Sexta-feira, 21 de Outubro de 2011

O Homem Sem Memória

 

85 – Nas noites quentes de Verão, o José, se não tivesse algum bailarico a que ir, acampava em casa do Fernando e só de lá saía a altas horas da noite. Gostava muito do Fernando, mas apreciava ainda mais as conversas cultas do seu ilustrado pai. Então se tivesse já um grão na asa, o senhor Carvalho convertia-se num autêntico guru.

Convém referir que o pai do Fernando era o mesmo senhor que sugeriu e emprestou, ao José, vários livros da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian em Montalegre. A verdade é que o senhor Carvalho não se lembrava do José, mas o José lembrava-se muito bem do senhor Carvalho.

O bom do senhor Carvalho continuava o mesmo: bonacheirão, amável e culto. Sobretudo gostava de partilhar. Partilhava a sua intrínseca bondade, o sorriso amplo e ligeiramente atrapalhado, a cultura e a solidariedade. Podemos dizer, sem fugir muito à verdade, que o senhor Carvalho era também bom amigo do guarda Ferreira. No entanto, com o pai do José não partilhava a sua admiração por Elio Vittorini e Mozart. Com o GNR limitava-se a beber muitos e bons copos de tinto nas distintas tabernas da cidade e a falar da vida, das coisas boas da vida como a amizade, a comida, a bebida, a luz do sol, o chilrear dos pássaros, o sorriso das crianças, da mulher, dos filhos, da sua banda de música, da sua infância e do seu trabalho, que considerava um dos melhores do mundo, do privilégio que era trabalhar rodeado daquilo que mais amava, os livros. E bebia. E sorria. E sorria e bebia. O guarda Ferreira também sorria, mas por ver sorrir o amigo. Sorria por imitação. Sorria por entre uma nuvem azulada de fumo, com o seu sorriso paciente. Pensando-o feliz, o senhor Carvalho, bebia mais um copo, comia mais uma sandes de vitela assada e galhofava mais um pouco.

O pai do Fernando tinha tendência para acompanhar o copo de vinho com uma bucha, já o pai do José limitava-se apenas a acompanhar a pinga com os cigarros. O senhor Carvalho tendia a falar e a beber muito. O guarda Ferreira limitava-se a beber, a fumar e a ficar calado que nem um rato. Por isso, o senhor Carvalho apreciava a sua companhia, considerava-o um excelente ouvinte. E disse-lho muitas vezes: “Ouvintes como o meu caro amigo já há poucos. Por isso venha de lá mais um copo e uma sandes de vitela assada. Tem a certeza de que não quer comer mesmo nada? Fazia-lhe bem. Ao vinho devemos fazer cama no estômago.” Mas o guarda Ferreira limitava-se a sorrir com o seu sorriso afetado, a deitar abaixo mais um copo de tinto e a fumar outro cigarro.

Então o senhor Carvalho voltava a olhar para o sorriso triste do pai do José e, solidariamente, tornava a falar-lhe do privilegiado trabalho de emprestador de livros, da perfeição da natureza, da formosura de uma mulher, da infinita lindeza do sorriso de uma criança, da pulcritude do nascer e do pôr-do-sol.

Sempre que o senhor Carvalho empregava termos como “pulcritude”, o guarda Ferreira esboçava um esgar como se todo o vinho bebido lhe tivesse azedado no estômago e puxava uma grande passa do cigarro. O senhor Carvalho, fazendo que não via, ou não vendo mesmo, o ar contristado do amigo, tentava focar-se na sua imagem esbatida atrás da nuvem de fumo, e ali, no meio da semi-obscuridade da taberna, fazia renascer o piar dos passarinhos, o som transparente da chuva a cair na terra seca, a gargalhada profunda do seu filho Abel, o mais novo, a doce melodia de um solo de clarinete, o rufar de uma caixa, o som cavo e ligeiramente roufenho de um trompete, os passos profundos de uma tuba, o som de palha verde de um saxofone, o timbre budista dos ferrinhos ou o estridente estampido dos pratos.

O guarda Ferreira, que não era invejoso nem ciumento, olhando e ouvindo o seu amigo bibliotecário, sentia subir por si acima uma raiva surda, pois não era sequer capaz de se entusiasmar com o bonito sorriso dos seus filhos. Sabia que não podia falar como o senhor Carvalho, que não podia solfejar como o senhor Carvalho, que não podia aspirar a trabalhar num emprego calmo e tranquilo como o trabalho do senhor Carvalho, que deixava tempo para as coisas boas da vida, que não podia aspirar a mandar os seus filhos estudar para a universidade como o senhor Carvalho, pois o seus filhos não eram tão inteligentes como os do senhor Carvalho, nem ele ganhava um ordenado como o do senhor Carvalho, nem o Estado dava apoios como a Gulbenkian do senhor Carvalho, nem podia satisfazer-se com o sabor de uma sandes de vitela assada como o senhor Carvalho, pois não era homem para fazer cama ao vinho, ele emborcava o vinho, não por prazer, mas por vício, ele fumava, não por prazer, mas por vício, ele fornicava a mulher, não por prazer, mas por vício e por obrigação, ele não multava os transgressores por prazer, como a maioria dos colegas, mas por dever, pelo vício do dever, ele não era feliz como o senhor Carvalho porque não o sabia ser.

