Segunda-feira, 19 de Setembro de 2011

Filosofia, aves canoras e diversas apreciações ao Governo da Nação

Quando olhou para uma rapariga, desenhada pela mãe natureza a régua e compasso, que passou no nosso ângulo de visão, o rosto do meu amigo A. transformou-se num sorriso triste e nostálgico. E disse: “Pois, a beleza. A beleza! A beleza parece-me bem, mas apenas serve para o prazer. Na minha perspectiva, os homens deviam dedicar a sua vida a fazer coisas úteis, tais como…”

 

Eu, para abreviar a desconversa, interrompi-o energicamente: “Mas quem foi que te meteu na cabeça que a beleza e o prazer não podem ser úteis?” Ao que A. me respondeu, agitando nervosamente a caixinha das pílulas de viagra que transporta no bolso: “Foi a idade.” Eu, para despistar a nostalgia e a angústia do envelhecimento, que cada vez vai teimando mais em nos atazanar a vida, retorqui: “Não me confundas, nem te desculpes. Tu, que foste um revolucionário inflexível, não pregavas aos quatro ventos que o objectivo final de todas as revoluções eram a beleza e o prazer distribuídos por toda a gente?” Ao que o meu desenganado amigo respondeu rindo com dentes de escárnio e lábios de maldizer: “Pois! Talvez seja. Vou ter de pensar nisso.”

 

O F., que fazia que se entretinha a resolver um sudoku de nível médio, resolveu participar na conversa: “O A. fala na beleza mas penso que se está a referir ao desejo. Entretanto tu falas na revolução, mas queres dizer arrependimento.” “Cá para mim estás-te a armar. Agora de velho é que te deu para a filosofia? Quando novo detestava-la”, remoncou o A. Mas o F. não se deu por achado e atacou forte: “Posso-vos confessar que foi o desejo quem arruinou a primeira metade da minha vida e a outra metade foi estragada pelo seu oposto, o arrependimento. A não ser que tu” – e apontou o seu dedo acusador na minha direcção – “me consigas explicar como pões a funcionar o truque da serenidade.”

 

Com amigos destes, um homem tem de estar sempre atento, senão sai do jogo. Por isso tentei imitar um dos líderes mais querido e estimado de todos os tempos e disse: “Em verdade, em verdade vos digo, existem tão poucas coisas no mundo sobre as quais conseguimos ter certezas, que talvez seja essa indeterminação quem guia as nossas compulsividades mais fortes.” Depois desta tirada, todos ficámos em silêncio.

 

Mas foi sol de pouca dura. No nosso grupo, cada um à sua maneira, está sempre a delimitar o território. E já que não o pode fazer urinando, como o fazem, por exemplo, os lobos, utiliza o expediente das palavras. Por isso o D., que até ali tinha estado a ler uma revista científica, resolveu também dar um ar da sua graça: “Em algumas florestas da América do Sul, existem aves verdadeiramente extraordinárias. Por exemplo, o assobio harmonioso e divino do rapazinho do chaço só se pode escutar apenas um pouco antes do amanhecer. Todo o outro tempo está de bico calado. O chamamento da araponga ouve-se a quilómetros de distância. E o famoso pássaro do petróleo apenas voa durante a noite utilizando, para isso, um equipamento de radar que tem na cabeça…”

 

“Tu é que me saíste cá uma ave canora!”, chalaceou o A. “E tu um papagaio de gabarito”, retorquiu o D. Eu, para dar um arzinho da minha graça, resolvi introduzir nova alínea na conversa e, imitando os Monthy Python, cantarolei: “E agora algo completamente diferente…”

 

“Então vamos agora falar de política”, propus. E eles: “uuuuuuuuuuu”. Mas eu não liguei e continuei na minha, pois sei, de ciência certa, que os homens só gostam de falar de três coisas: sexo, futebol e política.

 

O primeiro pontapé foi meu: “Por falar em aves canoras, o bisnau do ministro das Finanças fez três conferências de imprensa e conseguiu surpreender em cada uma delas. Mas sempre pela negativa. Em todas anunciou subida de impostos. Primeiro foi a sobretaxa extraordinária sobre o subsídio de Natal, depois foi a antecipação da taxa normal do IVA na energia, que apenas estava prevista para 2012, e, finalmente, decidiu agravar a derrama estadual no IRC e introduzir uma sobretaxa no IRS do último escalão.”

 

“E então, qual é a surpresa?”, perguntou D. enquanto este vosso amigo esfregava os olhos. Eu, que sei antecipar as perguntas, engatilhei o argumento justificador do embuste eleitoral que nos pregou o primeiro-ministro: “Foi Vítor Gaspar quem andou, mês após mês, a explicar, em tudo quanto era órgão de informação, que havia muito por onde cortar despesa em Portugal. Mas, até ao momento, apenas se limitou, como qualquer aprendiz de contabilista, a subir os impostos. E isto é um embuste, uma falsidade e uma fraude política.”

