Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011

O Poema Infinito (74): as disseminações e o jovem poeta jovem

 

disseminada pelos livros está a nossa vida e o ato de escrever enquanto a casa zumbe na noite à procura de mais um jovem poeta jovem que não se canse de decorar o traço fino das frases certas que choram muito depressa como se fossem igrejas sitiadas pelo acaso da vida enquanto tu dormes deitada sobre o livro do riso e do esquecimento coberta por lençóis gráficos que se incendeiam e gritam com saudades dos corpos delirantes como se o silêncio fervesse na ausência das crianças e na presença dos seus pais e enlouquecesse pensando de novo no jovem poeta jovem que foge dorido pela idade que há de ter e depois a minha memória levita infestada por brinquedos escondidos no choro diáfano do jovem poeta jovem que relê os ombros de pedra dos anjos que antes do pecado original arderam de sexo e luxúria como se fossem chuva divina antes de existir céu e inferno enquanto a bruma do tempo ergue a esquizofrenia das abelhas obreiras e das formigas rabigas e então as paredes dos templos estalam e os homens e as mulheres e os outros dormem sobre o vidro velho das esfinges e gravitam em redor dos corpos e da jovem loucura do jovem poeta jovem que agora sente saudades das saudades que há de sentir e os seus lábios secam devido aos sons produzidos pelo cornetim que apregoa a alvorada e então o jovem poeta jovem pronuncia frases trémulas que fazem arder o meu sonho que é uma saudade livre de saudade e então dizes que tenho de pôr as minhas mãos trémulas na noite e puxar pela noite e exteriorizar a noite sonhada pelo jovem poeta jovem que come a minha noite intranquila e se abriga nas casas solitárias das ruas decompostas pelo progresso e ainda mal acordado o jovem poeta jovem escreve um poema onde fala do comércio das almas praticado por deus e pelo demónio e no valor do seu peso específico na bolsa de valores de wall street enquanto os santos e os seus congéneres do mal empacotam as almas mais refinadas em papel de embrulho com estampas do vaticano e com cordéis de prata fina e depois o jovem poeta jovem desaparece do meu sonho dilatado pela ilusão mínima e pela angústia máxima e pela insistência abruta dos biólogos das almas que professam todas as religiões monoteístas que veneram os deuses e as suas alcunhas e os seus conceitos uniformes e entretanto o jovem poeta jovem revisitado descobre que as almas embrulhadas não toleram música espessa nem pianos elétricos nem peixes ofendidos pelos sermões de santo antónio nem as intrincadas partituras da bíblia  e da tora e do alcorão nem do manifesto comunista e agora a alma de chet baker toca no trompete de miles davis the touch of your lips para o jovem poeta jovem num solo semilouco provocando uma súbita transfusão de almas na esquisita alma de uma testemunha de jeová que constrói nuvens de outras almas empenhadas em construir a eterna fluidez das flores murchas que se debruçam sobre o crepúsculo do meu corpo que sonha com o jovem poeta jovem que sou eu debruçado sobre a varanda da fábrica dos construtores de almas silenciosas vendo e ouvindo peixes perplexos por viverem na imensidão do mar sem disso se darem conta e o jovem poeta jovem nada no meio deles enquanto ativa certas palavras que se metamorfoseiam em girinos que mais tarde darão origem a anjos e demónios embrulhadores de almas alegoricamente perpétuas como perpétuas são as lágrimas do velho e o mar e do seu autor que também foi amigo do jovem poeta jovem quando ele não era jovem nem poeta nem tinha saudades das almas que agora transportam os astros e os homens e as mulheres e os outros que chupam palavras que chupam sílabas que chupam letras e que as mastigam e com elas fazem bolas como se fossem pastilhas elásticas que perfumam o mau hálito e dão sossego aos néscios que gostam de se sentar na sintaxe e decorar as mesas com lindos paninhos de renda rendados pelas suas mães que choram o triste tricotar das palavras do jovem poeta jovem que delas sente toda a saudade do mundo


publicado por João Madureira às 07:00
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1 comentário:
De Euridice a 16 de Novembro de 2011 às 15:31
Tão infinito este fôlego que segura as palavras todas de uma vez e as derrama na voz desta deliciosa prosa.

Arrancamos palavras do peito para nos expressarmos, mas como dizia outro dia um comentador deste blogue tudo o que é visível são letras (ou tretas).

"... desaparece do meu sonho dilatado pela ilusão mínima e pela angústia máxima e pela insistência abruta dos biólogos das almas ". Tantos sonhos morrem na autópsia. Alguns não estarão cá amanhã...


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