Para o guarda Ferreira a vida era um sofrimento. Pensava que estar vivo era uma enorme canseira e nada tinha de bonito ou agradável. Para ele, os pássaros serviam para comer, o sol para aquecer, a chuva para regar os campos, os livros para ajudar a subir na vida e para aprender a mandar nos outros, a mulher para procriar, os filhos para chatear, a música para bailar, o vinho para emborrachar, a comida para nos manter vivos, os cigarros para chupar e a lei para cumprir e fazer cumprir.

Mas vendo o prazer que o seu amigo Carvalho tirava apenas da lembrança da gargalhada de um filho, da simples imagem de um pôr-do-sol, da sonoridade de um instrumento musical, do sabor de uma sandes de vitela assada, do som da chuva ou do simples sabor de um copo de vinho, a raiva subia-lhe direitinha ao cérebro, pedia desculpa pelo incómodo e lembrava ao amigo que estava na hora de ir para casa ter com os seus, dos quais sentia saudades.

O guarda Ferreira dizia isto, mas pensava coisa distinta, pois, como bem sabemos, evitava ir para casa cedo para não dar de caras com as trombas da Dona Rosa. Dali, por certo, rumaria a outra taberna onde seguramente encontraria outros amigos da pinga que bebiam este mundo e o outro simplesmente por desfastio, por vício. A felicidade, e a bonomia, do senhor Carvalho ofendia-o, deixava-o triste. Uma pessoa infeliz convive mal com a felicidade dos outros.

Mal deu um passo caras à porta da taberna, o guarda Ferreira sentiu-se bambolear como uma árvore mole ao vento. Sentou-se de imediato e ficou amarelinho como um peido. O senhor Carvalho sentou-se a seu lado e começou a falar-lhe da saudade. “Gostei de o ouvir dizer que está com saudade dos seus. Isso é bom de ouvir. A mim basta-me passar um dia fora dos meus e sobe-me logo ao coração a saudade. Sinto muita saudade do meu filho mais velho que anda lá por África a combater naquela guerra desalmada. Sabe, a saudade é um sentimento genuinamente português,  só conhecida em galego e português. Descreve a mistura dos sentimentos de perda, distância e amor. A palavra vem do latim "solitas, solitatis" (solidão), na forma arcaica de "soedade, soidade e suidade" e sob influência de "saúde" e "saudar".

O guarda Ferreira, olhando com olhos de dizer para o senhor Carvalho, proferiu estas rudes palavras: “O senhor Carvalho que me desculpe, mas eu quero que a saudade se foda e o chilrear dos passarinhos e o nascer e o pôr-do-sol e a música do clarinete e do saxofone e do… e do trompete e… O senhor Carvalho que me desculpe, mas eu quero que se foda tudo, não sei se me compreende. E a saudade também. Sobretudo a saudade. Que se foda a saudade e o som da tuba e o cantar dos pintassilgos e a saudade, sobretudo a saudade. Eu quero lá saber da saudade para alguma coisa.”  


publicado por João Madureira às 08:01
link do post | favorito
Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.


.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 14 seguidores

.pesquisar

 

.Abril 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9

19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Poema Infinito (453): A n...

. No Barroso

. No Barroso

. 438 - Pérolas e Diamantes...

. São Sebastião - Couto Dor...

. Na aldeia

. São Sebastião - Couto Dor...

. Poema Infinito (452): Hes...

. São Sebastião - Couto Dor...

. No Couto de Dornelas

. 437 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. No Barroso

. No Barroso

. Poema Infinito (451): Os ...

. No Barroso

. No Barroso

. 436 - Pérolas e Diamantes...

. Na Feira

. Na aldeia

. Olhares

. Poema Infinito (450): O d...

. Vaca atenciosa

. BB

. 435 - Pérolas e Diamantes...

. ST

. ST

. ST

. Poema Infinito (449): Inc...

. ST

. Na aldeia

. 434 - Pérolas e Diamantes...

. Na aldeia

. Mulheres

. Na aldeia

. Poema Infinito (448): O g...

. Na aldeia

. Na conversa

. 433 - Pérolas e Diamantes...

. No elevador do CCB

. Em Paris

. Em Paris

. Poema Infinito (447): Des...

. Em Paris

. Em Paris

. 432 - Pérolas e Diamantes...

. São Sebastião - Couto Dor...

. ST

. Perfil

. Poema Infinito (446): O p...

.arquivos

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar