Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011

O Poema Infinito (79): o namoro dos gestos

 

Atravesso as pontes calçado com as minhas sandálias de infância enquanto o lento alvorecer transparece nas árvores altas das margens do rio que corre para longe em direção ao azul do mar. Prometo a mim mesmo que matarei a sede nas belas fontes da serra. Entretanto caminharei pelo meio da minha aldeia em ruínas e levantarei o pó que já os meus antepassados levantaram. E deter-me-ei na praça do pelourinho a contemplar o chafariz que já foi grandioso e agora é apenas grande. Oiço ainda as dignas conquistas dos exércitos que por aqui andaram a defender o território e onde deixaram o seu suor, o seu sangue e as suas lágrimas. E choro com eles a magnificência da sua gesta agora considerada inútil. Continuarei a percorrer os vales e a subir montanhas e a comer maçãs pálidas amadurecidas pelo sol e escutarei, ao longe, a voz da minha avó e do meu pai e da minha mãe, essas vozes que já não existem mas que me convocam insistentemente. Por isso avançarei em direção ao vento tentando perceber a vida. Voltarei a dormir na transparência do teu rosto, encostado ao teu corpo claro e quente enquanto adoço o meu no teu olhar. E sonho com um rio sumptuoso e lascivo onde nos banhamos de extremo a extremo com os sexos à superfície do desejo. E a tua voz tem agora a irresistível luz lunar onde a órbita incandescente do silêncio se entrega à mudança feroz das estações. Somos paisagens brancas que se debruçam sobre as margens do rio que prontamente nos atravessa. E o silêncio anterior revela ainda mais a dolorosa perfeição dos teus lábios e a singular simetria dos mapas da nossa loucura cada vez mais tranquila. Cresce um silêncio terrível por dentro das nossas gargantas. Uma miríade de estrelas cai dentro de um outro tempo como que a iluminar aquilo que já foi dor e miséria. Já nada é perfeito, nem as antigas fórmulas alquímicas quando havia duendes, fadas, bruxas, deuses e demónios. Atualmente o homem é um bicho metamorfoseado de palavras cinzentas. Por isso nos vemos encostados à superfície da nossa idade sustendo a respiração para tentar ainda ouvir cair, uma a uma, as pétalas da magnólia do jardim público enquanto tu olhavas para a flor e eu olhava para ti e para as tuas mãos aflitas. Os pássaros de púrpura e luz desmoronavam os seus voos de encontro às sombras tocados pela loucura do entardecer. Também o teu cabelo sobrevoava o nosso desejo e o nosso amor que começou por ser uma pluma de sonho e expectação. Nessa altura até a mais leve pétala de magnólia era o mundo todo a cair-nos das mãos diretamente para dentro do olhar. E os nossos corpos balouçavam como se fossem invencíveis corcéis na tempestade. Corria um fogo líquido dentro das nossas veias que se dilatavam à medida dos nossos beijos. De tanto pensar já não consigo catalogar o caos. Cada vez mais a vida é uma memória feroz. O jardim público foi meticulosamente assassinado. Hoje a nossa cidade é uma chuva oblíqua que nos envolve na sua sombra e onde os pássaros são cada vez mais débeis. Presentemente o jardim público é um suspiro de flores tardias onde os pássaros renunciam ao voo e se deixam morrer na sua debilidade premeditada. A chuva voltou em busca do deslumbramento antigo. Também ela sente que não consegue regar a perfeição luminosa das coisas. Hoje a perfeição é cada vez mais imperfeita apesar de nunca ter sido tão perfeita. Sim, hoje a chuva regressou à nossa cidade e chora as gotas mais redondas sobre as velhas telhas dos cantos sombrios onde agora nos recolhemos. Desço pela fé da infância, caminho pela extensão dos campos, os livros continuam nas suas lições de voo. É quase manhã. Com a solidão nas veias insisto de novo no dom poético da chuva. É quase manhã e continuo a atravessar pontes como quem namora gestos. Todos os teus gestos. Sempre e para sempre.


publicado por João Madureira às 07:00
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