Quarta-feira, 19 de Outubro de 2011

O Poema Infinito (70): a densidade de um segundo de criação

 

Vejo da minha varanda hermética um cavalo varado pelo desejo aromático dos prados verdes. O cheiro dos crisântemos assombra a tarde que se forma sobre o ar vivo das cores do arco-íris. Numa das margens do rio um astro melancólico começa a ascender. O sol suave abre agora a noite inteira sobre o dorso do cavalo varado. O silêncio na curva do rio é imenso. Cai a noite. Nesta noite imprecisa mora a memória derradeira dos meus antepassados. Por isso o cavalo varado persiste em caminhar sobre as pedras do desfiladeiro provocando relâmpagos persistentes. A noite ensurdece enquanto eu caminho sobre as pedras dispersas da minha pobre casa. Os meus olhos são agora lagos. Os meus membros são agora sombras e silêncio. A minha cabeça é agora o caos da criação. Todo eu sou a sede vertebrada dos desertos. Todo eu sou a língua que já não cabe na boca. Os anjos fosforescentes dançam na erva e depois elevam-se como ondas por entre as coxas das mulheres em cio. Os seus corpos esperam. As suas inconsoladas bocas assopram o fogo-fátuo do amor. Este é o celeste inferno do desejo e da morte. Mulheres enleadas nas asas dos anjos gritam explosões de orgasmos. Choram e gemem. Amam e desesperam. Sussurram e morrem na fúria do amor. Olho a torção dos seus corpos possuídos pelo desejo divino. Deus é agora uma mulher aos gritos e engasgada com a perda da virgindade. Os anjos explodem em palavras bíblicas. O sémen na vulva divina tem a suavidade sedosa dos hermafroditas. Deus é agora a lâmpada íntima do prazer. Corpos suaves arrancam-se da fúria. Todo o desastre de amor é uma ruína interior. A minha mão conduz firme o cavalo varado pela mansidão da noite. As palavras sagradas cruzam-se dentro do meu delírio. Todas as casas engolem a vida, os sonhos e a memória. O tempo toma conta da narrativa. O tempo persegue as noites densas do álcool, separa os corpos da vida, embrulha a mágoa em mortalhas febris, proclama a eternidade do vício, grita a infâmia dos mortos, a coragem dos versos lapidados, o timbre curto de um raio de sol, o destino portátil dos limites. O tempo é o riso postiço de Deus e de todos os deuses e de toda a raiva divina e da revolta do sangue, por isso grita a razão da fantasia, a evidência dos teoremas, a vertigem das carícias, o deslize das duas estrelas que te alumiam os olhos. Sentimos a espera orbital dos planetas inseguros, negamos três vezes a verdade e a mentira, recompomos a natureza humana a partir da serpente e distribuímos segredos impessoais. As palavras mais pobres choram na sombra dos teus olhos. Subo de novo as escadas submersas da casa da minha aldeia. O rio enlouqueceu por entre as pedras da barragem. Amanhece. A sombra do arco-íris ainda é visível na minha pele. O relógio continua a marcar o tempo cada vez mais inútil. Acaricio novamente com as minhas mãos navegadoras a constelação tranquila do teu corpo. Grandes animais silenciosos tomam conta do vale. Um homem metamorfoseou-se em menino. O cavalo varado converteu-se em cavalo de bruma. E com ele chega o bom cheiro da madrugada. Tudo se torna por momentos mais claro. Rejubilemos


publicado por João Madureira às 07:00
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