Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

Quase um conto para o ano novo

 

O menino Jesus tinha sido generoso com as prendas. João rejubilava e o seu amigo António partilhava da mesma alegria. Eram meninos felizes. João recebeu uma camisola de lã feita pela vizinha dona Rosa na sua máquina de tricotar elétrica, uma bola de catechu, um autocarro de plástico, um barco à vela, um pião, a respetiva guita para o pôr a dançar, e um tambor branco de plástico.

 

António recebeu quase o mesmo, menos o tambor, que no seu caso foi substituído por uma “lousa” de plástico igualmente branco, na qual se podia desenhar com um lápis de grafite e que pretendia substituir a verdadeira, onde apenas se podia escrevinhar com um ponteiro que se afiava nas pedras dos muros ou nas paredes das casas. Mas o António pouco lhe ligou. Entreteve-se durante algum tempo a destruir o barco. Nisso era muito bom. Destruir brinquedos estava-lhe na massa do sangue. Ele dizia que os destruía para depois os construir de novo. Mas nunca conseguia. Limitava-se a destruí-los com a minúcia de um menino atrevido, colérico e mal-educado.

 

Mal o António tinha acabado de abater o barco à vela, pegou no autocarro e principiou a sua obra de destruição sistemática. Nesse momento João aproximou-se dele e mostrou-lhe, cheio de orgulho, o seu tambor de plástico. Deu-lhe algumas pauladas com as baquetas e ficou à espera. António, com um sorriso nos lábios, aproximou-se do amigo e tentou arrancar-lhe o brinquedo. Ficaram, à distância de um passinho, um em frente do outro a medirem-se. António, o meia leca, e João, o leca e meia.

 

“Leio e não acredito”, diz o R. sentado no sofá azul enquanto folheia o meu semanário regional de referência. Ele aqui está, a meu lado, tentando ler enquanto eu tento escrever. Eu emito um resmungo distraído. E ele: “Leio e não…” Desligo.

 

António fez uma cara crispada, furiosa mesmo, pois ainda estava com os despojos da camioneta na mão, qual cão protegendo o seu osso de borracha, e arrancou naquele preciso momento as rodas traseiras do autocarro. João limitou-se a erguer o tambor de plástico.

 

António empenhou-se em deixar cair o que restava do autocarro. Essa era a sua qualidade inata, destruir os seus brinquedos e ir à procura dos preferidos dos amigos. João entregou-lho. António, na sua obsessão destrutiva, segurou-o, deu-lhe duas ou três voltas e, ao contrário do habitual, a sua expressão apaziguou-se um pouco. Mais do que isso era pedir um milagre. Embora continuasse tenso, com o seu olhar furtivo, João achou que era chegado o momento de lhe entregar as baquetas.

 

“Leio e não acredito”, tenta outra vez desabafar o R., mesmo sabendo do nosso contrato. “O que é? Desembucha de uma vez e depois cala-te”, peço-lhe distraidamente. E ele: “Então não é que o PSD fez aprovar na Assembleia Municipal de Chaves seis moções, todas elas rogando ao «seu» Governo que volte atrás nas suas políticas de portajar as SCUT’S…” Desligo.

 

Infelizmente, António não entendeu o seu movimento, sentiu-se ameaçado, arrancou-lhe as baquetas das mãos com um golpe do rebordo do tambor e, quando o João se estava a baixar para agarrar nas baquetas, pegou num objeto que estava nas suas costas e acertou-lhe com ele. João, educado e apaziguador, chegou-lhe pela segunda vez as baquetas. Mas António, pegando na corda do pião, acertou-lhe com ela no rosto. Aquilo estava a ultrapassar os limites do razoável. Talvez um pouco surpreso pela passividade do amigo, António pegou no pião e começou a enrolar nele a guita utilizada para o pôr a rodar.

 

“Leio e não acredito”, desabafa o R., mesmo sabendo que enquanto eu escrevo ele tem de estar quieto e calado. Sobretudo calado. “O que é? Desembucha de uma vez e depois cala-te. Tornei a tornar eu.” E ele: “Então não é que o PSD fez aprovar na Assembleia Municipal de Chaves seis moções, todas elas rogando ao «seu» Governo que volte atrás no novo modelo de organização judiciária, apelando ao restabelecimento dos benefícios fiscais para as empresas do interior … Achas que isto é para valer? Achas?” “Não. Acho que é para inglês ver. Mas deslarga-me, deixa-me escrever…” Volto a desligar.

