Quarta-feira, 28 de Setembro de 2011

O Poema Infinito (67): as memórias

 

No teu corpo de abrigo abro a minhas velas pandas e navego. Navego e cavalgo. Os ventos são perfeitos e a tempestade é um breve instante de eternidade. Afloram-me aos lábios as palavras dos instantes que se sucedem. Os nossos corpos combinam-se como ondas de desejo. Os nossos olhos reflectem o irresistível ensinamento das marés. Tu és a minha rota de vontade. Abrigo-me na tua sombra esperando as gaivotas que se juntam no convés. Temos ainda uma reserva clara de paixão. O mar calmo embala um sonho doce de pacificação. Um voo de ave mergulha no verde dos teus olhos enquanto bates as pálpebras em câmara lenta. Ficas Iluminada como um círio. Agora moldo o fogo que me abrasa nas formas do teu corpo acetinado em púrpura. Os gestos densos tornam-se demiúrgicos. Queimo-me no sonho íntimo da matéria. A memória é um vórtice. E o tempo é um cruel rito de desespero. Por isso os sorrisos incendeiam-se na dolorosa expectativa do prazer. Pego em ti como o lume envolve a carne que quer possuir. E o instinto submerge o desejo e o desejo submerge amor e o amor submerge a morte e a morte submerge tudo e tudo submerge o nada. A cada dia que passa recolho mais e mais destroços de sonhos antigos. As memórias queimam. As memórias reflectem os recantos da infância perdida. As memórias escorrem pelas paredes das casas abandonadas. As memórias são chagas abertas pelo pó indelével do passado. As memórias rebentam, enlaçam, perturbam os nervos que produzem o equilíbrio. As memórias fundem os nossos cânticos magoados. As memórias cortam. As memórias consomem vidas e gestos e lágrimas e palavras. As memórias são também ímpetos traiçoeiros. As memórias percorrem a fragilidade dos sorrisos inocentes. As memórias são pétalas murchas levadas pelo vento frágil do desalento. As memórias abrem a pele dos ímpios, incendeiam os lamentos dos moribundos e sustentam o pão-nosso de cada dia. As memórias são súplicas de esperança e de desilusão. As memórias são o pecado original. As memórias são carícias de cinza e poeira doirada e procura e desespero. Por vezes, as memórias são também lareiras acesas numa noite fria de Inverno. De bom grado te daria a saborear as minhas memórias mais doces, mas as memórias são intransmissíveis. São cruelmente individuais. São como guloseimas de plástico, como frutos de vidro, como jóias falsas, como ilhas longínquas. As memórias são tufões infinitos de obsessão. As memórias são o desejo impossível das origens. As memórias nascem no fundo do mar quando cada um está ainda dentro do ventre materno. As memórias têm a sedução fria dos corais e do sal e das noites sacudidas pela textura enganadora da quietação. As memórias são o lugar incerto de todos os orgasmos simples ou múltiplos. As memórias são pegadas na areia da praia, são os promontórios do desejo, são os sinais da saudade de ter saudade. As memórias são barcos iludidos pelo cantar das sereias, são pénis erectos pelo desejo impossível. As memórias, quando estão a chegar ao destino, queimam-se como filamentos de lâmpadas. As memórias são também um bocadinho da divindade e da sua perfídia e das escarpas escorregadias da sua redenção. As memórias são plantas solitárias e animais solitários e homens solitários e mulheres solitárias e livros solitários e fotografias solitárias e malas solitárias e casas solitárias e dias solitários e camas solitárias e sorrisos solitários e lágrimas solitárias e deuses solitários e amantes solitários e filhos solitários e mães solitárias e pais solitários e avós solitários e beijos solitários e masturbações solitárias e sonhos solitários e noites impiedosas e perseguições infinitas e esperanças feridas e penetrações esplendidamente sonhadas e poemas de vento e extensões de florestas queimadas. Por tudo isto e por ainda tudo o mais que fica por dizer, respiro agora na noite domesticada pelas carícias do amor. Tu ainda não és memória. Deus seja louvado.


publicado por João Madureira às 07:00
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