Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

A chantagem e os chantagistas

 

Entendamo-nos: a acreditar em algo, eu acredito na literatura, na música, na arte. Por isso não acredito na burrice e abomino lugares comuns. Sobretudo acredito nas coisas que possuem a capacidade de me comover. Reconheço que são poucas, mas, talvez até por isso, são fundamentais na minha vida.

 

Também aprecio o futebol, os bares modernos e os delírios dos políticos. Por vezes a verbosidade destes últimos é tocante, surrealista mesmo. Veem com olhos esbugalhados uma realidade que, de tão comezinha, chega a ser cómica. Penso que a realidade dos políticos é um jogo de espelhos. Não é a política, são eles mesmos. Não é a realidade que conta, mas eles mesmos. Espelho meu quem é mais político do que eu?

 

Entrementes, quando vão às festas, que é para o que servem, lançam os foguetes e apanham as canas. Descortinam numa tenda de venda de produtos regionais um alfobre de qualidades, um chuveiro de potencialidades, um aspersor de oportunidades. Gasta-se tanto dinheiro público na promoção destes certames que os feirantes que aí comerciam os seus produtos bem podiam fazê-lo a preço de saldo em vez de vendê-los, muitas das vezes, a preços exorbitantes. Até porque o consumidor já pagou aquilo tudo com a folha de impostos que lhe é imposta.

 

Depois relatam-nos acontecimentos públicos pífios e serôdios onde só têm olhos, e palavras, para doutores e engenheiros. Babam-se a pronunciar os títulos académicos como se eles valessem mais do que o carácter e a verdade. E deliram com as palavras ocas dos oportunistas de ocasião que vêm à província fazer de nós parvos. São os atores do costume, os astutos habituais que vão encher os bolsos para a capital e depois nos visitam unicamente nas épocas festivas e olham para nós como se fôssemos os verdadeiros índios em extinção que eles viram na sua juventude nos filmes americanos. Não sabendo que também eles, ou sobretudo eles, fazem parte desse jogo de espelhos.

 

Qualquer feira da cebola, qualquer mercado da jeropiga, qualquer iniciativa de venda de alhos, couve troncha, cebolas, nabos, pão e chouriças, qualquer evento de venda de pedras de granito ou de copos com nomes gravados, são pretextos para dizer tontarias, elogiar instituições e tecer elogios a personalidades que, num país culto e civilizado, não passariam de amanuenses, secretários ou coladores de selos. Muitos deles são presidentes disto e daquilo. Outros são executivos, governantes ou diretores de bancos e empresas do Estado ou coisas pelo estilo.

 

Li um artigo de alguém eleito pelo nosso distrito para o parlamento que apenas teve olhos para tecer panegíricos aos eventos concelhios onde os seus correligionários estão no poder. Aí até uma corrida de carrinhos de rolamentos lhe parece um grande prémio de fórmula um. Somos um país pequeno, de gente pequena, mas de políticos liliputianos, vesgos e autistas.

 

 

Os partidos são hoje uma família que todos tenderíamos a apoiar, e muitas vezes apoiamos, ou apoiávamos, com muita paixão, porque as famílias de onde vimos são boas. Mas essa tertúlia de prevaricadores quando ouve falar em família pensa logo na semântica italiana.

 

Tanto sectarismo provoca-me urticária, tanta saloiice mexe-me com os nervos, tanto primarismo põe-me à beira de um ataque de nervos, tanta mentira põe-me a rogar para que haja inferno. E pensar que tanta desta gente vai à missa, que se confessa e que comunga, deixa-me a rezar para que Deus exista e que seja o que eles dizem que é.

 

Considero que para alguém chegar ao parlamento, ou mesmo ao governo, deveria ser obrigatório passar numa espécie de exame onde fossem testados os seus conhecimentos, não só em política, como em história, direito, e também em cultura geral e, sobretudo, em literacia social e humana. Mas o que por aqui continua a contar é o cartão partidário e ser amigo de quem domina a estrutura partidária.

 

Além disso, são capazes de escrever nos jornais textos que mais parecem atas de qualquer associação recreativa e cultural. Nem sequer se dão ao luxo de disfarçar o seu estatuto de consignatários políticos, comportando-se na política como se estivessem num jogo de futebol a apoiar a sua equipa, sem notarem que para haver jogo tem de existir adversário. 

 

Não discutem ideias, não gostam de polémicas, evitam os concorrentes, manobram nos bastidores, conspiram na sombra. São tão maneirinhos que enjoam. Não se lhes conhece uma intervenção pública de jeito, uma ideia própria, uma obra consistente. Vivem do improviso, da lamechice, do desfile público, constantemente a sorrir como se fossem bonecos de porcelana, ajaezados nas suas vestes cómicas, como se não coubessem nelas, como se a libré lhes pesasse.

