Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011

O Poema Infinito (77): o canto das mulheres desassombradas

 

As mulheres desassombradas atravessam a carne enquanto sonham com as subtilezas da suavidade magnífica das suas vulvas. E cantam canções impuras e rutilantes que anunciam a desgraça da felicidade antiga e o orvalho inocente das roseiras e, inclinadas sobre os violinos, abrem os seus corpos que são pão, maçãs e vinho mosto. Sobre o meu corpo desce agora Deus com o seu tempo de silêncio e traz-me mulheres vazias. E essas mulheres cantam e mostram a boca e o ânus e uma mão vermelha pousada sobre o sexo. As flores do mal enlevam a minha melancolia e tornam-na doce como a inocência. As mulheres lentas e nuas pensam em folhas para se cobrirem. E choram numa velocidade molhada enquanto se inspiram na carne e na morte e se debruçam sobre a frescura veemente da ilusão. Essas mulheres pedem para que Deus lhes permita viver velozmente num fogo juvenil que se prende ao seu ventre. Sofro agora do amargo delírio de subir pelas mulheres em degraus. Essa é a expectativa fulminante, o movimento explicado aos geómetras que assaltam as cidades com gestos encerrados nos próprios gestos. As mulheres fazem que passam por mim segurando os seios como se fossem bolas de cristal. Os seus olhos são janelas em brasa e o seu mutismo contempla as flores e as folhas de sono. E de novo as mulheres alucinadas transportam Deus dobrado sobre a sua própria luz e as estátuas de anjos fixos nas suas asas e profetas girando sobre a sua própria loucura. E as mulheres atentamente suspeitas aos olhos de Deus enchem os seus corpos de orgasmos duros e embrulham o seu misterioso talento materno nos coitos interrompidos. Depois separam-se dos seus passos em volta e dizem-se apaixonadas pelas graves canções do desejo e do sacrifício e da penitência e da desgraça e choram fechadas nos seus labirintos de dor e ciúme. As pobres mulheres caminham pelo lado escuro da revelação e observam a vingança divina onde a sua beleza passa sem lhes tocar. E elas relembram o seu circuito ardente da velhice e da decomposição e o som curvo da paixão que morreu mesmo antes de nascer e a terrível purificação universal da infâmia e da morte e suspiram com as mãos transformadas em instrumentos de infelicidade. E a orquestra de mulheres exemplares levanta-se com os seus corpos de violoncelos e principia a tocar canções de amor impossível. Por isso as suas línguas começam a queimar-se como fósforos. Cada mulher é uma vingança. Cada mulher é um pecado explicado por Deus com um gesto infantil. Cada mulher é uma intempestiva e excitada iluminação da natureza. Cada mulher é um brilho interior. Cada mulher é um longo som de amor e morte. Deus tenta agora explicá-las como o fundo da sua existência, mas já é tarde. Por isso lhe voltam as costas e partem com a sua sinistra fantasia da absolvição. O eco dos seus passos funda uma nova existência e envolve a solidão extraordinária da paixão humana. E as mulheres aproximam agora os seus corpos de luz aos corpos dos homens desabitados e falam-lhes da lírica antropologia dos sexos eretos e, com as suas vozes brilhantes, encostam as línguas e principiam um coito tão grande como a eterna ilusão do amor. Daqui nasce o longo canto da vida. E Deus volta a morrer dentro da sua imortalidade no seu espasmo feroz de sangue feminino. A humanidade: a carne contra o tempo. A divindade: o tempo contra a carne. De repente acordo fecundado pela invenção iluminada deste poema e as mulheres desassombradas atravessam a carne enquanto sonham…


publicado por João Madureira às 07:00
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