Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012

A mulher é o futuro do homem.

 

Hoje de manhã acordei com frio. Caiu uma geada à maneira antiga. O nevoeiro torna ainda mais gelado o amanhecer e perturba-me a visão. Neste início de ano, definitivamente tudo está gelado. A terra, as almas, os pássaros, as ruas, os olhares, as mãos e também, a cidade, a região e o país.

 

Uma pessoa olha para a nossa terra, para esta gestão autárquica, para o putativo candidato do PSD e fica gelado. Não sabemos se devemos ficar com mais pena do concelho ou do vice camarário, tão hirto na sua intenção, tão conspirador nos seus almoços e jantares, tão atrapalhado com o mundo que lhe foge debaixo dos pés.

 

Mas não é disso que vos quero falar. Hoje quero falar da morte de Vaclav Havel, homem que aprendi a admirar por ter ajudado a derrubar o comunismo checo com a sua “Revolução de Veludo”. Eu aprecio revoluções de veludo e aprendi a abominar as vermelhas de sangue.

 

Mas também não é disto que vos quero falar: nem das revoluções, nem da atrapalhação do putativo candidato do PSD à autárquica flaviense, nem do seu tempo confundido, nem da sua corrida ziguezagueante contra a preenchida lista de presumíveis candidatos do seu partido ao cargo que tanto ambiciona, mas que cada vez mais flavienses reconhecem que não possui a dimensão certa para o ocupar, com a dignidade que o cargo merece, nem das obras prometidas e não realizadas, nem da infelicíssima plantação de cestos de plástico pela rua de Santo António abaixo, nem dos caríssimos bancos também lá assentados para os transeuntes mais distraídos se porem a observar com cara de caso as entradas e saídas dos clientes das lojas comerciais, do tal comércio local tão amado com palavras de circunstância pelo poder local e tão abandonado à míngua e à sua pouca sorte. Não, não é disso que hoje vos quero falar.

 

Dizem os jornais que Havel morreu aos 75 anos na sua casa em Hradecek durante o sono. Contam que, no dia do seu funeral se ouviram ao meio-dia, todos os sinos das igrejas do país a tocar e de seguida as 21 salvas de canhão disparadas da colina de Petrin, em frente ao Castelo de Praga, sede oficial da presidência.

 

Mas também não é disso que vos quero falar. Ou melhor, não é só disso. Quero-vos falar de um amigo comum que eu e o líder da revolução de veludo possuíamos: Frank Zappa. Dizem que o genial músico foi um dos deuses do undreground checo. Vaclav Havel via-o como um amigo e sempre que lhe apetecia fugir das preocupações presidenciais pensava nele.

 

Dizem que a música que cada um ouve define o seu caráter. Por isso penso que Havel era um homem carismático e imperturbável. Peço desculpa, mas mesmo não querendo, sou levado a pensar na música que o putativo candidato do PSD à câmara de Chaves escuta no dia-a-dia, se é que ouve alguma, e arrepio-me. Lá fora continua o frio, mas estou em crer que não é por isso que a minha pele ficou subitamente eriçada. Sinto que a cada dia que passa aumenta preocupantemente toda uma raiva silenciosa que perpassa a sociedade portuguesa de lés a lés.

 

Mas também não é do governo da nação que hoje pretendo falar. É de música. Schoenberg dizia compreender a dialética mestra da história musical, ou seja, a constante oscilação que existe entre simplicidade e complexidade. Penso que era isso o que na música de Frank Zappa atraía Vaclav Havel. O jogo dialético entre complexidade e simplicidade.

 

Enquanto escrevo observo a rua e fico novamente cheio de frio. Isto apesar de cá dentro estar uma temperatura agradável. Frank Zappa continua a encantar-me. Mas Alex Ross (autor do livro “O Resto é Ruído – À Escuta do Século XX”) avisa-me que Cage se interessou com a “permutabilidade do som com o silêncio”. O som e o silêncio. O som e o silêncio.

 

Mesmo sem querer, lá volta de novo o vice camarário à memória. Será por causa do frio? Talvez. Por alguma coisa é. Dá arrepios pensar nele como presidente da Câmara. Voltar ao silêncio dos dias cinzentos, à rotina da gestão medíocre, às falsas promessas, ao mau gosto, à prepotência, ao golpe baixo.

 

Novamente o músico John Cage me avisa: “Qualquer tentativa para excluir o «irracional» é irracional. Qualquer estratégia de composição que seja totalmente “racional” é extremamente irracional.”

 

“É isso”, penso para mim. É isso mesmo. A putativa candidatura do vice camarário de João Batista foi pensada de forma tão “racional” que só pode ser irracional. Então vamos lá pensar: Se os partidos concordaram em limitar os mandatos autárquicos dos presidentes para dois, foi porque concluíram que mais tempo no poder gera maus hábitos, cria clientelas e potencializa a corrupção e o compadrio.