 

Se o ridículo matasse!

 

São também peritos em esfrangalhar a lógica, em aligeirar os processos, em fabricar cenários, em sorrir constantemente como se a vida, e esta miserável conjuntura que nos anunciaram como quase milagrosa, fossem motivo para a redenção. 

 

Claro que a política, para não morrer, e com ela a democracia, tem de se reabilitar, tem de promover gente capaz, pessoas cultas, com currículos significativos, com provas dadas em defesa da coisa pública.

 

Atualmente uma pessoa dá um pontapé numa pedra e aparece logo um candidato a presidente da Câmara, pontapeia um canhoto e descobre-se logo um candidato a deputado, abre-se uma porta do partido A ou B e damos logo de caras com um putativo secretário de Estado ou mesmo com um aspirante a ministro.

 

Passam da intriga e do manobrismo partidário para o Estado sem serem submetidos a qualquer tipo de audição ou escrutínio público.

 

Por exemplo, fala-se muito em competência e produtividade, mas nunca ouvi ninguém dos partidos políticos defender que os deputados ganhassem segundo o trabalho que produzem.

 

Ir para o parlamento para estar sentado a bater palmas às intervenções da “nossa” bancada e assobiar às dos opositores, para levantar o rabo para ir comer ou nos momentos da votação, é vexante, é um desperdício de dinheiro, de tempo e de palavreado. Penso que esse tipo de escassez de produtividade devia ser combatida como gordura do Estado ou como desadequação do eleito ao seu posto de trabalho.

 

A nobreza de um estadista não está em parecê-lo mas, efetivamente, em sê-lo. A política, e os políticos, têm também de ser chamados à tarefa da produção. 

 

Os políticos habituaram-se a resolver tudo no ano que vem. E quase nunca cumprem. Pelo menos até agora nunca cumpriram. A princípio ficávamos felizes com as suas promessas. Bastava-nos a ideia de que o futuro seria melhor.

 

Este executivo neo-neo-liberal, e esta maioria, vieram impor-nos a ideia de que o futuro será pior. Que o futuro reside no corte de salários, nos despedimentos, em maior desemprego, na recessão económica. E ameaçam que para o ano o cenário piorará. Do lado da bancada que sustenta o governo, os parlamentares não dizem nada, apenas se limitam à prédica de enviar as culpas para cima dos políticos que os precederam.

 

Quando olho para aquelas bancadas, reparo que a maior parte são funcionários públicos. Mete dó vê-los ali sentados a votarem um orçamento que é justificado, na sua essência, como um corretivo aos trabalhadores do Estado.

 

Por detrás desta atitude é visível o desprezo, a mentira, o embuste, a desqualificação, a perseguição, o escárnio e o mal-dizer. Esquecem esses senhores que ao serviço do Estado estão os portugueses mais qualificados e que sem eles Portugal, pura e simplesmente, nem sequer consegue existir como Estado moderno.

 

Lendo os sinais, podemos concluir que o governo do PSD/CDS se inclina para diminuir o número de trabalhadores do Estado. Mas temos que pensar que isso tem de passar por diminuir os serviços públicos de qualidade. Nos inícios do século XX os funcionários de Estado quase não existiam porque o Estado também não.

 

Por isso não havia água potável, saneamento básico, recolha do lixo, estradas, pontes e, sobretudo, saúde, educação e segurança social. Pois, caros leitores, quando Pedro Passos Coelho fala de cortar nas gorduras do Estado, e é aplaudido de pé pelos deputados do seu partido, especialmente pelos que são funcionários públicos, no que está a pensar é em desqualificar a educação, defenestrar a saúde e depauperar a segurança social. E isso é um retrocesso social e político sem paralelo na história do nosso país.

 

Até agora o país evoluía pouco, mas evoluía. Agora estes senhores descobriram a fórmula de andarmos para trás no tempo impingindo-nos a ideia de que ou aceitamos a inevitabilidade ou vem aí o dilúvio, o castigo, o fim do mundo.

 

O que mais me entristece, e indigna, é que o primeiro-ministro do meu país utilize a estratégia do medo e da chantagem para humilhar o povo português. Mas eu sei que o medo não é o que mais nos obriga a fazer seja o que for. A estratégia do medo vai falhar pela simples razão de que todos esses estratagemas falham quando aplicados a um povo que teima em ser cordato, paciente, mas livre. 


publicado por João Madureira às 07:00
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