Sexta-feira, 7 de Outubro de 2011

O Homem Sem Memória

 

83 – E o António, depois de muito cabecear, desesperar e toleimar contra os códigos dos testes de código, conseguiu obter a tão almejada carta de condução. Um presunto, dois contos de reis e uma que outra palavrinha dada pelo Jeremias da Dona Augusta aos homens certos, foram argumentos suficientes para que os anjos bons descessem sobre a sala de exame e soprassem ao ouvido do António as respostas adequadas. Mas se no código teve auxílio, na condução safou-se sozinho. A não ser assim, lá tinha ido o pé-de-meia para o catano e o sonho de ter um carro para o maneta.

Agradecido, o Roberto Carlos do Bairro Operário cantou gratuitamente na festa da comunhão solene do filho primogénito da Dona Augusta. Diz quem assistiu que teve uma das melhores actuações da sua breve carreira, sensibilizando enormemente todos os convidados e influenciando decisivamente o nascimento do segundo rebento da Dona Augusta e do seu fervente esposo e efectivo, mas não único, galanteador.

Com a carta no bolso, e algum dinheiro no banco, o António deu luz verde ao pai para tentar apalavrar um carro em segunda mão, mas em bom estado. No entanto, com o dinheiro que ambos juntaram, somente conseguiram comprar um NSU branco, em terceira mão e em estado crítico. E se a chapa revelava sinais evidentes de acidente aparatoso seguido de um agressivo trabalho do bate-chapas, o motor gaguejava, soluçava e aquecia como uma panela de pressão. Apesar de velho e cansado, o calhambeque do António pai e do António filho conseguia prestar os serviços mínimos sem grandes sobressaltos.

Como ambos e dois trabalhavam na cidade, conduziam à vez o automóvel e, também à vez, metiam gasolina que pagavam dos respectivos bolsos. Durante o primeiro mês, tudo correu às mil maravilhas. Mas como as geadas de Janeiro em Névoa eram medonhas, pela manhã o carro recusava-se pegar a trabalhar porque as velas não davam chispa, a bateria descarregava-se com uma regularidade estranha e a água congelava no radiador. Ou seja, logo de manhã, à vez, toda a família, e alguns amigos, eram requeridos para empurrarem a viatura rua abaixo, até o motor arrancar. Algumas vezes, houve mesmo necessidade de empurrar o NSU do bairro até às portas da cidade. E quando ele finalmente pegava, o caminho a percorrer até ao trabalho era tão exíguo que quase sempre a rapaziada se perguntava para que raio é que servia o chaço. Está claro que o filho António, ou Toninho, no doce linguajar da sua mãe, mais o António pai ficavam fulos com os apartes, mas não produziam qualquer comentário. Desde logo porque podiam perder a amizade e pôr em perigo a disponibilidade dos familiares e amigos que gentilmente faziam o favor de empurrar o carro, mas também porque consideravam que um automóvel, mais do que um meio de transporte, constituía uma forma de afirmação social. Além disso, a inveja matou Caim.

Tanto o pai António como o António filho, ou Toninho, eram tão baixos que houve necessidade da mulher do primeiro, e mãe extremosa do segundo, confeccionar uma almofada para ambos e dois poderem chegar ao volante, meter as mudanças e carregar com os pés na embraiagem e no travão, sem perderem de vista a estrada.

Entretanto o Toninho continuou a sua carreira de cantor romântico à capela, animando bailes, baptizados, casamentos e outras festividades da mesma índole. A osmose entre o artista e o seu dedicado público continuou a desenvolver-se de forma entusiástica. E essa relação manteve-se durante algum tempo, o suficiente para o António pai vender o NSU e comprar um Taunus azul, que, mesmo tão maltratado de chapa como o anterior, tinha um motor bem mais fiável.

Além de servir para ambos irem para o emprego sem serem empurrados, o Taunus passou a servir para o António, ou Toninho, se deslocar para as casas, ou localidades, que contratavam os seus serviços de cantor.

Mas o pai António, também ele com uma quota no carro, mesmo que mais pequena do que a do Roberto Carlos do Bairro Operário, passou a exigir a disponibilidade do carro durante alguns dias. Ou seja, a utilização da viatura tinha de ser repartida entre os dois proprietários. No plano teórico a coisa até resultou, só que quando a prática se foi prolongando ao longo do tempo, os interesses individuais principiaram a colidir com o sentido de família. Do desentendimento passou-se mesmo ao confronto. Verbal, claro. E aquilo tornou-se tão sério que quando chegava a vez de um conduzir o carro, o outro ia a pé ou de bicicleta. Pai e filho deixaram mesmo de se falar. E isso afectou de forma particular a mãe do António que, por outro lado, também era esposa do António pai.

