Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011

O Homem Sem Memória - 94

 

94 – Encontraram-no a curtir a borracheira, enquanto dormia numa cama abraçado a duas mulheres, que alguém identificou como mãe e filha. Quando o guarda Ferreira, entrando no tugúrio, deu com os olhos no seu filho vagamente iluminado por alguns raios de sol que teimavam em penetrar pelo telhado, emocionou-se como nunca o tinha feito na vida.


Ali estava aquela alma de Deus, carne da sua carne, sangue do seu sangue, novamente seco como as palhas, enfiado numa sotaina rota, que lhe deixava ver as vergonhas, de barba e cabelos desgrenhados, abraçado a duas mulheres dupla ou triplamente pecadoras, respirando profundamente como se fosse um anjo fornicador.


Quando lhe perguntaram se aquele era o seu filho limitou-se a responder: “Acho que sim.” O tenente, que, finalmente, tinha resolvido comparecer em território conquistado, virando-se para ele com toda a sua autoridade de juiz, questionou-o de novo: “O senhor agente aqui não acha nada. Ou sim ou sopas?” “Então sim, senhor tenente. No entanto sinto que se esse é o corpo do meu filho, penso que a sua alma já aí não habita.” “Isso da alma é lá com Deus. Eu, enquanto agente da autoridade, apenas estou autorizado a tratar de corpos e dos delitos que eles cometem.” 


Quando acordou, após ter sido regado com um balde de água fria, o José inquiriu furioso: “Quem foi o Judas? Eu também exijo que o Judas me dê o beijo da sua alta traição. Quem foi o Judas? Exijo que o Judas que me beije senão será amaldiçoado para todo o sempre.”


Mas à sua frente não apareceu o Judas, mas sim o nosso conhecido exorcista de cruz em riste, que não o beijou mas aspergiu sobre ele toda a água benta que transportava na caldeirinha. O José, possesso, não pelo demónio, como era espectável, mas por uma fúria cega, surda e muda, foi-se a ele com toda as forças que ainda possuía e tombou-o de um soco apenas. E olhem que o senhor abade afugentador de demónios pesava para aí cem quilos, ou até um pouco mais.


De imediato foi ele deitado ao chão por um grupo organizado de guardas. O seu pai ainda tentou deter a investida mas foi abalroado pelos colegas. Na guerra não se limpam armas, não se prezam amizades, nem se respeitam laços familiares.


O José continuou a debater-se enquanto levava murros, coronhadas e pontapés. Quando o viu devidamente manietado, e sangrando abundantemente do nariz e da boca, o exorcista, com a raiva do Demo e a impaciência de Deus, encaminhou-se na sua direção e cuspiu-o. De seguida, pediu uma garrafa de vinho e esbanjou-a, derramando todo o seu líquido, que uns dizem ser o sangue de Cristo, em cima do rosto atormentado do José.


“Embebeda-te mais um pouco, porco violento, que é para o que serves. Para Deus, e eu sou sua testemunha privilegiada, já não tens serventia nenhuma. Vai para as profundas dos infernos, tinhoso. Some-te daqui. Deixa esta gente em paz.” E ali se pôs a rezar bem alto para que Deus o ouvisse e lhe desse uma mãozinha em tão intricada missão. Para o exorcista, o José não estava possuído pelo demónio, ele era o próprio demónio.


No exato momento em que o cabo Pires ajudava a levantar o abalroado guarda Ferreira, justificando como podia a fúria cega dos seus subordinados imediatos, apareceu-lhe por detrás o seu superior direto que o felicitou pelo seu brilhante desempenho e pelo desempenho brilhante dos seus imediatos subordinados.


No momento exato em que o cabo Pires sorria para o sargento Elias, enquanto o guarda Ferreira sacudia o pó do seu capote azul e olhava triste para o seu inanimado filho que, esparramado no solo, continuava a sofrer as investidas coléricas do exorcista, apareceu-lhe por detrás o seu superior imediato que felicitou o desempenho do seu subordinado imediato e dos outros subordinados da cadeia hierárquica, felicitação que foi endereçada ao seu subordinado imediato, que logo a transmitiu a todos os soldados e praças da GNR, como era seu dever, incluído o guarda Ferreira, apesar de ter sido também ele vítima da fúria da razão, da ordem e da lei.


