Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011

O cansaço dos alfaites

 

Não dou por mal empregues todas as horas que caminho no parque Polis da cidade. O Tâmega tranquiliza-me, as poucas árvores fazem-me desejar que se plantem mais e o sol de fim de tarde sempre me fascinou. Os passeios são um bálsamo para os olhos, para os pulmões e para a corrente sanguínea.

 

Agora que a água está mais estagnada, costumo reparar nos alfaiates (e pensar que cheguei a acreditar que estes insectos de patas longas só deslizavam por cima de água límpida e corrente, quem me manda a mim ser tão crédulo) a correr de um lado para o outro e, por cima, reparo em vários enxames de mosquitos. Por vezes oiço um que outro estampido, que presumo serem peixes a saltar na água. Nas margens consigo avistar algumas rãs. Torrões de lama desprendem-se da margem e ouve-se um borbulhar por debaixo da água. Folhas secas, como memórias, movem-se lentamente à superfície. Quase sempre paro para ficar a olhar para elas. No espelho turvo do lençol de água, os ramos das árvores, e os pássaros que os ocupam, perdem a possibilidade de se refletirem.

 

Cada vez há mais pessoas que se deixam arrastar pela indiferença. Como se sofressem de um cansaço prolongado. Por isso tendemos a ver as coisas isoladamente. Fixamo-nos nos contornos, como se nada mais exista para além deles. Tudo vemos e ouvimos instantaneamente. Não há tempo para pensar. Ofendem-nos e nós, em troca, ofendemos. Todos os discursos são jogos de palavras. Tudo nos parece natural: a mentira e a verdade, a mentira como verdade, a manipulação como realidade. Deixamo-nos fascinar pelas minudências, pelos artefactos, pela hipocrisia dos indiferentes, pelo imobilismo. Estamos tão vazios como os quartos de uma casa abandonada.

 

Ouvimos falar em força. Na força das ideias, na força dos argumentos, na força da razão. Olhamos em volta e a força do argumento de quem nos dirige convenceu-nos que éramos especiais, e que eles, além de especiais, eram superiores. Eram os génios que iam fazer avançar o país, a autarquia, a sociedade. E se não fosse em marcha rápida, pelos menos iriam fazê-lo em andamento um pouco mais lento, mas, também por isso, mais seguro, rumo ao progresso. E isso era música para os nossos ouvidos. Mas eles estavam, e estão, longe da verdade. Apesar de plebeus, dão-se ares de uma certa nobreza que sempre foi alvo de algumas concessões. Lembram-me os aristocratas britânicos que até meados de século passado tinham autorização legal para mijar, se tivessem vontade, nas rodas traseiras das carruagens. Eles e os seus cães… de fila.

 

Noto que as pessoas nunca se observaram umas às outras com tanta hostilidade como nos dias de hoje. O povo gosta de opinar e de agitar bandeiras e de se manifestar. Mas quando se trata de defender os seus interesses é uma nulidade objetiva. Não exige, mendiga, deixa tudo nas mãos dos outros. Com o desempenho político do governo, e da autarquia, acho que descobri o que torna idêntica a expressão dos portugueses: é o equívoco. Sentimos que fomos iludidos. Fizeram demasiado ruído em volta das propostas concretas. Resta-lhes a insustentável leveza da vacuidade.

 

Eu sei, todos sabemos, que quando alguém se vê cercado por rostos calorosos nas campanhas eleitorais, muitas das nossas dúvidas e objeções tendem a desaparecer. Mas agora também sabemos que quase todas as mentiras e hipocrisias são assim. A verdade política é momentânea. Isso é notório no olhar dos atuais dirigentes, neles não há um pingo de razão. Sentimos que erramos. Só não sei se há tempo para voltarmos a errar.

