Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011

O Capuchinho Laranja e o Nanni Mota Soares

 

Francisco Vaz da Silva, um investigador do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, afirma que, na sua origem, os contos (de fadas) não eram, de maneira nenhuma, dedicados às crianças. Eram histórias passadas de geração em geração, nas tradições orais da Europa e do resto do mundo, quando a infância ainda não tinha sido inventada enquanto conceito, como o foi a partir do século XVIII. Ou seja, os contos tradicionais (ou contos mágicos ou maravilhosos) eram constituídos por temas simbólicos destinados aos adultos. A denominação de tradicional tem tudo a ver com o modo de transmissão e o dizer-se que são maravilhosos relaciona-se com o seu conteúdo.

 

Mas, por agora, avanço noutra direção, para mais tarde tornar à introdução se as voltas e reviravoltas do texto mo permitirem. É que a agitação e a conflitualidade não se refletem apenas na rua, elas andam também no meio dos textos. É o que se chama tensão textual, que pretende colmatar alguma falha na denominada tensão social existente na sociedade portuguesa e europeia. Isto enquanto os políticos nos mentem e se desmentem como se a política fosse um conto de traição e abandono.

 

Ora vamos lá então. Durante a última campanha eleitoral lembrei-me várias vezes de quando era menino e sentia todos os rumores e sussurros, como se fosse uma aranha que sente nos pés o estremecer de uma mosca que caiu na teia. Ainda hoje tenho um tipo de mente capaz de conter e considerar proposições contraditórias sem perder o equilíbrio e o rumo. Sinto a mentira a léguas. Por isso é que as campanhas eleitorais são para mim um suplício. Indigna-me que os candidatos aos cargos não lutem por ganhar o prémio da razão, limitando-se a esperar para verem se aproveitam algumas migalhas que sobram da mesa do poder dos grandes grupos económicos. Por isso é que hoje não há política, mas sim economia e finanças.

 

Por causa das coisas vou ainda tentar compor outra reflexão. Os políticos deste governo ainda não pararam para pensar no mal que estão a fazer ao país. Não querem ser o que não são, o que é legítimo, mas o drama é que não sabem ser o que dizem que eram ou queriam ser.

 

Provavelmente o PM é um intrujão compulsivo (pois foi ele que afirmou na campanha eleitoral que não ia cortar o 13º mês e o subsídio de férias) ou um cleptomaníaco (pois, ao contrário do que afirmou, cortou esses subsídios e prepara-se para cortar na Saúde, na Educação e na Segurança Social, além de já nos ter roubado toda a esperança no futuro), doenças que o podem ilibar da responsabilidade dos actos, mas a nós, pobres vítimas, não nos liberta das suas consequências dolorosas.

 

Entendamo-nos de uma vez, nós estamos a cometer um crime (especialmente esta rapaziada que nos governa), pois não conseguimos deixar sinais de esperança aos jovens. E sabem porquê? Pois porque o exemplo que colhem é mau. Se repararmos com atenção vemos que os melhores alunos das universidades fogem da política como o Diabo da cruz. E com toda a razão. Atualmete a política tornou-se o refúgio dos medíocres.

 

Eu já grafei esta evidência, que quase não admite exceções, em várias ocasiões. Mas, agora, para não me apelidarem de presumido e arrogante, informo os estimados leitores que a última frase que escrevi no parágrafo anterior desta vez não me pertence, é da autoria do mestre George Steiner.

 

Isto é para não dizerem que me repito, o que se repete é a mediocridade dos políticos, nomeadamente a dos que agora constituíram uma maioria parlamentar e governamental que teima em nos levar para o abismo.

 

Ou seja, as histórias realistas da mudança, dos dias que iam cantar, ou as do rumo certo, ou, ainda, as do futuro melhor, contadas pelos políticos, converteram-se em contos de crianças para adultos. Inverteram-se os papéis. Os políticos de agora parecem os alunos das Novas Oportunidades, isto sem ofensa para os últimos.

