Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011

O Homem Sem Memória - 91

 

91 – O José começou a fumar e a beber. Passou diretamente do seminário para a taberna sem passar pela situação de empregado, que é o mal maior. Sem dinheiro e sem responsabilidade, a boémia torna-se ainda mais degradante.


A princípio, a mãe ainda lhe deu algum dinheiro para o dia-a-dia, ensaiando amimá-lo na tentativa, que nós sabemos vã, de o convencer a voltar ao seminário. Quando lhe passava a nota de cem escudos para a mão dizia-lhe sempre que não havia vida melhor do que a de padre, que o dinheiro não nasce nas árvores e que uma vida dedicada a Deus e à sua Igreja é uma vida venturosa.


Ele respondia-lhe sempre torto, que o seminário é uma tortura, que os padres são uns falsos e uns devassos que tanto defendem Deus como o Diabo, que são os profetas do nada, os homens das palavras ocas, e que a existir inferno é lá onde quase todos vão parar com viagem reservada em avião supersónico. E concluía: “Além disso não me querem lá. Eu tratei-os muito mal. Por isso me expulsaram. Nem eles me querem lá, nem eu quero ir para lá. Desiluda-se. Está decidido.”


Mas a Dona Rosa não o levava a sério: “Essa raiva passa-te. Tu falaste na minha barriga. Isso é um sinal divino. És um predestinado. Deus seleccionou-te ainda estavas cá dentro. O que tem de ser tem muita força. E tu tens de ser padre. E logo bispo.”


Mas o filho primogénito do guarda Ferreira, sentindo dinheiro no bolso, ia logo direitinho para a taberna conviver com o lumpen. Era como uma maldição. Nesse sentido, o José era um homem profundamente religioso, um visionário que acreditava piamente que conviver com os mais desfavorecidos, conversar com eles e redimi-los, era o caminho que devia percorrer para também ele se salvar.


Era nos pobres de espírito onde estava a salvação. E quanto mais pobres mais redentores. Entre bolo de bacalhau, copo de vinho e cigarro, José dirigia-se àquela gente carente de tudo (e também de consciência política, rapazes e homens desligados da produção social, muitos deles dedicados a actividades marginais, roubando o que podiam e até prostituindo filhas, mulheres e irmãs), e tentava organizar um discurso coerente que os levasse a ganhar consciência da sua condição enquanto seres humanos, de tentar incutir-lhes princípios sociais, morais, éticos e, à falta de melhor recurso, também religiosos.


Mas eles eram como macacos: ouviam-no tagarelar e riam-se muito. A maior parte das palavras não as entendiam e a outra tornava-se inaudível no meio da chalaça, dos impropérios e da pura agressão verbal. Mas o José não desistia, pegava noutro bolo de bacalhau, pedia renovada rodada de tinto, acendia novo cigarro e dizia-lhes que se deviam lavar, que deviam arranjar um emprego estável, que deviam mandar os filhos à escola, “e as filhas?”, perguntavam-lhes alguns a rir, “e as filhas também”, respondia ele, “para quê?”, perguntavam-lhe de novo e respondiam de imediato, “para conseguirem emprego nalguma casa de um burguês para servirem de concubinas dos patrões e de putas dos filhos e dos criados a troco da comida e da bebida? Se querem carne boa têm de pagá-la a bom preço. As nossas mulheres, apesar de pobres, têm a greta igual às mulheres deles, ou até melhor. Por isso há que aproveitar enquanto estão sadias e pô-las a render.” E riam-se muito. Afinal não lhes restava alternativa. A pobreza extrema transforma os homens em animais.


Muitos deles confessavam que eram os próprios a violar as filhas e só depois é que as punham a render. E exprimiam evidências: que os ricos da cidade, apregoando bons princípios católicos, eram os primeiros a arranjar mulher e amante, ou amantes, que davam trato de polé às esposas enquanto tratavam as concubinas como princesas, que alugavam as mulheres da má vida para fazerem coisas porcas, em grupo, que esses senhores, muitas vezes nem as mulheres queriam, mas sim homens viris e devassos, loucos, que a troco de bom dinheiro abonavam ricos burgueses que, fazendo-se passar por homens na sociedade, se comportavam como mulheres débeis e permissivas, como raparigas perversas, como autênticos pecadores.


“Depois de nos explorarem, espezinharem, perverterem e comprarem a nossa carne, aproveitam-se da nossa pobreza para nos roubarem a alma. Nutrem-se com os nossos corpos e em troca dão-nos uma esmola. São uns filhos da puta.”


“Tu, ó padreca, achas que pode existir assim um Deus tão cruel que vê tudo isto e cruza os braços?”


Depois os homens do lumpen riam-se como se chorassem e bebiam copo atrás de copo até caírem para o lado. Alguns deles pediam-lhe encarecidamente que os confessasse. Ele, a princípio, recusou mas depois entrou no jogo. Que mal vinha ao mundo se ouvisse os pecados desta pobre gente. Tanta maldade não tinha perdão, mesmo que existisse Deus e fosse tão tolerante como o pintam. No entanto, ouvia-os e arrepiava-se com a verdade.


Viver com o lumpen transformou-o num marginal. Era difícil conviver com eles, beber com eles e ser-lhes indiferente. Toda a amizade requer uma certa intimidade e, sobretudo, cumplicidade. Por isso foi roubar na sua companhia e, em muitos casos, chegou mesmo a ir dormir nos seus pobres barracos.


Ajudava-os no que podia, prestava alguma informação médica, dava-lhes algum conforto espiritual, contava-lhes histórias bíblicas, ajudava uns a tratarem da horta, outros a pescar no rio e ainda outros no contrabando. Comprometeu-se a dar conselhos de higiene corporal às mulheres que se prostituíam e aos rapazes que também seguiam esse caminho.


Vivendo com eles, tornou-se promíscuo como eles. Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. Chegou a dormir com várias mulheres dos seus novos amigos e com as suas filhas também. A princípio custou-lhe, mas depois foi-se habituando. E por fim já não destrinçava muito bem o que fazia. Andava constantemente bêbado. Bebia para não ressacar e para esquecer.


Várias vezes a sua mãe, em pranto, o foi procurar no meio dos barracos do bairro, mas nunca o chegou a encontrar. Se ele não queria ser encontrado, o seu povo adotivo fazia-lhe a vontade. Escondia-o. 


publicado por João Madureira às 07:00
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