Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011

O Homem Sem Memória

 

89 – Se quando o José principiou as férias ainda guardava dentro de si alguma réstia de fé, durante as férias de Verão perdeu o que dela restava. Entendamo-nos, não foi bem ele que perdeu a fé, foi mais a fé que o perdeu a ele. A fé já não é o que era, diluiu-se na imensidão dos livros, na vastidão da música, na necessidade instintivamente animal de possuir fêmea.

Sempre lhe tinha custado regressar ao seminário, mas desta vez o esforço foi imenso.

Já não era só uma questão de fé, era sobretudo o ambiente, a rotina, as palavras vazias de sentido, Deus vazio de sentimento, os evangelhos vazios de racionalidade, a liturgia estéril e vazia de objetivo. E, como se ainda fosse pouco, existia a monotonia dos espaços, das vozes, das relações.

José definhava a cada dia que passava. Passou a enfrentar tudo e todos. Começou a dar nas vistas pelos piores motivos: o desleixo e a provocação.

Principiou por contestar a infalibilidade de Deus e da sua Igreja, a comentar a mentira dos Evangelhos, a depreciar a propagandeada pobreza cristã, a criticar o celibato dos padres e todos os dogmas da fé católica: a virgindade da Virgem, a imortalidade do seu Filho, a vida eterna, a omnisciência e a omnipotência do Pai, que ele, qual profeta inconformado, definia como omninconsciência e omnimpotência. Defendia que a religião não devia pregar a obediência mas antes o contrário. Para ele, Cristo foi um revolucionário consequente, que combateu o Império Romano, que lutou pela igualdade e pela tolerância e vergastou os usurários e os vendilhões do templo e os falsos líderes do seu próprio povo.

Dizia, e escrevia, que a Igreja que Pedro fundou serviu apenas para instituir na terra o poder de uns quantos fanáticos religiosos que se limitaram a ser como todos os outros déspotas: criminosos de guerra, ladrões, sodomitas e difusores de mentiras piedosas. Toda a história da Igreja se baseia na falsidade, na opressão, na perseguição, no terror, na mentira. Dizia, com voz de visionário, que a Igreja era a instituição, não de Cristo, como apregoava, mas do Anti-Cristo, como o provam as chacinas praticadas pelos seus membros em nome de um Deus infalível e cruel.

Disfarçado de franciscano, com umas sandálias de pano e couro cru, enfiado num saco de serapilheira, utilizado para armazenar batatas barrosãs, em forma de túnica, de barba e cabelo comprido e esquelético como um cão, ostentando um bordão encimado por uma cruz de pau talhada à navalha, fazia retiros espirituais nas celas frias, alimentava-se de frutos silvestres, migalhas e água da chuva. Rezava como um fanático e escrevia como um herege, autênticas blasfémias impiedosas.

Em noites de maior delírio, visitava os seus colegas nas camaratas e enchia-os de filhos do demónio, mentirosos compulsivos, netos de belzebu, bisnetos do mafarrico, sodomitas, papa-hóstias e devassos. Muitos deles desculpavam-no porque viam nele um homem possuído pela necessidade de uma verdade perfeita. Outros prometiam entre dentes esmagá-lo aos pés, mas ninguém tinha a coragem necessária para bater num monte de ossos atormentado pela fome, pela sede e pela verdade absoluta. Ninguém bate num espírito. Mesmo que ele seja um provocador nefando.

De longe veio um padre exorcista para lhe arrancar o demónio do corpo. Por mor das dúvidas, ninguém lhe disse nada. Apresentaram-lho como um padre versado em teologia, um crânio ao serviço de Deus e da Madre Igreja a quem o José devia expor todas as suas dúvidas e incertezas. As certezas que as guardasse para o Mafarrico. Ele assim fez.

O exorcista, que também era um homem versado em psicologia, filosofia e história, depois de ouvir o José concluiu que tanta dúvida em Deus e tanta certeza nas heresias anunciadas pelo Tinhoso, só podiam ser obra do Arcanjo do Mal. E foi-se a ele com as suas vestes de exorcista.

Antes da terapia de choque eclesiástico, tentaram alimentá-lo convenientemente, mas o José vomitou tudo; tentaram vesti-lo condignamente, mas ele rasgou a roupa com as unhas e com os dentes; tentaram barbeá-lo e cortar-lhe o cabelo, mas ele mordeu-os como se fosse um cão raivoso. Deram-lhe banhos de água fria seguidos de banhos de água quente para o tornarem razoável. Celebraram missas em seu nome, tornaram a baptizá-lo, e ele sempre a teimar na sua litania.

Levaram-no a um médico especialista em doenças do foro psicológico e o seu prognóstico foi de que o José estava razoavelmente bem da sua saúde mental. Quanto ao resto, ele não se metia em discussões teológicas. À ciência o que é da ciência, a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. No entanto sugeriu que lhe levassem fêmea. O reitor do Seminário negou-se a autorizar tal ato. Disse que todos eles, tanto quanto sabia, sofriam da mesma privação e não insultavam Deus, a sua Igreja nem se transformavam em cães raivosos. Cada um tem de aguentar a sua cruz. Tem de se saber privar dos prazeres terrenos para ganhar o céu. O médico ainda argumentou que deviam entender a sua sugestão como uma prescrição médica. Deus e a sua Igreja, tanto quanto ele sabia, não proibiam os seus fiéis de se tratarem, de acederem aos tratamentos médicos para melhorarem a sua saúde. O senhor reitor contra-argumentou que a terapia do sexo não é propriamente um medicamento. Além disso, se permitisse desta vez a exceção, é bem possível que o seu seminário se transformasse num antro de possuídos. Por isso não podia abrir essa caixa de Pandora. Além disso, à Madre Igreja, tal como à mulher de César, não lhe basta ser séria, tem de parecê-lo.

Mas as estruturas têm sempre as suas boas almas de serviço. E foram elas quem, à socapa, introduziram na cela do José uma prostituta e vários cobertores para a pobre mulher não morrer de frio. O José, que podia estar um pouco desequilibrado pela busca da razão teológica, mas não tinha bebido o juízo, fez o que tinha a fazer com um desempenho muito para além do expectável em tais condições.

Mas a toleima não o largou. Foi então quando avançou o exorcista como a derradeira arma de combate a Belzebu. E somos testemunhas de que o sacerdote se preparou convenientemente para a sua função de expulsar os demónios por meio de orações instituídas pela Igreja. O esconjurador vestiu a sua sobrepeliz e a estola roxa e iniciou a série de orações, declarações e apelos O padre pediu encarecidamente a Deus para livrar o José do demónio através da "fórmula da súplica": "Deus, cuja natureza é sempre de misericórdia e perdão, aceita esta nossa oração para que este vosso criado, amarrado pelos grilhões do pecado, possa ser perdoado por vossa amorosa benevolência". Depois esperou um bocado. O José apenas se ria. Por isso, o padre tentou agora a "fórmula imperativa": “Em nome de Deus, exijo-te, demónio, que abandones o corpo do paciente. Sai ímpio, sai, amaldiçoado sejas, sai, ordeno-te, com todos os teus enganos, pois Deus sempre quis que o homem fosse o Seu templo".

Enquanto ia recitando, o padre borrifou de água benta todos os cantos da cela, colocou as suas mãos no paciente, fez o sinal da cruz tanto em si como no José, e tocou-o com uma relíquia católica, um objeto associado ao santo Agostinho.

Mas a verdade é que o José não sofria nem de desordens psicológicas, nomeadamente da síndrome de Tourette, que causa movimentos involuntários e explosões vocais; não era epilético, por isso não entrou em convulsões; nem era esquizofrénico e por isso não teve alucinações auditivas e visuais, nem paranóia, ou sequer ilusões.

Como mais tarde averiguámos, questões psicológicas como auto-estima e narcisismo podem fazer com que uma pessoa aja como uma "pessoa possuída" para chamar atenção. E foi esse o caso.

Já no final, vendo que o exorcista crescia para ele, depois de o ver constantemente a rir, pegou no seu bordão e espetou-lhe umas bordadas em nome da verdade e sentenciou: “Tu é que és o verdadeiro demónio. Vai e não voltes.”


publicado por João Madureira às 07:00
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