Com a moral em cima, os soldados da GNR sorriam de satisfeitos, enquanto as mulheres choravam e gritavam e os seus homens permaneciam quedos e mudos como penedos. Sem forças, prostrado no chão, o José piscou os olhos na direção do seu demónio de estimação. O exorcista arregalou os luzeiros e fez o mesmo.


Nestas coisas da religião é muito frequente cada um sentir-se como fazendo parte das tropas de Deus, atirando sempre para o outro o anátema de fazer parte dos exércitos de Belzebu. Cada um tem a sua teima.


Estavam todos neste equívoco de alma quando, vindo por detrás das largas costas do tenente Sampaio, deu entrada em cena a temível Dona Rosa que, na companhia do seu fiel cachorro, se dirigiu ao chefe da GNR, interpelando-o da seguinte forma: “Quem foi o filho da puta que bateu no meu filho? Quem foi?” Mal o graduado das forças da ordem de Névoa deu meia-volta, a mãe do José foi-se caras a ele com a sua faca de cortar carne para os salpicões e só não o golpeou com a fúria de uma cadela raivosa porque o guarda Ferreira, mesmo a tempo, lhe desviou a estocada com um habilidoso golpe de braço. O tenente Sampaio ficou branco como a cal com que se pintam as paredes das casas para receber o Compasso nos domingos de Páscoa.


Nesse preciso momento as mulheres deixaram de chorar e começaram a aplaudir a destemida progenitora do José. O José, fitando a sua mãe que agitava no ar a faca com que pretendia sangrar o porco do tenente, rodeada pelo marido, pelo sargento Elias e pelo cabo Pires, deu um pulo felino e, arrancando a cruz das mãos do exorcista, vergastou-o tanto e tão ferozmente como Cristo o fez aos vendilhões do templo.


Se não fossem os subordinados diretos do cabo Pires a agir prontamente, a pedido do imediato superior hierárquico e sob a ordem direta do tenente Sampaio, o exorcista podia ter sido chacinado, dependendo do ponto de vista, às mãos do seu demónio de estimação, ou de um dos servos mais diletos e mais utopista de Deus Todo Poderoso.


De novo o José foi deitado ao chão e espancado como um pobre de Cristo. De novo o guarda Ferreira foi derrubado quando tentou interpor-se entre os colegas e o seu primogénito. Só que agora estava a Dona Rosa em campo, que, em vez de desmaiar, como era sua mania, foi-se a eles como São Tiago aos mouros. Mas como em vez de espada comprida e refulgente apenas alçava a tal faca de cortar a carne para os salpicões, a sua investida foi prontamente abortada, pois o cabo Pires, para que a luta entre a família de um guarda contra a sua corporação não se transformasse num motivo de chacota para o povoléu miserável do bairro, passou-lhe uma rasteira que pregou com a mulher do guarda Ferreira no chão.


Vendo a família toda no chão, o mastim da Dona Rosa, guiado pelo seu instinto de cão, dirigiu-se ao tenente Sampaio e só não o ferrou nas jugulares porque o sargento Elias pegou na sua pistola de guerra e disparou um tiro certeiro mesmo no coração do animal.


Vendo a família Ferreira dominada, o bairro subjugado e o exorcista fora de perigo, apesar de muito maltratado, foi dada ordem aos funcionários camarários para virem recolher os corpos dos cães abatidos. As galinhas deixaram-nas para serventia dos indigentes. Afinal eram boas almas cristãs, chefiados por um comendador de Deus e da sua Madre Igreja. Foram ainda chamadas duas ambulâncias dos bombeiros, uma dos de baixo e outra dos de cima, para não ferir suscetibilidades, para recolherem os feridos civis, pois os soldados atacados pela fúria do lumpen foram socorridos pelas ambulâncias militares. 


publicado por João Madureira às 07:00
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