Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011

O Homem Sem Memória - 93

 

93 – O bairro onde o José estava cativo do vício foi invadido pelas tropas da GNR logo pela manhã. Um pouco depois das oito, porque foi nessa hora que o nevoeiro levantou. Por um triz que a operação não foi cancelada. O tenente, sentado no jipe ao lado do sargento, ainda tentou desmobilizar as tropas. Mas o sol, mesmo à justa, sorriu por entre o nevoeiro e as árvores despidas junto à margem do rio.


A investida das forças da ordem dava um filme. E dos bons. Enquanto as damas e os cavalheiros da parte alta da cidade se alindavam para a missa de domingo, os guardas, com o medo escondido nos bolsos e a adrenalina à flor da pele, penetraram decididamente nas terras amaldiçoadas da indigência e do pecado.


Enquanto os cavalheiros tomavam banho, desfaziam a barba, vestiam as suas camisolas interiores, as meias grossas e as ceroulas de atilhos, enquanto as damas submergiam os seus alvos e redondos corpos nas suas banheiras de água quente e perfumada com sais, enquanto os cavalheiros enroupavam o paletó e enfiavam os botins, enquanto as damas enfiavam a sua lingerie atrevida constituída por cuequinhas suficientemente curtas para despertarem a líbido, quem sabe se de um deus desconhecido, ou, na sua falta, a um marido sensaborão e enfadonho, e sutiãs rendados e encorpados para colocarem os seios em riste, e calçavam as suas meias de vidro que davam um tom suficientemente neutro e unitário à pele das suas coxas, enquanto os cavalheiros apertavam os botões dourados nos punhos das suas camisas de seda, faziam o nó das suas gravatas do mesmo tecido, punham o lenço no bolso do casaco, enfiavam o relógio no bolso ou no pulso, colocavam o chapéu na cabeça e chegavam fogo à sua cigarrilha domingueira, enquanto as damas velavam a sua roupa interior com vestidos, saias, blusas e casacos mais ou menos discretos, enquanto todos eles se dirigiam ao café para tomar o pequeno-almoço em paz e sossego no meio da sua sagrada família, enquanto tudo isso acontecia no mundo civilizado, calmo e pachorrento da urbe, na baixa nevoense os guardas entraram decididos no labirinto pestilento e lúgubre do bairro do rio.


O tenente e o sargento decidiram, como bons estrategas e líderes que se orgulhavam de ser, estacionar numa posição mais elevada a observarem a movimentação dos seus soldados. Eles avançavam devagar, com as armas em riste, suficientemente decididos a cumprirem com o seu dever.


Enquanto o nevoeiro se levantava por cima dos telhados de folha de zinco, cartão ou madeira, sobre os caminhos estreitos e lamacentos, assentou o pesado trotar das botas das dezenas de militares destacados para a operação de resgate do jovem José.


Ao tenente pôs-se-lhe a pele de galinha quando viu, através dos seus potentes binóculos, um cão a ser fulminado com o tiro certeiro do cabo que comandava as tropas no terreno.


Foram os cães, que principiavam a estender-se ao sol da manhã, os primeiros a dar sinal de que algo no bairro não corria bem. Quando começaram todos a ladrar ao mesmo tempo, algumas mulheres mais idosas vieram observar o que se passava, e só então se aperceberam que as galinhas corriam assustadas em todas as direções enquanto as botas dos militares ganhavam terreno.


O bairro demorou tempo a aperceber-se do que lhe estava a cair em cima. Quando as pessoas mais velhas começaram a gritar: “é a guarda, é a guarda”, já era tarde de mais para que os homens com préstimo fossem capazes de organizar uma defesa eficaz.


O sargento, numa posição mais recuada do que o tenente, sorria ao observar, através das eficazes lentes dos binóculos, não tão potentes como as do tenente, mas mesmo assim com bom alcance, a algazarra que se instalou no meio dos barracos dos indigentes.


Homens, mulheres, crianças e galinhas corriam como loucos, tropeçando uns nos outros, caindo e levantando-se, enquanto os cães continuavam a ladrar, a ferrar os invasores e a serem abatidos por eles com toda a ciência que estas situações exigem.


Alguns dos mais avisados e destemidos, ainda correram para os sítios onde tinham os trabucos escondidos. Muitos até intentaram disparar as armas para darem um ar da sua graça. Afinal a sua honra e o seu prestígio, enquanto lumpen, tinha de ser mantida. Mas as posições estratégicas estavam tomadas e as suas armas tinham trocado de mãos.


Os bufos, quais judas traidores, tinham sido eficazes. As caçadeiras e as carabinas foram todas confiscadas. Os poucos tiros disparados pelos sitiados foram feitos com revólveres, tendo ferido dois guardas, enquanto outros cinco foram golpeados com facas de matar e desfazer porcos. Um dos soldados da GNR teve mesmo de ser transportado para o Porto devido à delicadeza dos ferimentos.


Ladrões, proxenetas e contrabandistas que se deixam apanhar com as calças na mão pela tropa fandanga da GNR, que nem é tropa nem é nada, constituía, aos olhos das restantes irmandades do crime, um golpe duro no seu prestígio. Podia mesmo pôr em causa a sua sobrevivência. E, nesta como noutras coisas, o mal de uns é o bem de outros.


Mas se as armas foram fáceis de descobrir, já o mesmo não se pode afirmar acerca do paradeiro do José que, bem vistas as coisas, era o objetivo principal da operação.


Os informadores bem tinham avisado que encontrar as armas não constituía problema de maior, pois os homens são criaturas de hábitos enraizados. O problema residia mesmo no pouso do José. Nisso, o filho do guarda Ferreira tinha procedido da mesma forma e jeito que os seus ídolos revolucionários. Ele, ao contrário de Cristo, queria fugir dos homens para os redimir, enquanto o filho de Deus foi ao seu encontro para ser preso, julgado, torturado, vilipendiado, gozado e morto na cruz. Destinos.


José, ao jeito dos líderes revolucionários, nunca dormia na mesma cama, no mesmo barraco, nem com a mesma mulher dois dias seguidos. Muitas vezes variava de poiso e concubina duas ou mais vezes por dia. Além disso, se ao início era fácil seguir-lhe o rasto porque cheirava a limpo e trajava como um menino burguês, com o passar do tempo foi-se transformando num indigente, de barba e cabelo comprido, que andava constantemente bêbado, sujo e conseguia praguejar da mesma forma e feitio que o povo do bairro. Por isso se tornou o seu líder espiritual.


Com o bairro sitiado, os cães mortos, os homens válidos algemados, as mulheres jovens confinadas a um canto e as galinhas espezinhadas, houve então capacidade logística para ir ao encontro do José. Os militares da GNR buscaram-no com método: barraco a barraco e enxerga a enxerga. Desta forma não havia possibilidade de fuga.

 


publicado por João Madureira às 07:00
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