Por esta altura já o António filho, Toninho ou o Nelson Ned nevoense, vivia numa pequena casa, que era apenas um quarto com uma porta e uma janela, quatro paredes e um telhado, construída a uma distância de apenas três metros da casa dos pais, mas que lhe dava alguma independência. Foi aí que passou a ensaiar o seu repertório.

Invariavelmente, sempre que o senhor António saía com o carro, aparecia em casa tarde e a más horas, bêbado e confuso. Quando batia à porta era certo e sabido que ela se encontrava fechada e com a chave enfiada na fechadura do lado de dentro. Punha-se então a berrar como o Fred dos The Flintstones, só que a putativa Wilma fazia-se de mouca. Com a bebedeira, o Fred do Bairro Operário, depois de muito vociferar, cansava-se e adormecia. Apenas lá pela manhãzinha é que a extremosa mãe do Toninho, e incomodada esposa do pai António, se decidia a abrir a porta. Só então, o homem, estremunhado, entrava em casa para mata-bichar e abalar para o trabalho.

Mas toda a paciência tem limites. E a paciência de uma mulher despeitada e abandonada pelo marido, que a trocava pela bebida e pelo carro, atingiu o seu limite na noite de Santos.

Nessa noite, o pai do António levou o carro, porque era a sua vez. Mas não o conseguiu trazer para casa, pois mal se segurava de pé. Foi carregado para casa escorado por dois amigos que o encontraram a ressonar de bêbado junto a uma pista de carrinhos de choque. Deitaram-no nas escadas da sua casa, bateram à porta e puseram-se a chamar pela patroa. Ela, surpreendida pelas vozes estranhas, pôs-se à escuta e, quando se inteirou do sucedido, abriu a porta e agradeceu a generosidade dos amigos do seu incorrigível marido.

Mal eles desapareceram do círculo de luz do poste de electricidade da última casa, foi buscar um pedaço de mangueira, habitualmente usado para amansar os filhos, arrastou o seu António até ao cimo das escadas e deu-lhe um enxerto de porrada bem dado. O António pai, de borracho que estava, nem deu acordo.

Um pouco antes da hora da visita ao cemitério, em memória dos fiéis defuntos, quando a esposa do pai António, e extremosa mãe do putativo Roberto Carlos do Bairro Operário, foi avisar o marido que estava na hora de levantar, o homem, como se tivesse acordado de um pesadelo, comentou para a mulher: “Porra, Alice, dói-me o corpo todo. Parece que levei um enxerto de porrada.” A mulher nem chus nem mus.

Na hora do almoço, quando o António filho, Toninho, ou o Nelson Ned nevoense, lembrou que era a sua vez de levar o carro, o pai António assanhou-se todo e, gemendo de dor e desconsolo, avisou: “Hoje o carro volta a ser meu. Tenho de levar uns familiares à aldeia.” Ao que o filho retorquiu: “O pai está a abusar. A sua quota de utilização neste mês já foi ultrapassada. Agora toca-me a mim.” Mas o pai, argumentando que o era e que um filho deve obediência ao progenitor, praguejou, insinuou aptidões, maltratou, inclusive, o cão, a dona e amaldiçoou o filho, chamando-lhe paneleiro, rabeta, anão, pobretanas, judeu, cantor de meia tigela, cigano, preto, galego, pobre, pelintra, filho de um cão tinhoso e… nesse momento, o filho foi-se caras a ele e pregou-lhe tal murro nas ventas que o pôs KO. A mãe, chorando tanto como a mãe de Cristo quando pregaram o seu filho predilecto na cruz, pegou num pedregulho, foi-se caras ao carro e acertou-lhe em cheio doze vezes, tantas quantas as tribos de Israel, os filhos de Jacó e os apóstolos.

À noite, enquanto a família dormia, ou fazia que dormia, o António filho, regou a carcaça do Taunus com gasolina, chegou-lhe um fósforo e desapareceu na noite para nunca mais.  


publicado por João Madureira às 16:10
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