Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2011

O Poema Infinito (80): literatura acidental

 

Levitas num sossego que me traz os astros de volta, por isso te falo nos modos próprios de escrever. Utilizo os cânones da literatura acidental. A última história tem meio ano de choro e outros seis meses de riso. A voz canta a adelgaçada estratégia dos corpos desastrados. Oiço palavras que germinam na gloriosa cultura das cobras e na harmoniosa levitação do gelo polar. Oiço palavras que caem do ar como penas de choro e lamento e reúno-as num cesto de verga. Deuses gregos e latinos fodem como loucos dentro dos armários da casa. Nós deitamo-nos solitários e deixamo-nos mastigar pela luxúria da carne em combustão. Fugimos da nossa idade de crianças atados a pombas de metal que já fizeram de Espírito Santo em poemas de Fernando Pessoa. Cada vez mais a paciência fornece o combustível da escrita. Um poema é como uma curva de um caminho onde uma macieira deixa cair os seus frutos. Já fui pastor de vacas doces e de ovelhas líricas e andava pelos montes com um cajado aristotélico e inscrevia montanhas nuas em cadernos de erva. Agora é o tempo em que trago a família para casa pelas escadas que se desfazem no tempo. A sua memória é cada vez mais uma alegria triste. É um poema desfeito repleto de palavras duras. As suas bocas de pó sobem pelas paredes e cantam nas suas vozes de madeira seca. Lá fora a chuva cai na sua paciência de água. Cá dentro protejo-me do desespero alimentando-me com o fogo da lareira. O rigor do velho escano estende a inexorável evidência do tempo e do seu poder de destruição absoluta. No meu colo, onde outrora descansava o gato cinzento, dorme hoje o livro do génesis aumentando as dúvidas e as certezas num processo de fissão nuclear. Ao longe os cães que restam latem no seu tom difuso de asma e violência. As rodas dos carros já não andam nem chiam e as mãos das mulheres já não acariciam nem dominam o fogo. As caçarolas redondas onde se fritava o presunto e as batatas enferrujam penduradas em pregos. Sou um ponto parado no branco absoluto de uma folha de papel. Na minha face insiste o trânsito ininterrupto das rugas. Ao fundo a roda de granito do antigo moinho permanece na sua solidão circular. Lembro-me de a minha avó, sentada no seu tosco banco de carvalho negral, reverberar pensamentos enquanto olhava fixamente para o bruxulear das labaredas da lareira. Na minha cabeça animaizinhos inocentes faziam gestos budistas e os bois repetiam as histórias que me contavam. Agora é o sino da igreja quem me badala a memória. De encontro à janela, a chuva continua a desdobrar-se com a pose de um cientista. A noite começa a construir a sua liturgia de sono enquanto eu metamorfoseio metáforas absolutas de saudade. 


publicado por João Madureira às 07:00
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