Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011

O fado e o corridinho

 

Olho lá para baixo, onde o Tâmega corre sereno encostado às margens, fixo o olhar nos velhos arcos da ponte Romana e de seguida desvio os olhos mais para o lado direito, na direção do casario velho e abandonado, enquanto oiço o trio de jazz Carlos Bica & Azul e tento lembrar-me de uns versos de Ruy Cinatti: “Somos tão poucos mas vale a pena construir cidades / denunciar a tinta gasta em discursos. / Salve-nos Deus / se não soubermos prever os alicerces / basta de balancé entre o que é, o que virá, o que não é. / Basta de poetas com as mãos cruzadas / e de operários a cair de sono. / Somos poucos mas vale a pena construir cidades / ou morrer de pé.

 

O dia está tristonho e é isso que me leva a ler uma entrevista de Lars Von Trier ao Expresso, realizador que acaba de ganhar um prémio com o seu filme “Melancolia”. Lembro-me da minha paixão pelo cinema, lembro-me da importância do cinema na minha vida, na vida dos meus amigos, na vida da cidade. Lembro-me do saudoso Cine-Teatro, encerrado há muitos anos, e atualmente propriedade da Câmara de Chaves, que nunca conseguiu construir naquele privilegiado espaço central algo de útil para a cidade. E lá continua ele a servir de casa aos ratos e às aranhas. Deus do céu, tanto desperdício, tanta má gestão, tanta frivolidade, tanto abandono, tanta ausência de sensibilidade perante os símbolos da nossa vida colectiva. Deus do céu, tantos projetos falhados, tanta demagogia barata, tanta promessa falsa… tanto abandono.

 

Lars Von Trier, realizador de dois filmes soberbos (Breaking the Waves e Dancer in the Dark), não conseguiu definir-se sobre a sua última película. “Mas este filme é sobre quê?”, perguntaram-lhe, ao que ele respondeu: “Eu não sei.” Foi a partir daqui que comecei a cinematografar o meu filme interior. Esta gestão autárquica do PSD está tão cansada que já não sabe onde está o norte. O presidente vai gerindo o dia-a-dia como pode e sabe, enquanto seu vice se desdobra em almoçaradas, lanches e jantaradas. O senhor presidente delegou a visibilidade no seu vice como quem dá uma trotineta a uma criança traquina e embirrenta, na esperança de que o liberte do pesado fardo da gestão e da dívida.

 

Em abono da verdade, é necessário que se diga que com a conjuntura atual todo o exercício de governação autárquica e nacional é um bico-de-obra. Mas o que verdadeiramente dói é a falta de seriedade. Ainda me lembro de o PSD local prometer uma gestão autárquica que iria fazer com que o concelho ganhasse projeção, contribuindo dessa forma para o aumento e fixação da população residente. Mas, ao contrário, o nosso concelho perdeu gente, valências, protagonismo e capacidade de atração turística.

 

Diga-se, em abono da verdade, que cumpriu com a promessa de construir o Mercado do Gado, o Mercado Abastecedor e a Plataforma Logística. Mas, o que à primeira vista podia ser uma mais-valia, revelou-se um enorme erro de casting. O Mercado Abastecedor, enquanto tal, nunca funcionou e a Plataforma parece um parque industrial abandonado sem utilidade alguma, onde crescem as giestas e os tojos, onde instalações por estrear estão como se por elas tivesse passado a fúria das manifestações dos indignados, com os vidros partidos, as portas batidas e as ruas cercadas de ervas daninhas.

 

Ainda me lembro de ver o senhor presidente da Câmara, rodeado por todo o seu elenco camarário, nas manifestações contra as portagens nas SCUT e contra o encerramento da urgência no Hospital de Chaves. E não se limitava a marcar presença, discursava com empenho, com denodo, com coragem, dava entrevistas contundentes em que prometia luta e mais luta e todo o seu empenho na defesa dos direitos inalienáveis das gentes do Interior Norte. E a defesa dos direitos do povo que o elegeu, e que nele se reconhecia, ficava-lhe bem. Estava de acordo com o seu argumentário político, com o seu ideário social-democrata.

 

Mas isso foi enquanto o Governo era socialista, agora que lá estão os seus, diz-se surpreendido com a extinção de valências e de serviços e com a desclassificação da urgência médico-cirúrgica no Hospital de Chaves. E relativamente ao pagamento de portagens na A24 não se lhe conhece uma única declaração. Sobre isso nem sim nem sopas. Mas ainda há mais, o pólo da UTAD de Chaves vai acabar, por imposição da administração de Vila Real e, sobre isso, nem sim nem sopas. Talvez tenha ciciado algumas palavras em conversa com alguns membros da direção, mas quanto a tomadas de posição incisivas e enérgicas prefere gerir o sossego. O Governo, através da truculenta ministra da Justiça, pretende desqualificar o Tribunal de Chaves e centralizar serviços em Vila Real. Mais uma vez a nossa autarquia deixa isso para uma próxima oportunidade.

 

Está visto que o PSD local ostenta a mesma cara enganosa do PSD nacional. Quando é oposição tudo promete e quando é poder tudo cala e consente.

