Quarta-feira, 2 de Novembro de 2011

O Poema Infinito (72): a densidade do eterno abandono

 

Diante de mim a terra abre-se à subtileza das geadas. Regresso sempre à casa abandonada que na minha memória tem sempre pessoas dentro a sorrir. Agora o seu interior é húmido. Nela flutuam aromas e a presença ténue de corpos que são apenas sombras. O fogo da lareira origina um novo princípio. Olho o círculo das chamas como se deles pudesse nascer a luz dos dias que estão para vir. Os animais esperam pela noite e entre si segredam a forma secreta da geometria das constelações. As aves soltam-se. O rio adormece. Escuto o silêncio sibilante dos astros. Os insetos refugiam-se na voz mágica das árvores. Sinto de novo o fresco amanhecer das galáxias. A minha aldeia vive debaixo da minha pele de cobra. Já não há utensílios agrícolas para talhar a sua geometria de sons. Os bosques foram comidos pelo fogo uma e outra vez. E ainda outra, como uma maldição. As lentas chaminés deixaram de ter rostos de fumo. As pedras das paredes morreram definitivamente. Lembro-me de recolher a neve com as conchas das mãos. Agora a rua está repleta de buracos inúteis. A solidão é como uma bebedeira permanente. Por isso, todas as manhãs morrem dentro da minha boca. A saudade é cada vez mais uma demorada insónia. Os montes cospem flores selvagens. O esquecimento provoca-me sono. Sou agora escrito dentro de uma outra idade. A terra sobe por mim como um murmúrio. Uma estrela ilumina a tua cara de anjo bom. Vozes de urze sobem-me à garganta. O escuro lamento das águas varre o passo rápido das crianças que desapareceram para sempre. Os ventos varrem os montes e as ruas desertas. As cobras dormem nos seus buracos. As aves morrem enfurecidas pelo desassossego. Os láparos gelam de medo. Quase tudo em mim secou. A solidão tem destes dias cruéis. Saio para a rua. As pedras iluminam-me o caminho. As portas invadem as casas. Árvores inclinadas tocam-me com o seu silêncio. Toda a aldeia é um lugar de cinza. A noite atravessa-me com o seu corpo de flor de plástico em pânico. Escrevo para imitar a paisagem. Os animais adormecidos lembram sóis oblíquos. A memória escorre pela madrugada como um cão abandonado. Noto a ausência do teu corpo como se fosse um ferimento. Fico de vigília aos gestos da madrugada. Oiço ao longe um grito duro. Uma lágrima grossa desce pela minha face enrugada. O teu corpo define o meu tempo. Ainda não sei se vou conseguir fugir definitivamente desta casa. Ainda não sei. Apenas sei que diante de mim a terra se abre de novo à subtileza das geadas.


publicado por João Madureira às 07:00
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2 comentários:
De Euridice a 4 de Novembro de 2011 às 17:09
O texto é pontuado por frases fortes e gélidas.
"As aves morrem enfurecidas pelo desassossego. Os láparos gelam de medo. Quase tudo em mim secou." Sinto o latejar da dúvida final, resumida a uma ínfima certeza: "Apenas sei que diante de mim a terra se abre de novo à subtileza das geadas." e pergunto-me: até à eternidade ou foi apenas mais um inverno?


De João Madureira a 5 de Novembro de 2011 às 09:55
Cara amiga, mais uma vez me detive no seu comentário e senti que escrever ainda vai valendo a pena. Obrigado e um beijo.


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