Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011

A generosidade e o descalabro

 

É fácil ser-se generoso quando não interessa. A qualidade dos governos vê-se quando chega a hora de tomar as decisões difíceis. Este executivo, posto perante o dilema do doente diabético, cortou-lhe ambas as pernas antes mesmo de ser necessário.

 

Fazendo um inventário do país, olhando para ele como quem observa uma casa, veremos que tudo está cada vez mais errado: o telhado empenou, a pintura e o estuque do interior desbotou, os caixilhos das janelas começam a apodrecer e os tijolos necessitam novamente de argamassa.

 

Convenhamos que esta casa chamada Portugal nunca foi propriamente uma mansão, no entanto chegou a ser uma habitação robusta, ainda que rasteira. Mas ao estado a que isto chegou, já não sabemos se vale a pena arranjá-la ou se será aconselhável arrasá-la e construir outra nos caboucos da anterior.

 

Os novos profetas do desenvolvimento espalharam aos quatro ventos que andavam a fazer um Portugal melhor e com futuro, desprezando a voz daqueles que tiveram a coragem de avisar que gastar o dinheiro que não se tem é sempre um mau caminho a percorrer. Eles, lá do alto do seu poleiro, cacarejavam que o país devia desprezar a voz dos políticos razoáveis.

 

Agora descobrimos que a realidade do nosso buraco financeiro nem mesmo à luz da razão e dos sacrifícios pode escapar. Os culpados estão todos espalhados estrategicamente pelos quadros dirigentes dos (in)distintos partidos, uns porque pediram o possível e o impossível e outros porque ofereceram aquilo que não tinham, recorrendo sempre a empréstimos com que hipotecaram o futuro do país e das próximas gerações.

 

Logo após o 25 de Abril, a esquerda revolucionária desmantelou todo o nosso tecido produtivo, nacionalizando a eito, enquanto ia espalhando o patético slogan de que o povo só tem direitos. Por causa desses abusos, Mário Soares viu-se obrigado a meter socialismo na gaveta.

 

Entretanto, os trabalhadores, seguindo a ficcional e delirante narrativa sindical, transformaram o poder da rua em demagogia pura, dando lugar à tragédia atual. Pois, logo após cada jornada de luta, os trabalhadores, à medida que iam vendo subir os seus salários, tapavam as orelhas aos avisos de quem fazia as contas e anunciava que o endividamento do Estado e das empresas já tinha ultrapassado o limite da sustentabilidade. Perante o descalabro, os distintos governos foram-se comportando como verdadeiros autistas e suicidas.

 

Cavaco bem pode agora clamar pela agricultura e pelas pescas, que não se livra da legítima acusação de que foi ele quem as destruiu. Guterres bem pode ir carpir os seus pecados veniais para a ONU que também não se livra de ter espargido o dinheiro dos fundos europeus para cima dos problemas, como quem derrama água em cima de azeite a ferver. Durão Barroso, vendo a casa a cair aos bocados, aproveitou a boleia europeia e fugiu para a gaiola dourada de Bruxelas, onde nada se decide e tudo se atrapalha, protagonizando agora o deselegante papel de moço de recados de Merkel e Sarkozy.  

 

Santana, o menino guerreiro, demonstrou como se pode chegar ao poder com a competência de um presidente de junta de uma freguesia da área metropolitana de Lisboa. O seu partido envenenou-lhe o futuro político com a oferta do cargo de primeiro-ministro e o presidente Jorge Sampaio, em vez de lhe fornecer o antídoto, reforçou a dose com a desculpa do desajuste da representatividade parlamentar em relação à realidade política. Daí resultou, sem que, convenhamos, viesse mal ao mundo, um autêntico golpe de Estado constitucional.

 

Sucedeu-lhe Sócrates que começou a governar de forma incisiva e rápida. Se calhar rápida demais para a realidade portuguesa. As suas decididas reformas encheram as ruas de toda a espécie de manifestações. A esquerda insultou-o de tudo. A direita enxovalhou-o. Quando os sindicatos vieram para a rua exigir a cabeça dos ministros mais corajosos, Sócrates titubeou na estratégia, dando o flanco à esquerda e à direita, ficando cada vez mais apertado entre um país enraivecido pelas manifestações e pelas greves, apoiadas à altura, ó ironia das ironias, pelos partidos mais à direita que inventaram, à pressa, o direito do povo à indignação.

 

Agora temos um governo que, mais do que nos governar, se comporta como uma comissão liquidatária. Enganou-se no prognóstico, mentiu nas promessas, titubeou, e titubeia a cada dia que passa, na implementação das suas propostas eleitorais. Corta aqui, corta ali, corta acolá. Mente aqui, mente ali, mente acolá. Esconde a inoperância debaixo do manto diáfano da hipocrisia. Insulta os adversários políticos, lava as mãos como Pilatos quando se trata de assumir as responsabilidades económicas e políticas de longo prazo. Assusta as pessoas com a história do Lobo Mau chamado Sócrates e encobre Alberto João Jardim que é um intrujão compulsivo e um chantagista político. Mas o cartão laranja lava mais branco do que o Omo. E como se tudo isto fosse pouco, encarnou o papel do maior perseguidor de funcionários públicos de que há memória. E vinga-se neles como se fossem judeus, negros ou alienígenas.

 

Com toda esta tragédia grega, à portuguesa, Portugal apaga-se a olhos vistos. O seu corpo começa a descontrair-se com a expectativa da derrocada. Perdido por cem, perdido por mil. Actualmente já ninguém antecipa o prazer, mas antes o alívio da dor. E olhem que isto é que é o descalabro.  

 

Estamos mergulhados num dilema: precisamos de dinheiro para mudarmos de vida e de paradigma, mas também precisamos de mudar de paradigma e de vida para ganharmos dinheiro.

 

Entretanto roubaram o 13º e o 14º mês aos funcionários públicos, por entre o sorriso sardónico do ministro da economia e o sorriso cínico dos empresários e banqueiros. O primeiro-ministro faz que chora. Mas os portugueses sabem agora que deslizam num plano inclinado e vão bater violentamente na parede. A perspectiva economicista da política voltou a triunfar. O salazarismo continua ativo. O PSD apronta-se para matar o país da cura, não sabendo que, inevitavelmente, perecerá com ele. Este governo comporta-se como um verdadeiro serial killer do tecido económico e social do país. Para já, o PM entretém-se em destruir a classe média portuguesa concentrada no funcionalismo público. A seguir irá em busca da restante que se encontra espalhada pelos outros sectores laborais. Pedro Passos Coelho abriu a caixa de Pandora. Nisso, reconheço, tem a coragem dos incautos. O problema vai ser fechá-la. 


publicado por João Madureira às 07:00
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