Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011

O Homem Sem Memória - 92

 

92 – Foi então que o guarda Ferreira, posto pela Dona Rosa entre a espada e a parede, resolveu resgatar o filho.


A busca tinha de parecer legal e foi-o. Mas antes houve necessidade de o pai do José fazer alguns contactos. E o que tinha mais à mão era a sua relação com a GNR de Névoa. Muitos dos agentes da autoridade eram seus amigos ou conhecidos e o sargento era mesmo gente lá da terra. Um camarada de armas dos tempos da Índia.


O sargento primeiro ouviu e calou. Foi sensível aos argumentos e à situação desesperada em que se encontrava o guarda Ferreira, isto para não falar do estado lastimável em que se achava a Dona Rosa, a filharada, a casa, a lavoura e a criação. Fácil era de concluir que o filho também não se encontrava nada bem.


Bem vistas as coisas, o filho de um agente da autoridade tem de ser um exemplo para a sociedade, não pode colocar-se ao lado dos prevaricadores e dos facínoras. Não pode ser visto como um modelo subversivo. Os filhos dos agentes da autoridade têm de ser os primeiros a respeitar a lei, a ordem, o país, os seus dirigentes e toda a hierarquia social, política e religiosa. Senão onde é que isto tudo pode ir parar?


O José tinha dado um passo enorme no caminho da perdição, por isso urgia resgatá-lo das mãos do demo e dos seus agentes mais inflexíveis.


O sargento do posto da GNR de Névoa, nesse mesmo fim de semana, descansou o seu ex-camarada de armas dizendo-lhe que dali a quinze dias seria feita uma rusga ao bairro dos indigentes. Que descansasse. Ia ele mesmo falar com o tenente para que fizesse um pedido de requisição dos serviços do guarda Ferreira para a operação.


Bem, o pai do José saiu do posto disposto não só a dar um presunto ao seu amigo sargento, mas antes a oferecer-lhe o reco inteiro e ainda os prestimosos serviços da Dona Rosa para confecionar todo o fumeiro, arte em que era exímia.


Ao sargento não lhe tinha saído a taluda, mas tinha-lhe tocado a aproximação. Não só fazia um grande favor a um conterrâneo seu subordinado, como ia limpar uma zona da cidade extremamente problemática, onde já há muito tempo as instituições do poder local pediam uma intervenção exemplar. O pretexto vinha mesmo a calhar. Era a gota de água que fazia transbordar o copo.


Estava ciente de que o tenente do posto fazia constantemente o seu veto de bolso relativamente a uma operação desta envergadura. Não porque fosse um homem de paz, um conciliador social, um estratega em busca da melhor oportunidade. Não.


O tenente da GNR de Névoa era um cobarde, tinha medo do lumpen porque sabia que aquela gente matava sem dó nem piedade. Para os indigentes não existiam nem barreiras da autoridade, nem impedimentos religiosos, nem complicações familiares. Para eles a vida era clara como água. De um lado estavam eles e do outro estavam… os outros. Todos os outros. Sem exceção. Quando punham o inimigo na mira da espingarda atiravam a matar.


Ele sabia-o bem porque a sua mãe era uma cigana resgatada aos seus pelo putativo progenitor que teve de fugir para parte incerta para se pôr a salvo do fio apurado das navalhas ou dos tiros certeiros das caçadeiras.


O tenente da GNR tinha as qualidades todas. Era, além de cobarde, um devasso, um trampolineiro e um jogador inveterado. Jogava muito, mas perdia muito pouco. Como tanta sorte não existe, nem mesmo ao jogo, está visto que ganhava nas cartas porque o deixavam ganhar. Todos sabiam, e os seus companheiros especialmente porque o tenente da GNR lho lembrava a miúdo, que, como principal agente da autoridade em Névoa podia encerrar a sociedade nevoense por causa do jogo, prender os batoteiros por causa de jogarem a dinheiro, aferrolhar os putanheiros por conduta imoral, perseguir contrabandistas e opositores ao regime porque eram bandidos aos olhos da lei e aos olhos de Deus.


Mas em vez de os prender, ou perseguir, convivia com eles, jogava com eles, contrabandeava com eles. Como eram tantos, e tão eficazes, o tenente da GNR de Névoa, em vez de os combater, juntava-se a eles. Por isso ganhava no póquer, tinha sempre a casa cheia de tudo e fornicava quem lhe apetecia lá nos bairros pobres, ou ainda nas famílias que por alguma razão se viam manietadas mas mãos do belzebu disfarçado de agente de autoridade.


Apesar disso, ou por isso mesmo, era muito apreciado pela sua generosidade e pela sua fé. Era mesmo dado como exemplo de caridade e virtude cristãs. O seu nome era sempre o primeiro de qualquer lista de angariação de fundos para as inúmeras obras sociais, o mais falado na missa por altura das festas religiosas devido às suas generosas oferendas em alimentos e roupas. Fazia mesmo questão em ter o seu próprio bodo aos pobres. Os seus pobres eram-lhe mais fiéis do que ao próprio Deus. Vestia-os, alimentava-os, batizava-lhes os filhos. Muitas delas, diziam as más-línguas, bem lhe podiam chamar de pai, que não erravam.


Para não fugir ao lugar-comum, era também dado à bebida. Em casa comportava-se como um carrasco, batia nos filhos com uma chibata e malhava na mulher como em centeio verde sempre com as suas luvas brancas de cerimónia. Na rua era só sorrisos e abraços. Confessava-se todas as semanas, ia à missa aos domingos e comungava com uma cara tão angelical que mesmo os anjos e santos, espalhados pelos diversos altares da igreja, coravam de vergonha. Era habitual vê-lo chorar lágrimas autênticas enquanto tentava engolir a hóstia sagrada sem lhe tocar com os dentes para não pecar.


No momento em que o sargento da GNR de Névoa entrou no seu gabinete e lhe propôs a rusga acordada com o pai do José, o tenente assustou-se e disse que tinha de pensar melhor no assunto.


O sargento, olhando-o bem nos olhos, informou-o de que esta diretiva tinha sido imposta, com data a definir, para o mês que estava a decorrer, pelo comando-geral após solicitação do presidente da Câmara a pedido de várias famílias influentes, da associação de comerciantes, de distintas associações de caridade e de defesa dos bons costumes e, sobretudo, da polícia política, do próprio bispado de Vila Real e do reitor do seminário de onde o José foi expulso.


“Então dá-me até amanhã, para fazer as minhas diligências, e logo definimos a data, os meios e a logística”, ordenou o senhor tenente. O sargento obedeceu, que remédio. Sabia que o tempo que o seu superior lhe pedia era para avisar os seus da investida. Mas o que podia fazer? O que interessava era resgatar o filho do seu colega, limpar os bairros da cidade daquela escumalha e, por último, se a operação fosse um sucesso, ganhar uma medalha e ser promovido.


O seu filho, liberto da guerra colonial por uma cunha certeira e bem untada, estava na altura certa para ingressar na universidade. Ele podia ser GNR, mas o seu filho ia ser doutor. Para isso era necessário dinheiro. O que na sua situação só podia significar uma de duas coisas: ou ser promovido ou ter de se submeter aos ditames do tenente. A corrupção era uma forte atrativo, tinha de reconhecer. No entanto, ele ainda não estava para aí virado. Mas o futuro a Deus pertence.


publicado por João Madureira às 07:00
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