Quarta-feira, 26 de Outubro de 2011

O Poema Infinito (71): várias formas de enlouquecer

 

Dizes: és o interior da tua própria existência. Ninguém ama tão desalmadamente como o poeta. Talvez seja necessário mudar a estranha arquitetura da palavra amor e da palavra prazer. Acendo a minha boca na tua boca e aí está a poesia toda. Espalhamos fogo. Gosto da tua fantasia minuciosa, da tua oblíqua inovação, da solidão doce do teu amor. Tu és a minha árvore desenvolvida que se exprime com a brevidade da vida. Uma voz pura adjetiva a subtileza das formas. Alguém fabrica aves que voam por entre as labaredas de azul. O lado dos campos abre-se para as estrelas. O teu olhar levita preciosamente enquanto eu enlouqueço na doce selvajaria do teu corpo. Meto o teu nome na minha intimidade. Daí recomeça o enorme talento de existires. Recupero agora as colinas do mundo. O desejo acelera a velocidade das coisas. Colinas abanadas pelo silêncio mergulham no lado obscuro do dia. Procuro desesperadamente ser simples sem o ser. Os campos abandonados rodopiam em volta do ar puro. É preciso principiar. O amor acumula-se, as coisas respiram, o prazer torna-se inexplicável. Há várias formas de enlouquecer. Os campos são agora espelhos. Os espelhos são agora imagens esmigalhadas. Nuvens altas gritam aprisionadas no reflexo do rio. Sinos dementes explicam a morte. A água rega o amarelo das flores dos lameiros. É tarde. Toda a atenção da água canta a vontade de viver. Pego nas tuas mãos e falo-te da estranha imagem do universo, da dureza lenta da solidão, das palavras que amam devagar os amigos, do talento doloroso da eternidade, do silêncio profundo da paixão. Devagar, a cor da vida infiltra-se na densa angústia da ilusão. Um deus antigo esboça o hermético movimento do mundo. O tempo triunfante aproxima-se cada dia mais da minha idade. É essa a sua abstrata violência. É essa a minha solidão. Volto a ser o animal adormecido da minha infância. Sinto-me um homem solitário entre palavras. Na minha cabeça toda a aldeia canta um hino de pureza. Um hino de pureza quase louca. Tento despedir-me do esquecimento. Entretanto tocas-me com o teu livre delírio. As portas das casas ganharam raízes. As teias balançam na manhã roçando o hálito das pedras. As cinzas impõem o nosso inexorável desaparecimento. Respiro a tua ardente e delicada transformação. Há sempre no olhar dos amantes uma ilusão abismada, como um sono debaixo do fogo. A perenidade dos humanos ajuda ao exercício da sua beleza. Daí a velocidade da terra. Daí as janelas iluminadas. Crianças longas festejam a distância louca das estrelas. Vagarosas crianças iluminam a noite com giestas de fogo. Apagaram-se as luzes. As palavras atrapalham-se no meu braço que arde. No meio da fogueira há uma eternidade de mãos. As coisas mínimas ressuscitam indefinidamente. Tu és a minha poesia, o meu perdão, o meu esquecimento, a minha inocência premeditada. 


publicado por João Madureira às 07:00
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1 comentário:
De Euridice a 27 de Outubro de 2011 às 12:58
Fui-me apaixonando por este poema e volto a ele, como quem promete que será a última vez.
Revisito-o e sinto que me inunda com palavras novas, escondidas nos escombros das outras. Tento desenterra-las com os olhos, com os meus dedos e com os que estão para além de mim. "É essa a sua abstrata violência."
Como bem dizes "As coisas mínimas ressuscitam indefinidamente."


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