Segunda-feira, 3 de Outubro de 2011

Mudar é preciso

 

Li na LER uma entrevista a Arturo Pérez-Revert – definido por Carlos Vaz de Carvalho como um escritor que nada deve à inspiração e tudo ao trabalho, daí o seu enorme sucesso, pois na sua “fórmula não cabem estados de alma nem tiques de artista” –, onde o “romancista à moda antiga” fala do seu gosto pelas regras como forma de fazer frente a um mundo cada vez mais desregrado e ameaçado pelo caos.

 

Confesso que se eu o conseguisse encaixar nas simpáticas palavras do Carlos tinha encontrado todas as razões para gostar dos seus livros. Mas digo, desde já, que não morro de amores pelos seus romances. Li um ou dois, dos mais badalados, e fiquei-me a dormir no meio de tanta intriga, algazarra, aventura, amor e luta. Com outro sabor quedei depois de ler a sua entrevista à LER.

 

Mas, como estou em época de confissão (é fartar vilanagem), reconheço, ainda, outro pecado semelhante, pois, apesar de também adormecer a ler os romances polifónicos do autor de A exortação aos crocodilos, deleito-me com a erudição das suas entrevistas, nomeadamente as publicadas no livro Uma longa viagem com António Lobo Antunes, de José Céu e Silva.

 

Então o que é que o romancista espanhol disse de tão importante?, perguntarão os estimados leitores. Algo do tamanho e da dimensão de: “A mulher é o único herói interessante que há no século XXI”. Ora quem diz coisa tamanha não sofre nem de cegueira, nem de surdez, e muito menos é mudo.

 

Mas avancemos com calma, pois o terreno está armadilhado: “Sobre o homem já temos três mil anos de literatura: Heitor, Aquiles, D. Quixote, o rei Artur, o conde de Monte Cristo, D’Artagnan, Huckleberry Finn. Vimos o homem em todas as situações possíveis. Mas agora há um herói novo. A mulher de hoje já não é a Madame Bovary, já não é sequer a mulher do século XX. É uma mulher que enfrenta um mundo novo, que, embora conserve os instintos naturais, faz frente a um mundo diferente, que luta num mundo de homens, com armas criadas pelos homens, mas que não deixou de ser mulher. Ainda é o que era e no entanto não é ainda o que será. Sobre essa mulher ainda não se escreveu o suficiente. Porque ela ainda não está completa, está a formar-se nesta altura.”

 

Pois é, tudo o que Pérez-Revert afirmou eu subscrevo. E vou um pouco mais longe. Ou, se quiserem, mais perto. Penso, sinto, intuo e defendo que também a nossa região necessita, como de pão para a boca, de um novo alento, de uma lufada de ar fresco, de novos protagonistas, de novas estratégias autárquicas, de novos horizontes. Temos, em tempo de crise, que não é exclusivamente económica e financeira, mas muito mais profunda, porque geracional e cultural, de criar pólos de atracção e desenvolvimento regional que apostem na inovação, na cultura, na emergência de novos valores socais e éticos, na projecção de um futuro necessariamente diferente, pois a fórmula conservadora já deu o que tinha a dar.

 

O poder de atracção da nossa região pelos nos nossos jovens é patética. Sei que não é apenas por estas bandas que o fenómeno se verifica. Mas também é aqui. E isso é que é duplamente preocupante, pelo menos para mim e para muitos transmontanos que não se conformam com a estagnação e o subdesenvolvimento.

 

Já não são suficientes as boas intenções, já não são satisfatórios o gestos de boa vontade, já não são impulsionadoras as dinâmicas de uma gestão autárquica de navegação à vista. O timoneiro está cansado, os subchefes enquistam-se nas suas cláusulas de rescisão amigável com quem lhes deu alma e corpo. E isso não é bonito de observar.

 

 A luta cega, surda e muda pelo poder “previsto” no partido que actualmente exerce o governo na nossa cidade é compreensível dentro da lógica dos ciclos políticos. Mas ela é tão mesquinha e cinzenta que a todos nos deve preocupar!

 

Mesmo que a facção melhor posicionada para colher de maduro o testemunho autárquico vista novo traje, unicamente pode vir a determinar uma gestão de tal forma espartilhada que, fatalmente, originará uma profunda estagnação. E estagnados estamos nós há muito.

 

E se houve tempo, e necessidade, de estabilizar estratégias, definir outros princípios de gestão, arejar cadeiras e estabelecer diferentes rumos à navegação, urge, de novo, cumprir com a lei fundamental em democracia: a alternância. Todos sentimos que está na altura certa para mudar. É preciso mudar. É necessário mudar. É a vida, como bem diz o meu filho João Vasco com o seu aprumo de aluno aplicado e de mestre científico.

 

Um poder que se rege pela evidência de se perpetuar é um poder árido. É um poder em fragmentação. Em Portugal, definitivamente, temos de começar a ser capazes de sair pelo próprio pé, quando o nosso período vital expirou. Aos empurrões é deselegante, isto afirmo para não usar outros termos menos próprios. Se cumprirmos com a lei da vida, a vida só nos pode sorrir. Mudar é preciso. E olhem que eu sei daquilo de que vos falo.


publicado por João Madureira às 07:00
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