 

Enquanto António tentava girar o pião, João olhava para ele dando-lhe um apoio quieto. António tentava e tentava mas nada de colocar o pião a zunir. Mal ele batia no chão dava duas ou três voltas e caía logo para o lado. Insatisfeito com o resultado, de novo se virou para o amigo e tentou mais uma vez chicoteá-lo. Alguém tinha de ser o culpado pela falta de jeito do pequeno António. Todos menos o próprio. Feitios.

 

Depois começou a cantar a canção do pião de forma cada vez mais rápida e precisa. Lá cantar cantava, mas pôr o pião a dançar e a zunir isso não conseguia. Enquanto enrolava a guita ao redor do corpo bojudo do brinquedo, lá ia murmurando a canção do pião. Mas ele nada de rodar. Mal batia no chão, dava duas ou três voltas e tombava de seguida.

 

“Leio e não acredito”, desabafa o R., mesmo sabendo aquilo que os estimados já sabem de cor e salteado. “O que é? Desembucha de uma vez e depois cala-te. Ameacei-o.” E ele: “Então não é que o PSD fez aprovar na Assembleia Municipal de Chaves seis moções, todas elas rogando ao «seu» Governo que volte atrás, pugnando pela manutenção da urgência médico-cirúrgica, indignando-se contra o encerramento do Pólo da UTAD e apelando a uma reforma da administração e organização do território. Achas que isto é para valer? Achas?” “Não. Acho que é para inglês ver. Mas, por favor, deixa-me escrever…” E voltei de novo a desligar.

 

O menino António desistiu então do pião e foi à procura do seu amigo João que, naquele momento, se entretinha a tocar o tambor. Sorrateiramente, enrolou-lhe a corda à volta das pernas e puxou-a com força. João deu um enorme trambolhão. Ele para um lado e o tambor para o outro. António, veloz como uma doninha, correu na direção do tambor e pôs-se a examiná-lo. Desconfiado, como sempre, mantinha o seu amigo debaixo de olho.

 

De um momento para o outro, o tambor foi atirado contra a esquina de uma cadeira, depois a prenda rolou pelo chão até bater na perna de uma mesa. E ali ficou, exibindo o buraco da sua inutilidade. António, insatisfeito, foi então à procura do barco do amigo e arrancou-lhe as velas. Com a madeira do casco bateu no tambor. Mas não tentou sequer tocá-lo, desfê-lo. A sua mão não produziu o mais pequeno ritmo.

 

Quando de novo João quis servir de intermediário, apesar das dores que sentia no corpo e no seu orgulho ferido, António de novo pegou na guita e tentou fustigá-lo. João, já sem paciência, saiu da sala e foi brincar para o pátio.

 

António pegou mais uma vez no pião e tentou de novo colocá-lo a rodar e a zunir. Mas o pião, mal saía daquelas mãos pouco habilidosas para o pôr a rodar, dava duas ou três voltas e caía para o lado. O António insistiu, insistiu e tornou a insistir. Mas o pião, mal saía das suas mãos, dava duas ou três voltas e caía para o lado.

 

Irado, foi novamente à procura do João, mas o amigo já tinha ido brincar para sua casa. António começou então a chorar e tão alto o fez que a sua mãe, que era bastante surda de um ouvido, veio logo em seu socorro. Ele, amuado, queixou-se do abandono do João. A mãe fez-lhe uma festa e disse-lhe para ir à procura de outros amigos.

 

António pegou no pião e na guita e foi para a rua. Pediu ajuda a muitos meninos, prometendo-lhes partilhar muitos dos seus brinquedos estropiados e abandonados. Os mais pobres e os mais rufias, ainda tentaram ajudá-lo. O António, todos o sabiam, só era bom numa coisa: na ambição. Tudo o que via invejava. Mas não conseguia brincar, não arranjava amigos verdadeiros, não levava nada ao fim. Acabava sempre por brincar sozinho. Isto se considerarmos brincadeira danificar os seus brinquedos e estragar os dos amigos. 


publicado por João Madureira às 07:00
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