Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

O Filisteu na quinta da Anita

 

As tardes deste inverno de sol tímido dão-me tristeza. Uma tristeza densa e fria como já há muito não sentia. Quando era jovem, por vezes utilizava-as para, em vez de estudar, pôr-me a ler lindos romances de capa e espada. Enquanto lá fora o sol envergonhado nem sequer derretia a geada, dentro de casa, aquecido à lareira, imaginava como eram bonitos e corajosos os heróis dos romances de aventuras, de uma coragem verdadeira, a coragem de quem vence o medo pelo sentido de justiça e aspira a endireitar o que de torto encontra nos quatro cantos do mundo.

 

Mas depois também penso que quem faz da vida apenas uma enorme recordação não tem grande futuro.

 

Nos tempos que correm querem fazer-nos crer que os intrujões que estão no Governo são homens bons. Certamente que já o foram. No fundo todos o somos, apenas nos tornamos maus por culpa de alguém que, por sua vez, também se tornou mau por culpa de alguém que, por sua vez, também se tornou mau por culpa de outro. Sim, eu sei. Esta é uma cadeia infindável de culpados, mas sempre haverá alguém que lhe escapa.

 

O discurso dos nossos governantes é brutal, de uma brutalidade quase insana. Essa brutalidade pretende devorar quem se faz apetecido, o povo, este povo que se vê a caminho do precipício e é incapaz de dizer basta, que prefere falar em voz baixa, fazer pequenos gestos que querem dizer, “por favor, senhores ministros não se irritem, por favor”, assumindo sempre o tom de delicadeza atemorizada dos cordeiros, tentando acreditar que o futuro é cada um de nós sacrificar-se na convicção de que a vida não é feita senão de abdicação, subserviência e lástima. Este Governo brutal é incapaz de fazer melhor porque optou, inexoravelmente, por nos tornar piores.

 

Desta vez pretendia não vos falar das nomeações que o Governo fez. Mas a indignação tomou as rédeas deste meu escrito e, como muito bem diz o nosso povinho, o que tem de ser tem muita força. Ora pois então.

 

Dizem os jornais que nos primeiros seis meses de governação Pedro Passos Coelho já nomeou mais gente para cargos políticos do que o primeiro Governo do malfadado José Sócrates. E estão prometidas muitas mais nomeações nos próximos tempos. Ora isto marca um ponto de viragem na austera imagem do Governo. Já bem nos dizia António Aleixo: Os que bons conselhos dão / às vezes fazem-me rir / por ver que eles mesmos, são / incapazes de os seguir.

 

 

A cereja no topo do bolo foi a nomeação dos administradores para a EDP. A cangalha é constituída por: Rocha Vieira, um ex-militar ligado ao PSD; Jorge Braga de Macedo, ministro de Cavaco Silva, PSD retinto e histriónico, com certos tiques de esquizofrenia mediática e verborreica; Paulo Teixeira Pinto, ex-secretário de Estado de Cavaco Silva, PSD ilustre, pintor nas horas vagas e poeta nos anos bissextos; Ilídio Pinto, acionista da Fomentinvest, curiosamente a última empresa onde Passos Coelho trabalhou. E ainda a inenarrável Celeste Cardona, antiga ministra da Justiça do governo do PSD/CDS.

 

Catroga, o homem que não gosta de discutir “pintelhos”, mas adora ganhar milhões enquanto os outros andam a contar os tostões, diz que as escolhas, entre elas a sua, foram feitas porque os chineses já os conheciam. Estamos em crer que sim senhor. No entanto não são estes os únicos portugueses que são conhecidos dos chineses.

 

Sabemos de ciência certa que todos os trapaceiros acima citados são pessoas com fortíssimas ligações aos partidos da (des)governação. Ou seja, o PSD e o CDS, que gritavam aos quatro ventos o escândalo das putativas nomeações dos “boys” pelo governo do engenheiro Sócrates, duma vez só envia, e pela mão enluvada do primeiro-ministro, para as cadeiras douradas da EDP, um grupo, não de “boys”, mas antes de “old boys”, quinquilharia que, de tão gasta e ferrugenta, devia era ir para abate.