 

E enquanto todo este filme acontece, o que é que dizem e escrevem os nossos estimados deputados eleitos pelo nosso distrito? Pois enquanto o poder central laranja destrói todas as nossas potencialidades, fecha serviços, encerra instituições e aumenta impostos de uma forma obsessiva e estúpida, pois, enquanto tudo isso acontece, os nossos estimados deputados do PSD congratulam-se com a escolha do fado para património da Humanidade. Rejubilemos!

 

O Hospital de Chaves perde qualidade e serviços, cantemos-lhe um fado. Vamos pagar nas SCUT, cantemos-lhe outro fado. A UTAD fecha o anémico pólo de Chaves, cantemos-lhe ainda idêntico fado. O Tribunal vai passar a ser uma sala para fazer alguns julgamentos, então tanjam as cordas para todos entoarmos o fado do Embuçado, ou da Samaritana.

 

Os senhores deputados deviam tentar explicar ao povo que os elegeu a razão porque, ao contrário do que foi afirmado insistentemente por Pedro Passos Coelho, afinal sempre há um excedente de 2 mil milhões que, apesar de não ser excedente nem uma folga, é uma receita suplementar que dava e sobrava para pagar aos funcionários públicos pelo menos um dos subsídios. Mas não, o senhor PM preferiu doar esse dinheiro à banca, coitada dela tão descapitalizada, tão benevolente, tão caridosa. E vai mais um fado.

 

Olho para a minha secretária e, enquanto bebo um copo de água para acalmar a minha indignação, leio na capa da revista LER uma frase de Mário Soares: “Tentei muita coisa, até poesia.” E penso no senhor vice-presidente da Câmara e nas suas tentativas de ser também alguma coisa. Até tentou ser deputado. Apesar de eleito, foi e veio sem ter feito nada por si e, sobretudo, por nós, pela nossa região. E como diz o povo, e lembra semanalmente Pacheco Pereira na revista Sábado, é bem verdade que quem nasceu para lagartixa nunca poderá chegar a jacaré.

 

No seu ar ligeiramente afetado, vendo o país a afoguear-se, e o nosso concelho a ser roubado dos seus direitos mais elementares, o senhor vice, falando em nome do seu partido, vem a lume propor a criação de Comunidade Intermunicipal do Alto Tâmega, que ninguém sabe bem para o que serve, a não ser para criar mais uns tachos para alguns apaniguados.

 

Posto perante os graves problemas com que nos defrontamos, o nosso vice camarário propõe uma coisa inócua, inodora e insípida que mais não pretende do que ser uma manobra de diversão com a nítida intenção de esconder o Hospital, as Portagens, o Tribunal e o Pólo da UTAD. Posto perante os gravíssimos problemas com que o nosso concelho se defronta, o vice camarário canta-nos o fado do engano. Estamos em crer que os flaviense não se vão deixar cair no embuste.

 

O vice camarário, mais o seu grupo de apoiantes, já não são parte da solução para o novo ciclo de poder autárquico, são a parte cada vez mais visível, e previsível, do problema que constituem para o seu próprio partido, para a cidade de Chaves e para o nosso concelho.

 

Cá para nós que ninguém nos ouve, o que esta gente está a precisar não é de um fado mas sim de um corridinho à transmontana.

 

Volto de novo ao Carlos Bica, ao Azul e ao Ruy Cinatti: “Somos tão poucos mas vale a pena construir cidades / denunciar a tinta gasta em discursos. / Salve-nos Deus / se não soubermos prever os alicerces…


publicado por João Madureira às 07:00
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3 comentários:
De Tupamaro a 26 de Dezembro de 2011 às 23:08
“Quem nasceu lagartixa nunca poderá chegar a jacaré”, refere a Pacheco Pereira.
É um interessante provérbio brasileiro.
Cá (aí) por riba, “intigamente” usava-se: -Quem nasceu para dez-réis nunca chega a ser vintém.
Mas mais adequado ao ranhozito da pelintrice politicastra flavínia cabe :
- “Quem nasce para porco nunca chega a ser porqueiro”.

Saudações Tupamarindas

Tupamaro


De vespasiano a 27 de Dezembro de 2011 às 22:40
Bem dito Tupamaro. Ao utlizar um provérbio, já diz bastante,mas eu complemento. Quem é sacristão nunca chegará a padre. É o que se passa em aquae flaviae. Padre e sacristão lá se vão entretendo com a paróquia. Até quando? Entrementes, o pobo é que se vai lixando, ficando sem finanças, sem tribunal, sem UTAD, sem hospital, sem quartel e.... qualquer dia até as caldas de chaves vão embora. Se isso for que levem o iluminado do vereador financeiro que só anda na câmara a... ver navios. Bom Ano Novo


De vespasiano a 27 de Dezembro de 2011 às 22:41
Bem dito Tupamaro. Ao utlizar um provérbio, já diz bastante,mas eu complemento. Quem é sacristão nunca chegará a padre. É o que se passa em aquae flaviae. Padre e sacristão lá se vão entretendo com a paróquia. Até quando? Entrementes, o pobo é que se vai lixando, ficando sem finanças, sem tribunal, sem UTAD, sem hospital, sem quartel e.... qualquer dia até as caldas de chaves vão embora. Se isso for que levem o iluminado do vereador financeiro que só anda na câmara a... ver navios. Bom Ano Novo


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