 

O D., veio a jogo lembrando que o consumo das famílias, segundo o INE, registou, no segundo trimestre do ano, a maior queda de sempre. E declarou irónico: “Ora isso é ainda consequência das medidas de austeridade do governo de José Sócrates.”

 

O F. fez um reparo, lembrando, e bem, que as medidas de austeridade da era Sócrates, comparadas com as deste governo, são como equiparar um ligeira ventania a um tornado. 

 

O A., que não morre de amores por Pedro Passos Coelho, proferiu com voz de barítono: “A praxis política do governo do PSD/CDS lembra-me a velha história do burro a quem o dono resolveu desabituar de comer. O jerico ainda aguentou até ao décimo quarto dia, mas no décimo quinto morreu. Incrédulo, e desgostoso, o dono comentou: Logo agora que te estavas a habituar é que resolveste morrer. És mesmo burro. Quem te baptizou, acertou em cheio.”

 

Todos nos rimos a bom rir, menos o D., por isso resolveu provocar: “O PSD é visto, até pelos verdadeiros socialistas, como um partido responsável e, apesar do mar revolto em que nos encontramos, está a levar o país a bom porto. Daí a presença de Mário Soares na Universidade de Verão do PSD.”

 

“Olha que o problema não está na presença de Mário Soares na iniciativa do PSD, mas sim nos jovens social-democratas terem gritado que «Soares é fixe», depois de o ex-presidente da República ter criticado duramente a vassalagem do governo do PSD/CDS à troika, aumentando brutalmente os impostos e privatizando tudo o que é público, rentável e estratégico”, atalhei eu.

 

Dos quatro elementos do grupo, três estamos de acordo em que o PSD está a ter uma prática política totalmente contrária ao discurso que fez na oposição. Que foi enganador e demagógico o discurso dos partidos do Governo, pois unicamente teve por objectivo criar uma crise política, com o único objectivo de conquistar o poder. Com essa atitude introduziram no debate ideológico um défice moral que vai, necessariamente, afastar ainda mais as pessoas da política. Além disso, os membros mais importantes do Governo revelam um liberalismo dogmático excessivo, que os afasta da compreensão da coisa pública e da administração e gestão da vida de um país. Por detrás das estatísticas existem pessoas. E os outros ministros e secretários de Estado mostram um amadorismo serôdio e ridículo. E por último, o primeiro-ministro, no seu jeito inábil de dizer aquilo que quer camuflar debaixo de subterfúgios linguísticos, já anunciou uma espécie de guerra preventiva contra a conflitualidade social, denominando-a como “risco de tumultos de rua” e está a transpor a perigosíssima fronteira da destruição do Estado social, sem alternativas visíveis, credíveis e sérias.

 

“Já para não lembrar que a nossa dívida aumentou devido ao buraco financeiro encontrado na Madeira. Nada mais, nada menos, do que 1610 milhões de euros que o governo do arquipélago deve ao Estado central. Uma enormidade. E o palhaço ainda…”

 

D., não sabemos se no gozo ou a sério, interrompeu as doutas palavras do F. e trouxe à colação o discurso do inenarrável presidente do Governo da Madeira. “Razão tem o Alberto João. A culpa disto tudo é da Maçonaria e da Internacional Socialista que não cessam de perseguir o distinto madeirense e…”

 

O A., um pouco enfastiado com a arrogância do D., aconselhou-o, imitando o Rei de Espanha: “Por qué no te callas?”

 

A partir daqui a conversa azedou um pouco, por isso abstenho-me de a referir. A amizade a isso me obriga. A amizade e o decoro. O clima de crispação é já visível, mesmo entre amigos. E ainda nem sequer chegamos ao Natal. Então é que vão ser elas.

 

Assistir a estas discussões fez-me perceber que Marx, que se enganou em tantas coisas, tinha razão quando falava na capacidade implacável que o dinheiro patenteava em se imiscuir em todos os aspectos da vida humana.

 

PS – Tinha por intenção dar-vos conta das muitas e variadas iniciativas sugeridas na agenda (axenda) cultural de Setembro da putativa “Eurocidade Chaves-Verin”, no entanto, não sei porque motivo ela, a agenda, não me chegou via correio, depois de alguns anos de recebimentos atempados e, convenhamos, gratuitos. Estou em crer que tudo se ficou a dever a um mais que justificado ajustamento financeiro, vulgo poupança. No entanto, descansem os estimados leitores que não é por esse motivo que me dispensarei de dar-vos conta do que lá vem vertido. Pois se não vai Maomé à montanha, vai a montanha a Maomé. Pois assim é que é. Rima e é bem capaz de ser verdade. Então até para a semana. 


publicado por João Madureira às 07:00
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