 

No entanto Pedros Passos Coelho resolveu pagar àqueles “príncipes aposentados” o preço do compadrio, da gestão dos lobbies, da baixa política de bastidores, da subserviência, da mentira, da demagogia, da inoperância, do “amiguismo” e do embuste.

 

Apesar de me custar, tenho de o dizer, este primeiro-ministro é um intrujão. É um aldrabão porque disse coisas que ficaram escritas e que atestam o seu grau de impostura.

 

A 14 de julho de 2011, afirmou na reunião Nacional do PSD: “A nossa preocupação não é levar para o Governo amigos, colegas ou parentes, mas sim os mais competentes.”

 

As nomeações para as “Águas de Portugal” indicam precisamente o contrário. Para lá foram indicadas pessoas de competência técnica mais que duvidosa, mas todos eles com cartão ou do PSD (que se anda a empanzinar de tachos) ou do CDS (que também se anda a fartar à custa do Estado, que diz abominar e pretender destruir).

 

Em plena campanha eleitoral, o trafulha do atual primeiro-ministro, afiançou para quem o quis ouvir. “Não quero ser eleito para dar emprego aos amigos”. Seis meses após ter ido para o governo já atulhou todos os cargos de nomeações com gente do PSD e do CDS. Mesmo para o Centro Cultural de Belém nomeou o putativo Dante português, Vasco Graça Moura, que até se benzia e cuspia sempre que falava do engenheiro Sócrates e dos seus “boys”.

 

O burlão do primeiro-ministro, apesar de ter escrito no programa executivo do PSD/CDS que “o Governo compromete-se a despartidarizar o aparelho do Estado”, está a fazer exatamente o contrário. Todos os cargos estão a ser ocupados pelos militantes e simpatizantes do PSD e do CDS.

 

O filisteu que nos (des)governa, disse ao DN a 27 de julho de 2011 que “quando nos aparecer alguém a dizer ‘são todos iguais’, perderemos o tempo que for preciso a explicar ‘não, não somos iguais’”.

 

Isto para não falar na tal ladainha de vendedor de banha da cobra sobre o “impensável” corte no subsídio de férias e de Natal, na mais do que “improvável” subida de impostos, no “reforço e melhoramento” do Serviço Nacional de Saúde e da Segurança Social, na mais que “provável descida” da taxa de desemprego, etc., etc., etc., etc., etc. e etc, e etc. e ainda mais etc. etc. e etc. e tal.

 

O nosso presidente da República, com a sua incomensurável idiotice de gato pardo, tentou fazer-se de coitadinho, caindo no ridículo e perdendo a compostura. Ele que se reformou e se vai locupletando com as benesses de um Estado que ajudou, e de que maneira, a falir, criando um buraco financeiro do tamanho da cratera do vulcão dos Capelinhos. Já George Orwell nos tinha lembrado que todos os animais são iguais, só que há uns animais que são mais iguais do que outros.

 

As mentiras como punhos que este Governo teima em propalar, de forma vingativa em relação ao seu povo, tornam atualíssima uma quadra de António Aleixo: P'ra mentira ser segura / e atingir profundidade / tem de trazer à mistura / qualquer coisa de verdade.

 

PS – Tenho de confessar, embora me custe, que desta vez tinha destinado este espaço para escrevinhar algumas palavras de aplauso e reconhecimento ao presidente da Câmara de Chaves pela sua “década de progresso” frente aos destinos da nossa cidade e do nosso concelho. Por desgraça, o chefe do governo da Nação meteu-se ao meio e desviou-me do meu principal objetivo. Prometo que fica para a próxima. Desde já as minhas mais sinceras desculpas. 


publicado por João Madureira às 07:00
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