

. AB

. VS3

. VS2

. Poema Infinito (481): Que...

. VS

. CL

. 467 - Pérolas e Diamantes...

. Pisões

. Misarela

. Olhares

. Poema Infinito (480): As ...

. Na Abobeleira

. Barroso

. 466 - Pérolas e Diamantes...

. São Sebastião - Alturas d...

. Em Coimbra

. No Louvre

. Poema Infinito (479): Ao ...

. No Louvre

. No Louvre

. 465 - Pérolas e Diamantes...

. ST

. JVF

. Interiores

. Poema Infinito (478): O V...

. ST

. No Louvre

. 464 - Pérolas e Diamantes...

. No Porto

. Em Alhariz

. Em Alhariz

. Poema Infinito (477): Tox...

. Em Alhariz

. Em Alhariz

. 463 - Pérolas e Diamantes...

. Amizade

. Na feira

. Interiores

. Poema Infinito (476): Via...

. ST

. Expressões

.arquivos

. Novembro 2019

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar