Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011

O Poema Infinito (76): o regresso a casa

 

Por mais que procures não descobrirás a fluência dos ventres maternos nem a poesia dos versos límpidos. Encontrarás, sim, as palavras escritas na angústia das pedras e na vertigem das portas. Por isso as minhas lágrimas possuem o sal estranho do desespero. Por isso os meus ouvidos entendem o som das aves frias que se arrepiam junto às sombras das casas que se alongam pelas pedras da eira. O sol é agora uma lentidão silenciosa. As palavras caem ao chão de forma muda enquanto as minhas mãos gesticulam como chamas. Numa esquina porosa o vento acende o verde das ervas e os insetos brilham como pérolas mortas. Talvez os meus olhos, sem o saber, repousem no espaço das folhas liquidadas que alimentam a terra, talvez o esplendor da morte se imponha no vazio das páginas que caminham nas linhas de sombra. Talvez. Talvez por isso os animais dancem na sua quase imobilidade mesmo à beira do turbilhão das árvores. Sinto como minha esta aparente liberdade do caos. A arca do pão guarda agora um vazio enorme de vocábulos. Antigamente guardou o desejo de tudo enquanto lá fora o conjunto impossível da felicidade e do desespero principiava a arder, enquanto a terra, o sol e a água se uniam no hábito de tentar a vida por qualquer meio. O ato de ser tendia a transformar-se num murmúrio proferido por lábios que se alimentavam da caligrafia da terra, quando os arados escreviam o pão-nosso de cada dia. Nesse tempo a vida era um lugar neutro repleto de apelos e as casas eram lugares nus e a pobreza era um princípio de vida e tudo se fazia e dizia através de sinais. Por isso aqui estou eu à beira da origem onde nada começa nem acaba, onde tudo é sede e desejo e angústia. Enquanto a planície se incendeia de aspetos sinto a plenitude de um delírio branco, sinto a dissidência originária onde a minha boca se move entre sequências vivas de palavras de terra e fogo. Os sinais passam rápidos demais para que eu os entenda. Desço a rua deserta por entre indícios de tempo e as casas inclinam-se entre os cones de luz onde perpassam sombras nulas. As palavras então ditas transformaram-se em pó e as páginas em branco dos cadernos converteram-se em caminhos que já não vão dar a lado nenhum. Tudo o que por aqui existe tem cada vez mais um nome breve, tem a forma de uma língua espessa e pesada pela carga dos silêncios e desvalida pelo ardor das feridas negras. Todos os homens e mulheres deste povo morreram discretamente apagados pelas luzes da cidade. Diluíram-se num tempo escuro e invisível. Em nome do seu sofrimento, das suas vidas sacrificadas, dos seus sonhos desesperados, das suas colheitas desfeitas, dos seus nomes de criança, da sua paz ruidosamente silenciosa, rezo-lhes pela alma para que a sua viagem através das nebulosas seja o seu regresso a casa. 


publicado por João Madureira às 07:00
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