Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012

O Poema Infinito (86): a mesa iluminada

 

A mesa está iluminada pelos elementos que alargam e concretizam o espaço e o tempo. Lá fora a terra respira a surpresa do vento. Cá dentro o afeto ajusta-se ao nosso tamanho. A mesa expõe a inteligência do pão e do vinho. É essa a insondável alegria dos limites. Cada vez mais é visível a invisibilidade e a insondável saudade da tua prolixa nudez. Regressa de novo a memória aberta, a presença das coisas esquecidas, o culto do trabalho, o rigor da preguiça, a compenetração, o estudo, o mundo aquático dos teus olhos recolhidos. E a idade retém o sossego e a sua sombra antiga. Todos os sítios se alargam na minha consciência e o brilho dos fenómenos mais comezinhos torna-se um imprevisto de júbilo e solidão. Interminavelmente a luz continua a guiar-nos para o abismo. O teu rosto é uma abundância de beleza. As tuas formas são como as formas humanas voadoras, os animais voláteis e os frutos lúcidos da terra pintados por Chagall. Esta é a hora em que toda a sabedoria se endominga à mesa e o dia se iliba do esplendor da noite e Deus se vinga da sua policromia. Fixo-me na tua paciência iluminada e no teu exercício de espera. Por isso invento o sítio perfeito onde os ecos são irrepetíveis. Deduzo a paciência da música. Se um poeta antigo se afirmava um pastor de rebanhos, eu nomeio-me um pastor de ritmos. E seja o que Deus quiser. Por isso continuo a ouvir a paciência atenta da luz que ilumina a mesa e a tua invisível visibilidade e a saudade aberta da tua nudez dilatada e o rigor da memória e o mundo imprevisto do nosso júbilo e a sabedoria lúcida do brilho dos teus olhos e daí deduzo o fulgor específico da firmeza, da subtil firmeza da solidão, da singular extensão das imagens fotográficas, da mentira limpa da eternidade, da passagem fugaz de todas as tardes já passadas, da espessura invisível dos limbos, da gravitação neutra da morte, da abstração da inteligência, da ascensão tensa dos santos, do júbilo dos hereges, da penitência de todas as mulheres que sempre foram e serão virgens e também de todas as mulheres violadas, de todas as frases feitas e desfeitas com todo o carinho por homens desistentes. De novo o tempo é uma deriva frágil. Alguém celebra uma nova narração. A ausência de glória é uma dádiva eficaz. Por isso nos afeta a fé que se baseia na prefiguração da verdade. Por isso nos acolhemos naquilo que nos falta. 


publicado por João Madureira às 07:00
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