 

Agora os estimados leitores magiquem na sucessão do presidente pelo seu segundo, que foi vice porque não tinha nem carisma, nem qualidades, para ser primeiro. Ele, que geriu os silêncios, que administrou os favoritismos, que pôs e dispôs dos obséquios de ocasião e das admissões do pessoal, pretende, após 8 anos de tapa buracos e de capataz das conveniências, ser catapultado para a presidência. Tal situação é má de mais para ser plausível. Quem nunca conseguiu gerir o presente com qualidade, porque carga de água é que se acha na condição de protagonizar o futuro?

 

Por isso é que Pacheco Pereira lembra o ditado popular brasileiro: “Quem nasceu para lagartixa nunca chegará a jacaré”. O que na versão transmontana foi traduzido, e muito bem lembrado pelo meu amigo Tupamaro, para: “Quem nasceu para dez-réis nunca chega a ser vintém.”

 

Nestas como noutras coisas, o povo tem sempre a sua razão, pois conhece estes bisnaus há muito, mas mesmo muito tempo. É que a raposa pode mudar de pêlo mas nunca muda de hábitos. 

 

Enquanto faço um interregno com “Blue Train” de John Coltrane (de novo o azul, além disso também sou um homem que gosta de comboios), vêm-me novamente à memória os versos de Ruy Cinatti: “Somos tão poucos mas vale a pena construir cidades / denunciar a tinta gasta em discursos. / Salve-nos Deus / se não soubermos prever os alicerces …

 

Enquanto olho para uma fotografia de Vaclav Havel, Frank Zappa dá-me “Them or Us”. Lá fora começou a despontar o sol. Reconfortado, levanto-me da minha secretaria e vou à varanda. Nova recordação. Desta vez uns versos de Jean Ferrat e Louis Aragon: “O poeta tem sempre razão / Quem vê para além do horizonte / E o futuro é o seu reino / Face à nossa geração / Eu afirmo com Aragon / A mulher é o futuro do homem (…) O poeta tem sempre razão / Quem anuncia a Primavera / Doutros amores no seu reino / Faz renascer as flores / E declara com Aragon / A mulher é o futuro do homem.”

 

Lembro-me com lágrimas nos olhos da minha avó e de todas as mulheres que amei e amo, viro o rosto para a luz e fecho de novo os meus luzeiros enquanto tento aquecer a cara. Tenho no rosto desenhado um sorriso do tamanho da esperança.

 

“O poeta tem sempre razão / Quem vê para além do horizonte / Quem anuncia a Primavera / Faz renascer as flores / E declara com Aragon / A mulher é o futuro do homem.”

                                                                                                                              

Enquanto oiço o trio de jazz Carlos Bica & Azul, faço votos, e desejo do fundo do coração, que cantem comigo os versos de Ruy Cinatti: “Somos tão poucos mas vale a pena construir cidades / denunciar a tinta gasta em discursos. / Salve-nos Deus / se não soubermos prever os alicerces / basta de balancé entre o que é, o que virá, o que não é. / Basta de poetas com as mãos cruzadas / e de operários a cair de sono. / Somos poucos mas vale a pena construir cidades / ou morrer de pé.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
2 comentários:
De Aureliano Buendia a 9 de Janeiro de 2012 às 18:18
Cara, realmente minha intenção era ler seu texto, mas quando, no segundo parágrafo, me deparei com a palavra conselho escrita com C, desisti, desculpe.


De Aureliano Buendia a 9 de Janeiro de 2012 às 18:22
rsrrsr brincadeira, fiz contigo o mesmo q a pessoa q estava ao meu lado fez comigo, corri para conferir, grintando Será, Será possível. kkkkk

abraços, parabens pelo texto.


Comentar post

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Junho 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Couto Dornelas

. Couto Dornelas

. Poema Infinito (460): A t...

. Couto Dornelas

. S. Caetano

. 446 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. SF13 - Montalegre

. SF13 - Montalegre

. Poema Infinito (459): O v...

. SF13 - Montalegre

. SF13 - Montalegre

. 445 - Pérolas e Diamantes...

. Em Chaves

. Na aldeia

. Vilarinho Seco

. Poema Infinito (458): Vib...

. Na aldeia

. No horta

. 444 - Pérolas e Diamantes...

. Até já...

. Cantorias - Abobeleira

. No Douro

. Poema Infinito (457): Peq...

. Semana Santa - Barroso

. Na conversa

. 443 - Pérolas e Diamantes...

. Em Torgueda

. Ao portão com um sorriso

. Quaresma

. Poema Infinito (456): O v...

. Cozinha Barrosã

. Pastor

. 442 - Pérolas e Diamantes...

. No túnel

. No miradouro

. Na cozinha

. No forno

. No monte

. 441 - Pérolas e Diamantes...

. Na Abobeleira

. Na aldeia

. No Barroso

. Poema Infinito (455): O â...

. Na aldeia

. No Barroso

. 440 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. Na aldeia

. No Barroso

.arquivos

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar