Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011

O Poema Infinito (78): canto de amor e medo

 

Solta-se do teu olhar o admirável esplendor dos animais vivos enquanto recordo as mãos gretadas da minha avó. Do teu corpo brota a espessa seiva das árvores procriadoras fecundadas por sois inclinados. Retenho de ti os mais privados desejos enquanto nos confundimos com a paisagem do amanhecer. E as mãos ficam disponíveis para o amor. Do teu silêncio faço o meu silêncio. Depois chega o embaraço da memória: os galos estáticos no seu canto, os cães abandonados e atrapalhados no seu ladrar, as vozes ausentes dos que já partiram, o isolamento da poeira do tempo, o sono que vem devagar tomar conta da exaltação das coisas mínimas, os gestos de vigília da minha mãe, as lágrimas das minhas irmãs, os gritos do louco da aldeia, o corpo magoado dos idosos, a terra da desesperança, os sorrisos abafados das ninfetas, o rio das insónias, o sabor amargo dos nomes dos inimigos, o envelhecimento das casas, a densa fúria do tempo que passa, o arrependimento subjetivo do fulgor da minha juventude. De braços esticados amparo o teu sono e o sono dos nossos filhos e a seiva do teu sorriso e a tua maravilhosa cara de boneca de porcelana viva e os teus olhos que são salgueiros altivos onde brilham estrelas abertas. O sonho. Os brinquedos. A areia. A água. Um rio brotando no fundo do meu sonho. O amanhecer da carne. O retrato líquido da família. E as dádivas do pranto. E os corações perfumados pelo pólen do estio. Agora o meu olhar saboreia o vinho morno do teu rosto envolvido pelos teus cabelos de urze florida, lá onde as árvores se reclinam para nos ampararem, lá onde a paisagem é uma boca aberta de espanto, lá onde as ervas são doces e verdes, lá onde as águias voam magníficas e lentas como a sabedoria. De repente o céu fica embriagado pelas aves que respiram luz e voam como as cores do arco-íris. As nossas vozes respiram versos em construção. De novo me fica o olhar preso nos ângulos escuros da velha casa, linhas misteriosas cruzam-se formando uma ilha imaginária em formato de templo. Amanhece dolorosamente dentro de mim. Tu corres à velocidade da minha angústia. Atravesso-te como um sismo preguiçoso. E as palavras alinham-se no texto e o texto revela-se noutro texto dentro de um labirinto infinito de palavras. O texto é cada vez mais a ausência do corpo, desse corpo que me é absolutamente necessário. Escapa-me sempre a compreensão do mundo quando oiço os segredos dos sábios. Por isso os seus livros me parecem de pedra. Volta o silêncio dentro das suas cores violentas. Volta o sono e o cansaço. Movemo-nos lentamente para fora dos nossos corpos. Os gestos das mãos são recordações imensas. A música húmida da tua vagina acende-se como um pêssego sumarento. Tem o amor a vocação leve do ilusionismo. Tem a morte o entendimento frio das máquinas. 


publicado por João Madureira às 07:00
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