 

Mas vamos lá ao conto propriamente dito. O antigo deputado da lambreta, e agora Ministro da Solidariedade e da Segurança Social, Pedro Mora Soares, resolveu surpreender os seus amigos e, especialmente, os seus adversários. Até a mim me surpreendeu. Eu que admirava o seu ar de Nanni Moreti sem barba, por causa do seu motociclo e do capacete, que apreciava o seu estatuto de político alternativo que preferia andar de motoreta enquanto os seus colegas parlamentares se deslocavam em grandes carros. Vi-a nele um político redentor, e de direita (até isso batia certo), que dizia à esquerda como é ser-se de esquerda, como é ser-se ecologista, como é ser-se um verdadeiro democrata-cristão. Depois também o contemplei a chegar à sede do CDS, já ministro, enfiado no seu fato, sentado na sua vespa e com a gravata ao vento. E ainda o observei a discursar novamente em favor dos pobrezinhos e dos desvalidos e enxerguei-o até a rezar na missa e a bater com a mão no peito numa reportagem transmitida pela televisão e descobri-o também a sorrir em várias cerimónias oficiais onde insistia, mais uma vez, no discurso em favor dos desvalidos e dos pobrezinhos.

 

Apesar de alguns sinais que não aprecio, o de católico penitente, ou o discurso do elogio da pobreza e da carência, continuava a pensar que o homem até era capaz de ser honesto e de ser amigo dos pobrezinhos e dos desvalidos. Um homem que anda de mota para não poluir a cidade, que se desloca de motociclo para não entupir o trânsito, que se move de motoreta para não contribuir para o efeito de estufa, é um homem com coragem e com sentido de Estado. É um estadista à maneira antiga, cheio de ideais, que gosta de ser exemplo, e, mais do que pregar a modernidade, a solidariedade, a sustentabilidade e a poupança, age e vive de acordo com os princípios de que um político pode ser sério, modesto e poupado. Ou seja, apesar de eu ser, por natureza, desconfiado, olhava para o homem e sentia que muitos dos meus preconceitos se tinham desmoronado, para bem da política e para bem da direita. É que uma boa direita é meio caminho andado para termos uma esquerda competente.

 

Mas o conto de fadas não era um conto de adultos que se pode ler às crianças, era, antes, um conto de crianças impingido aos adultos. E, num dia aziago, dou de caras com a notícia de que o Pedro Mota Soares (reparo agora que até o nome tinha muita coerência) resolveu abandonar a sua militância em favor dos transportes alternativos e passar a deslocar-se num carro de luxo avaliado em 86 mil euros. Então e a ecologia, senhor ministro? Então e os pobrezinhos? Então e a austeridade? Então e o corte nas gorduras do Estado? Então e a democracia-cristã? Então e a solidariedade social? Então e o combate ao desperdício? Então e a frase profética dos evangelhos de que é mais difícil um rico penetrar no reino dos céus do que um camelo passar pelo orifício da agulha de coser peúgas?

 

Afinal o ministro chegou à conclusão de que o céu é kitsh, que Deus é uma palavra, e a alma, no máximo, é a carga da bateria do seu novo Audi novinho em folha.

 

Não sei porquê, mas de repente lembrei-me das palavras que D. José Policarpo proferiu em Fátima, avisando que a democracia está em risco devido aos jogos do capital. Por outro lado, o presidente da Associação Nacional de Sargentos avisou que “as revoluções não se anunciam”. E é bem verdade. A verdadeira revolução liberal aí está sem ter sido anunciada, pedida ou defendida por ninguém, nem mesmo pelos próprios liberais.

 

O rosado Lobo Mau, afinal, não era tão mau como o pintavam, e o Capuchinho Laranja revelou-se uma dama já um pouco madura e com capacidade de atraiçoar os ideais que dizia ter e defender. 

 

Pedro Passos Coelho finalmente conseguiu o que nunca nenhum líder do seu partido julgou ser possível alcançar neste país, com esta Constituição: o desmantelamento do Estado Social. Ele que lidera um partido que até há bem pouco tempo se orgulhava de ser social-democrata.

 

Este PM resolveu, qual anjo liberal vingador, qual bruxa de OZ, qual exterminador implacável de funcionários públicos e pensionistas, rasgar o contrato social que vigorava na sociedade portuguesa desde 1974. Este Maquiavel de pacotilha, rodeou-se de jovens turcos, sem qualquer experiência na administração pública, e, em vez de remodelar a casa, resolve deitá-la toda abaixo.

 

A sua sede de vingança sobre o país, e sobre os dirigentes do PSD que o antecederam, é tanta que não se conhece um convite feito a nenhum deles para qualquer tipo de debate político estratégico.

 

Já o escrevi, e torno a repeti-lo, Pedro passos Coelho não quer acabar com as gorduras do Estado. Ele quer acabar definitivamente com o Estado.

 

Pobre povo, pobre país, pobre Pedro Passos Coelho. 


publicado por João Madureira às 07:00
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