 

Não consigo suportar a ganância, a inveja, a gorda satisfação da vanglória, os ódios e destruições, a falsidade, os rancores. A minha capacidade de tolerância está cada vez mais baixa. Por isso sinto que se torna necessário escolher para nos dirigir alguém com capacidade para olhar os nossos problemas com mais clareza, que não se rodeie de indefinições, arranjismos, que se liberte, e nos liberte, de oportunistas, medíocres, conspiradores e judas, sempre prontos a vender o líder por trinta dinheiros. Além disso, também devemos evitar deixar-nos comover por aqueles que derramam lágrimas como os pinheiros largam resina.

 

Dizem os historiadores que nos tempos da rainha Isabel, os barbeiros tinham alaúdes e guitarras na barbearia para que os cavalheiros que estivessem à espera pudessem cantar e tocar. É que demorava muito tempo a arranjar as barbas e os caracóis que se usavam na época. É tempo de ganhar tempo e conseguir que as instituições públicas despachem o serviço de forma célere e competente. É que o povo não sabe tocar guitarra, só bombo e ferrinhos.

 

Relativamente ao poder autárquico, penso que a maioria dos vereadores considera que ficar sentado é poder. Os reis ficavam de traseiro sentado no trono, enquanto os plebeus permaneciam de pé. Pascal disse que as pessoas se metem em sarilhos porque não conseguem ficar quietas no quarto delas. É bem possível que o vice-presidente da Câmara nos venha dizer que roguemos a Deus para nos ensinar a ficarmos quedos como penedos. E esperar para votar nele. Mas essa é uma aposta numa raspadinha que quase nunca sai e quando o bilhete vem premiado o valor pecuniário é anedótico.

 

Quanto ao actual presidente da autarquia, é possível que conheça bem aquele quadro de Henri Rousseau (A Cigana Adormecida) onde a viajante cigana árabe adormece ao lado do bandolim enquanto um leão olha para ela. Somos todos levados a pensar que o leão respeita o repouso da mulher, que a imobilidade da cigana controla o leão. Mas, a ser assim, isso é magia. E a magia é sempre um truque bem exercitado.

 

É muito provável que o atual poder autárquico tenha adormecido por cansaço. Mas isso não nos pode levar a pensar que basta acordá-lo para que faça aquilo que não foi capaz de fazer até ao momento. O seu tempo de validade foi já foi ultrapassado. Por isso temos de atuar como nos aconselham os bons hábitos. Aproxima-se a hora da sua substituição. É a lei natural da vida. Todos os ciclos têm o seu fim útil. E este não é exceção. Fazemos votos para que não o tornem inútil. Há que renovar a esperança. Há que mudar de vida. Há que encontrar novos protagonistas. Há que construir uma alternativa válida e coerente. E a tão árdua tarefa não admite exclusões. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 14 seguidores

.pesquisar

 

.Abril 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9


27

28
29
30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. No Barroso

. Poema Infinito (454): O f...

. No Barroso

. No Barroso

. 439 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. ...

. No Barroso

. Poema Infinito (453): A n...

. No Barroso

. No Barroso

. 438 - Pérolas e Diamantes...

. São Sebastião - Couto Dor...

. Na aldeia

. São Sebastião - Couto Dor...

. Poema Infinito (452): Hes...

. São Sebastião - Couto Dor...

. No Couto de Dornelas

. 437 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. No Barroso

. No Barroso

. Poema Infinito (451): Os ...

. No Barroso

. No Barroso

. 436 - Pérolas e Diamantes...

. Na Feira

. Na aldeia

. Olhares

. Poema Infinito (450): O d...

. Vaca atenciosa

. BB

. 435 - Pérolas e Diamantes...

. ST

. ST

. ST

. Poema Infinito (449): Inc...

. ST

. Na aldeia

. 434 - Pérolas e Diamantes...

. Na aldeia

. Mulheres

. Na aldeia

. Poema Infinito (448): O g...

. Na aldeia

. Na conversa

. 433 - Pérolas e Diamantes...

. No elevador do CCB

. Em Paris

. Em Paris

.arquivos

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar